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ED 053
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O elefante que ninguém viu inteiro

No galpão escuro de Rumi, cada mão tocou uma parte do bicho e jurou que conhecia o todo.

Mãos estendidas no escuro de um galpão tocam a tromba, a orelha e a perna de um elefante iluminado só por uma fresta.

Mãos no escuro tocam a tromba do elefante

▼
 

"Se cada um tivesse uma vela na mão, a diferença sairia das palavras deles", ditou Jalal ad-Din Rumi ao discípulo Husam al-Din Chelebi, em Konya, na Anatólia do século XIII. A frase fecha uma das histórias mais curtas e mais citadas do Masnavi, o longo poema em dísticos rimados (pares de versos) que Rumi compôs nos últimos anos de vida.

Rumi nasceu em 1207 em Balkh, no atual Afeganistão, e fugiu criança com a família das invasões mongóis até se fixar em Konya, onde ensinou e escreveu até 1273.

A cena é simples. Um grupo de viajantes vindos da Índia traz um elefante para exibir numa cidade que nunca tinha visto um. Deixam o animal num galpão fechado, sem janela e sem lamparina.

A notícia corre, e a gente da cidade faz fila na porta. Como não há luz, cada visitante entra, estica o braço e apalpa o que alcança. Depois sai e conta aos outros como é o elefante.

Rumi não inventa essa cena do nada. Ela já corria em textos budistas mais de mil anos antes dele e passou por poetas persas que ele leu na juventude. O que muda na versão dele é o escuro: os visitantes enxergam bem, só falta a luz no galpão.

O detalhe pesa. Na versão antiga, quem tateia o bicho são cegos de nascença, e o leitor pode achar que o problema é deles. No galpão de Rumi, qualquer um de nós poderia estar na fila, com os olhos perfeitos e a mão estendida.

Cada visitante sai do galpão com uma certeza firme e errada. Ninguém mente. Todos descrevem com exatidão o pedaço que tocaram, e é justamente essa exatidão que torna a briga impossível de resolver na porta.

Primeiro, a fábula contada mão por mão, do galpão até a discussão na rua. Depois, de onde veio a história e por quantas línguas ela passou até chegar a Konya. No encerramento, o que o escuro ensina a quem tem certeza demais.

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I  A Fábula do Dia

Quatro mãos no galpão

Ninguém saiu de lá sem uma opinião.

O Elefante no Escuro é a fábula do Masnavi, de Jalal ad-Din Rumi, em que moradores de uma cidade apalpam um elefante num galpão sem luz e cada um descreve um animal diferente. A fila começou ao entardecer.

O primeiro visitante entrou devagar.

Tateou o ar até encontrar algo comprido e mole.

A peça se mexia, subia e descia, soprava quente.

Ele segurou com as duas mãos e sentiu o oco por dentro.

Saiu dizendo que o elefante era um cano de água.

O segundo esbarrou numa lâmina larga e fina.

Ela abanava sozinha, abria e fechava contra o rosto dele.

Ele riu e jurou que o bicho era um leque enorme.

O terceiro tropeçou numa base grossa e firme.

Abraçou a peça inteira e não alcançou a volta.

Era dura como tronco e não saía do lugar.

Esse contou na rua que o elefante era uma coluna.

O quarto subiu a mão mais alto e achou as costas.

Uma superfície larga, curva, quente de sangue.

Disse que o animal era um trono, feito para rei sentar.

Na porta do galpão, os quatro se encontraram.

Cada um repetiu o que tinha tocado.

O do cano achou o do leque um mentiroso.

O da coluna chamou o do trono de sonhador.

A discussão subiu de tom e juntou gente.

Os que ainda estavam na fila escutavam sem entender.

Como um bicho só podia ser quatro objetos diferentes?

Ninguém propôs entrar de novo com uma lamparina.

Ninguém pensou em juntar as quatro descrições.

Um velho da fila pediu calma e foi empurrado para trás.

Cada um defendia o pedaço que a própria mão garantia.

E cada um tinha razão sobre aquele pedaço.

Lá dentro, o elefante continuava de pé, inteiro, comendo o feno.

Rumi fecha a cena falando direto ao leitor.

O olho da palma da mão, escreve ele, não alcança o elefante inteiro.

Se houvesse uma vela, a briga acabava antes de começar.

 
 

II  A Origem

De Savatthi a Konya

A fábula tem pelo menos três paradas registradas: um sermão atribuído ao Buda, o poema de Sanai no século XII e o Masnavi de Rumi no século XIII.

A versão mais antiga conhecida está no Udana (Exclamações, em páli), uma coleção de falas atribuídas ao Buda no cânone budista. Nela, um rei de Savatthi, cidade do norte da Índia, manda reunir cegos de nascença e pôr um elefante na frente deles.

Cada cego toca uma parte. Quem pega a cabeça diz que o elefante é um pote; quem pega a orelha, uma peneira de grãos; quem pega a presa, uma relha de arado. A discussão vira briga a socos, e o rei acha graça.

