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Fábula do Dia   Fábula do Dia
ED 057

A 15ª pauta escolhida pelos leitores. Aqui está.

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O galho que as árvores deram ao machado

Na fábula de Esopo, o bosque cede um galho de freixo ao lenhador, e o machado montado derruba as árvores até o carvalho.

Um lenhador na entrada de um bosque de carvalhos e freixos, segurando uma lâmina de machado sem cabo, diante das árvores altas.

O lenhador entra no bosque com o machado sem cabo

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"Só preciso de um galho pequeno, para fazer o cabo", disse o lenhador às árvores, parado na entrada do bosque, com a lâmina de ferro na mão.

A frase abre O Lenhador e as Árvores, fábula grega que circula com o nome de Esopo, o contador de histórias que a tradição põe na ilha de Samos no século 6 antes de Cristo.

O homem chega sem ferramenta inteira. Traz a cabeça do machado, pesada e afiada, e nenhum pedaço de madeira para segurar. Sozinho, o ferro não corta nada. Fica parado na mão dele como uma pedra com fio.

As árvores escutam. São muitas, velhas e novas, de folha larga e de folha miúda. O pedido parece pequeno demais para merecer briga. Um galho só, e o homem promete ir embora.

Elas conversam entre si. As grandes não querem perder nada. As pequenas têm medo de discutir com quem traz ferro. O mais velho sugere uma saída que agrada a todas: dar ao homem um galho do freixo.

O freixo é a árvore de madeira mais dura e mais elástica do bosque. Ninguém pergunta ao freixo o que ele acha. A decisão sai da roda das árvores grandes, que respiram aliviadas por não terem sido escolhidas.

O lenhador recebe o galho, senta numa pedra e trabalha a madeira com calma. Tira a casca, alisa, mede o encaixe no buraco da lâmina, bate com a palma até ficar firme.

Quando levanta, já não segura uma pedra com fio. Segura uma ferramenta.

O primeiro golpe vai no tronco mais próximo. Depois no outro, e no outro, numa fila que atravessa o bosque.

Adiante, a fábula contada inteira, com o que as árvores disseram enquanto caíam. Depois, de onde ela veio, de Esopo até o francês Jean de La Fontaine. Por fim, o que o galho de freixo ensina sobre o que se entrega para ficar em paz.

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I  A Fábula do Dia

Um galho para o cabo

O Lenhador e as Árvores é a fábula de Esopo em que o bosque, para se livrar de um pedido incômodo, cede ao lenhador o galho de freixo que faltava ao machado, e o machado montado com essa madeira derruba as árvores uma por uma.

O lenhador entrou no bosque de manhã cedo.

Trazia a lâmina do machado embrulhada num pano.

O cabo tinha quebrado na lida da semana anterior.

Sem cabo, a lâmina era só um peso de ferro.

Ele parou diante das árvores e falou alto.

Pediu um galho, um só, para fazer o cabo novo.

Prometeu que, montado o machado, iria trabalhar longe dali.

As árvores fizeram conselho, como fazem os bichos e as plantas nas fábulas.

O carvalho, que era o mais velho, não queria ceder nada.

O cedro achava o pedido pequeno e o homem perigoso.

As árvores menores tremiam as folhas e ficavam quietas.

Foi o carvalho quem deu a ideia final.

Que o homem levasse um galho do freixo.

O freixo era jovem, de madeira reta e forte.

Ninguém gostava muito dele, e ninguém o defendeu.

O freixo ouviu a decisão e não disse nada.

Árvore nova não tinha lugar no conselho.

O galho foi entregue ao lenhador sem demora.

Ele agradeceu e sentou para trabalhar a madeira.

Descascou, desbastou, encaixou o galho no olho da lâmina.

Experimentou o peso, deu dois golpes no ar.

Então caminhou até a primeira árvore e bateu.

Ela caiu com um estalo comprido.

Ele foi à segunda, à terceira, à quarta.

O freixo caiu cedo, cortado com a própria madeira.

O cedro caiu à tarde, com o tronco aberto em lascas.

As árvores menores caíram sem que ninguém contasse.

O carvalho via a fila de tocos chegando perto.

Quando o lenhador parou diante dele, o carvalho falou ao cedro caído.

Disse que o primeiro passo tinha perdido o bosque inteiro.

Se tivessem negado o galho do freixo, ainda estariam de pé.

O lenhador limpou a lâmina e ergueu o machado.

 
 

II  A Origem

De Esopo a La Fontaine

A fábula passou de boca em boca entre os gregos, foi copiada em coleções escritas séculos depois de Esopo e chegou à Europa moderna por tradutores que lhe deram outras árvores e outros finais.

Esopo é nome sem biografia segura. O historiador grego Heródoto, nas Histórias, escritas no século 5 antes de Cristo, menciona Esopo como escravo de um homem chamado Iadmon, na ilha de Samos. Quase tudo além dessa linha é lenda.

