|
|
|
{{saudacao | Bom te ver por aqui.}} {{saudacao_nome | }}
|
|
|
A edição de hoje foi escolhida pela maioria dos leitores na votação de ontem.
|
| {{subiu_orn | }} |
{{subiu_num | }} |
{{subiu_orn | }} |
{{subiu_caps | }}
{{subiu_linha | }}
|
|
O gambá que dançou com a cauda raspada
No conto cherokee que James Mooney publicou em 1900, o gambá confia a cauda ao grilo e só vê o estrago no meio do baile.
|
O gambá orgulhoso e o grilo com o fio vermelho
|
| ▼ |
| |
|
“Vejam a minha cauda bonita”, cantava o gambá toda manhã na beira do mato, nas montanhas onde viviam os cherokees, enquanto penteava o pelo comprido diante dos outros bichos.
No começo, a cauda dele era a mais vistosa da floresta. Grossa, felpuda, cheia de pelo do tronco à ponta. O gambá a lavava, a escovava e falava dela a qualquer um que parasse para ouvir.
Os outros bichos já sabiam a cantiga de cor. Ninguém aguentava mais.
O coelho aguentava menos que todos. A cauda dele era um tufo curto, quase nada, e a cada manhã de cantoria a inveja crescia um pouco.
Então chegou a notícia de um grande conselho. Todos os animais iam se reunir para uma dança, e cabia ao coelho, o mensageiro da floresta, levar o convite de toca em toca.
Ao passar pela casa do gambá, o coelho perguntou se ele iria. O gambá respondeu que só iria se ganhasse um lugar especial, onde todos pudessem ver a cauda dele.
O coelho prometeu o lugar. Prometeu mais: mandaria alguém para pentear e enfeitar a cauda antes da festa, para que o gambá chegasse impecável.
O gambá ficou contente e aceitou. Não perguntou quem viria, nem por que o coelho, tão calado nas manhãs de cantoria, agora queria ajudar.
O enviado foi o grilo. Entre os cherokees, o grilo tinha fama de cortador de cabelo, um barbeiro, e ninguém na floresta trabalhava melhor com pelo.
A história foi anotada por James Mooney, etnólogo do Bureau de Etnologia Americana, em Washington, e publicada em 1900 no livro Myths of the Cherokee (Mitos dos Cherokees). Mooney ouviu os contos de narradores cherokees nas montanhas da Carolina do Norte, ao longo de mais de dez anos.
Adiante, o que o grilo fez com a cauda e o que o gambá viu no meio da dança. Em seguida, quem foi Mooney e quem contou a ele a história. Por fim, o que o conto ensina a quem aceita elogio sem olhar quem o oferece.
Continue lendo ↓
|
|
|
|
I A Fábula do Dia
O fio vermelho e a dança
|
|
O conto que os cherokees chamam de a história de por que a cauda do gambá é pelada termina com o bicho mais vaidoso da floresta caído de costas no chão, diante de todos.
O grilo chegou à casa do gambá na véspera do conselho. Trazia um fio vermelho e disse que vinha a mando do coelho, para deixar a cauda pronta.
O gambá deitou e esticou a cauda. Fechou os olhos enquanto o grilo trabalhava, e o trabalho era tão macio que ele quase dormiu.
O grilo enrolou o fio vermelho na cauda, do tronco à ponta, bem apertado. Explicou que o fio servia para manter o pelo liso até a hora da dança, e que só devia ser tirado no meio do conselho.
Enquanto enrolava, o grilo cortava. Rente à pele, pelo por pelo, da base até a última volta do fio.
O gambá não sentiu nada. A cauda continuava embrulhada, e por fora só se via o vermelho.
Na noite do conselho, ele chegou à casa da dança e encontrou o lugar prometido à sua espera. Sentou, esperou a vez e, quando chamaram, foi para o centro.
Desenrolou o fio. Começou a dançar.
“Vejam a minha cauda bonita”, cantava, girando para que todos vissem.
Os bichos gritaram. O gambá achou que era admiração e deu mais uma volta.
“Vejam como ela brilha”, cantou, e os gritos aumentaram.
Na terceira volta, ele entendeu que os gritos eram risada. Todos riam ao mesmo tempo, apontando para trás dele.
O gambá olhou a própria cauda.
Não havia um único pelo. Da base à ponta, a cauda estava pelada como a de um lagarto, rosada e fina, igual a uma cobra.
O gambá ficou tão espantado e tão envergonhado que não conseguiu dizer nada. Rolou de costas no chão, ali mesmo, sem forças, e ficou deitado mostrando os dentes num sorriso parado.
O conto fecha explicando que o gambá faz o mesmo até hoje. Pego de surpresa, cai de costas, fica imóvel e arreganha os dentes, como na noite do conselho.
A cauda nunca mais cresceu.
|
|
|
|
|
II A Origem
O etnólogo e o curandeiro Ayunini
|
|
James Mooney ouviu a história do gambá entre os cherokees que ficaram nas montanhas da Carolina do Norte quando o resto da nação foi expulso para o oeste.
|
Mooney nasceu em 1861, em Richmond, Indiana, filho de imigrantes irlandeses. Entrou em 1885 no Bureau de Etnologia Americana (o órgão do Instituto Smithsonian dedicado aos povos indígenas dos Estados Unidos).
Em 1887, viajou pela primeira vez até a reserva da Banda Oriental dos Cherokees, nas montanhas Great Smoky. Voltou muitas vezes nos anos seguintes, morando semanas nas casas dos narradores e anotando tudo em cadernos.
Quem ficou para trás
Os cherokees da Carolina do Norte descendem de famílias que escaparam da remoção forçada de 1838 e 1839, a marcha que os próprios cherokees chamam de Trilha das Lágrimas. A maior parte da nação foi levada a pé para o atual Oklahoma.
Os que se esconderam nas montanhas guardaram a língua, as cerimônias e os contos. Foi com eles que Mooney trabalhou.
O narrador principal
O informante mais importante de Mooney foi Ayunini, chamado em inglês de Swimmer (o nadador). Era curandeiro, conhecia as fórmulas sagradas e sabia de cor dezenas de mitos.
Ayunini tinha um caderno escrito no silabário cherokee (o sistema de escrita criado por Sequoyah por volta de 1821, com um sinal para cada sílaba da língua). Mooney comprou o caderno e o estudou com ele.
Ayunini viveu até 1899. Morreu um ano antes de o livro sair, e Mooney o descreve como a maior autoridade nos contos antigos que encontrou.
O livro de 1900
Myths of the Cherokee saiu no décimo nono relatório anual do Bureau, com 126 mitos e longas notas. O conto do gambá está no grupo dos mitos de animais, ao lado de outro que explica a cauda curta do coelho.
|
“Possum used to have a long, bushy tail, and was so proud of it that he combed it out every morning and sang about it at the dance.”
|
James Mooney, Myths of the Cherokee, 1900: “O gambá tinha uma cauda longa e felpuda, e se orgulhava tanto dela que a penteava toda manhã e cantava sobre ela na dança.”
Nas notas, Mooney explica o papel do grilo. Para os cherokees, o grilo é o barbeiro dos bichos, e o canto dele lembra o som de uma tesoura cortando.
O que Mooney não registrou foi a idade do conto. Não há data possível: a história circulava de boca em boca muito antes de qualquer cherokee escrever, e o livro de 1900 é o primeiro registro impresso que se conhece.
|
| |
|