O Buda conta a cena aos monges para falar dos pregadores da época, que brigavam por doutrinas e só enxergavam um lado de cada questão. No texto, a comparação é dele, e o riso do rei fica sem resposta.

A passagem pela Pérsia

A história atravessou a Ásia Central e chegou ao persa. O poeta Sanai de Ghazni, que viveu no atual Afeganistão, pôs a fábula no Hadiqat al-Haqiqa (Jardim murado da verdade), poema místico terminado no século XII.

Em Sanai, os cegos moram numa cidade chamada Ghur e saem para conhecer o elefante de um rei acampado perto dos muros. Cada um volta com uma parte e ensina o erro aos vizinhos, que ficam ainda mais confusos.

Rumi conhecia Sanai de perto. Os biógrafos do poeta contam que ele lia o Hadiqat com os discípulos em Konya, e o Masnavi cita Sanai pelo nome em vários trechos.

Se houvesse uma vela na mão de cada um, as falas deles deixariam de divergir.

Jalal ad-Din Rumi, Masnavi, livro III, século XIII: o verso fecha a fábula do elefante na tradução do persa para o inglês feita por Reynold Nicholson, publicada entre 1925 e 1940.

O que Rumi mudou

A troca decisiva foi tirar a cegueira. Em Rumi, os visitantes enxergam, mas o galpão está escuro. O limite deixa de ser do corpo de quem toca e passa a ser do lugar onde a pessoa está.

Rumi também mudou o fim. No Udana, a cena termina no riso do rei; em Sanai, na confusão da cidade. No Masnavi, termina numa vela que ninguém acendeu, e a solução fica escrita no próprio verso.

A fábula ainda viajaria para o Ocidente. Em 1872, o poeta americano John Godfrey Saxe publicou The Blind Men and the Elephant (Os cegos e o elefante), que voltou aos cegos e levou a história para as escolas de língua inglesa.

O poema de Saxe tem seis cegos, e as comparações mudam: a presa vira lança, a cauda vira corda, a tromba vira cobra. Termina com uma estrofe dizendo que cada um estava em parte certo e todos estavam errados. A vela de Rumi ficou para trás, e a fábula voltou a ser sobre o limite de quem toca.

 

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III  A Lição que Fica

A vela que ninguém acendeu

O escuro não engana ninguém; é a pressa que engana.

Repare que nenhum visitante do galpão errou no que sentiu. O cano soprava, o leque abanava, a coluna aguentava peso. O erro de todos foi um salto só: da parte que a mão tocou para o bicho inteiro.

Rumi escreveu a fábula para falar de Deus, que para ele cada religião apalpava por um lado. Mas a cena serve bem fora da mística, em qualquer conversa em que duas pessoas brigam com metade da informação cada uma.

Quem toca a tromba não precisa largar a tromba; precisa perguntar quem tocou a perna.

A vela de Rumi não é um poder especial. É um objeto comum, que qualquer visitante poderia ter trazido de casa. O poema cobra justamente esse gesto: acender a luz antes de sair falando.

Vale olhar também para quem ficou na fila. Essas pessoas nunca tocaram o elefante e mesmo assim saíram da porta com uma opinião, emprestada do visitante que falou mais alto. No galpão de Rumi, o boato anda mais rápido que a mão.

A saída que o poema oferece é modesta: somar as partes. Quem juntasse o cano, o leque, a coluna e o trono teria um desenho torto, mas muito mais perto do bicho do que qualquer peça sozinha. Faltou alguém disposto a ouvir antes de discordar.

Há ainda um ponto que a versão persa deixa em aberto. Rumi não conta quem trouxe o elefante nem o que aconteceu com o animal depois da exibição. O poema larga os dois de lado porque o assunto dele é a fila na porta, e o texto não dá outra pista.

Antes de ler: pergunte à criança se ela já brigou com alguém que viu a mesma cena de outro lugar.

No galpão escuro: peça que ela feche os olhos e adivinhe um objeto só pelo tato.

Na discussão da porta: pergunte quem tinha razão, e deixe a resposta surgir sozinha.

Na vela de Rumi: pergunte o que cada visitante precisava fazer para ver o bicho inteiro.

O adulto reconhece a cena na reunião em que o vendedor e o financeiro descrevem o mesmo cliente como dois clientes diferentes, e na família em que cada filho guarda uma versão da mesma mãe.

“Qual parte do elefante você anda defendendo como se fosse o bicho inteiro?”

Os visitantes foram embora ao anoitecer, cada um com sua versão.

O elefante ficou.

 
 
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No galpão do elefante contado por Rumi, os visitantes enxergavam perfeitamente. Por que, mesmo assim, cada um saiu com uma descrição diferente do bicho?

APorque tinham os olhos vendados por um ritual da cidade
BPorque o elefante se mexia demais e ninguém tocava duas partes
CPorque o galpão estava sem janela e sem lamparina acesa
DPorque eram cegos de nascença, como na versão budista mais antiga

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