Nenhum livro de Esopo sobreviveu. O que existe são coleções feitas depois, em grego e em latim, que juntaram fábulas de autoria variada sob o nome dele.

O número da fábula

O filólogo americano Ben Edwin Perry organizou essas fábulas em 1952, no livro Aesopica, e deu a cada uma um número. O Lenhador e as Árvores leva o número 302 no Índice Perry (a lista numerada que os estudiosos usam para citar fábulas de Esopo sem confusão de título).

Nas coleções gregas, a árvore que cede a madeira muda de manuscrito para manuscrito. O freixo se firmou nas traduções inglesas, porque era a madeira mais usada em cabo de ferramenta na Inglaterra.

A versão inglesa

O tradutor que fixou o elenco mais conhecido foi o reverendo George Fyler Townsend, em Três Centenas de Fábulas de Esopo, de 1867. Na versão dele, as árvores escolhem o freixo, e quem lamenta no final é um carvalho velho, falando a um cedro vizinho.

Townsend era clérigo da Igreja Anglicana e traduziu as fábulas a partir dos textos gregos, numa prosa curta pensada para leitura em família.

O primeiro passo nos perdeu a todos. Se não tivéssemos entregado os direitos do freixo, ainda poderíamos ter guardado os nossos.

George Fyler Townsend, Três Centenas de Fábulas de Esopo, 1867: a fala do carvalho velho, a única das árvores que entende o erro, e entende tarde.

A versão francesa

Jean de La Fontaine contou a mesma história em versos, na fábula A Floresta e o Lenhador, do Livro 12 das Fábulas, publicado em 1694. No poema dele, o lenhador quebra o cabo, pede um galho à floresta e jura que vai cortar em outro lugar.

A floresta acredita. O lenhador monta a ferramenta e começa a derrubar a mãe que lhe deu o galho. La Fontaine fecha o poema dizendo que o mundo está cheio de ingratos assim.

O Livro 12 foi dedicado ao jovem duque de Borgonha, neto do rei Luís 14, que tinha como preceptor o arcebispo François Fénelon. Para um menino que um dia poderia herdar o trono, a fábula servia de aviso sobre quem pede pouco e promete muito.

A versão grega e a inglesa olham para outro lado. O culpado delas não é só o homem que mente. São as árvores que entregaram a menor delas para ficar em paz.

 

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III  A Lição que Fica

O preço de entregar o mais fraco

O pedido do lenhador parecia pequeno. Um galho, num bosque com milhares de galhos. Ninguém sentiria falta.

O bosque fez a conta errada. Mediu o tamanho do galho e não mediu o que o galho faria depois de encaixado no ferro.

A segunda conta errada foi a escolha do freixo. As árvores grandes protegeram a si mesmas entregando a que tinha menos voz. Pareceu prudência. Era o primeiro corte.

Quem cede o galho do vizinho para se livrar do machado está montando o machado.

A fábula mostra um terceiro ponto, que o carvalho só vê no fim. A lâmina sozinha não fazia mal a ninguém. O perigo veio da madeira do próprio bosque.

O lenhador não precisou de força para vencer o bosque. Precisou de um sim. Toda a violência que veio depois cabia naquele primeiro acordo, feito em voz baixa entre as árvores grandes.

Há ainda a promessa. O homem jurou que iria trabalhar longe dali, e as árvores aceitaram a palavra sem pedir garantia. Promessa de quem ganha a ferramenta vale pouco depois que a ferramenta está montada.

Em casa, a cena aparece no irmão mais velho que deixa o caçula levar a culpa para escapar da bronca. Na escola, na turma que fica quieta quando o colega mais tímido é escolhido como alvo da piada.

No adulto, aparece na equipe que aceita o corte do colaborador mais novo porque o pedido veio pequeno, e na roda de amigos que entrega o ausente para manter a conversa leve.

Para a criança, a fábula deixa uma pergunta simples de fazer em voz alta: de quem era o galho? Quem dá o que pertence a outro não sente o corte na hora. Sente depois, quando a fila de tocos chega à própria raiz.

Quem lê a fábula em voz alta tende a parar no carvalho. Vale parar antes, no freixo. Ali o bosque ainda tinha saída.

Antes de ler: pergunte à criança se ela já entregou um brinquedo de outra pessoa para encerrar uma briga.

No conselho das árvores: pare quando o carvalho sugere o freixo e pergunte por que ninguém pergunta ao freixo.

No primeiro golpe: pergunte de onde veio a madeira do cabo que derrubou a primeira árvore.

No carvalho: pergunte o que as árvores poderiam ter respondido ao lenhador logo no começo.

“Que galho você já entregou para ficar em paz?”

O lenhador seguiu pela fila de tocos.

O carvalho caiu.

 
 
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