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Fábula do Dia   Fábula do Dia
ED 050

1 leitor escolheu O Gato Raminagrobis. Aqui está.

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O gato surdo que julgou a briga da toca

A doninha tomou a casa do coelho. Os dois pediram justiça a um gato velho, que só pediu que chegassem mais perto.

O gato Raminagrobis, gordo e de olhos semicerrados, estende as patas para a doninha e o coelho diante dele.

Raminagrobis chama os dois para perto

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"Cheguem mais perto, meus filhos, que eu já ouço mal", disse o gato Raminagrobis aos dois bichos parados diante da casa dele, na fábula que Jean de La Fontaine publicou em 1678. A doninha e o coelho obedeceram. Foi o último passo que deram.

A briga tinha começado numa manhã de primavera. O coelho, chamado Jean Lapin no original francês, saiu cedo da toca para comer tomilho e pisar no orvalho. Quando voltou, a doninha já morava lá dentro, com os pertences dela arrumados.

Ela não pediu licença. A toca estava vazia, disse, e casa vazia pertence a quem entra primeiro. O coelho respondeu que a toca vinha do pai e do avô dele, e que o costume da terra valia mais que a pressa de uma intrusa.

Nenhum dos dois cedeu. A doninha propôs levar o caso a um juiz, e o coelho aceitou o árbitro que ela sugeriu: um gato velho, gordo, de pelo bem tratado, que vivia como eremita e tinha fama de santo entre os bichos da vizinhança.

La Fontaine não esconde a armadilha. Na descrição do juiz, usa a palavra chattemite (em francês antigo, quem finge doçura para enganar), um trocadilho com chat, gato. Quem lia a fábula em Paris já sabia o que vinha.

O texto cabe numa página e está no livro VII das Fábulas, a segunda grande coletânea do autor. Os leitores da corte de Luís XIV riram dele porque reconheciam o tribunal descrito ali, com a toga forrada de pele e a mão aberta para os dois lados.

Abaixo vem a fábula contada passo a passo, da toca vazia até o bote do gato. Depois, de onde La Fontaine tirou o enredo, que viajou da Índia antiga até Paris, e por que deu ao juiz um apelido emprestado de Rabelais. No encerramento, o que a toca ensina sobre chamar um terceiro para resolver briga pequena.

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I  A Fábula do Dia

A toca que ficou vazia

Uma toca, dois donos e um juiz que dizia não ouvir.

O Gato, a Doninha e o Coelhinho é a fábula 16 do livro VII de Jean de La Fontaine, com três personagens: Jean Lapin, o coelho; a doninha, que o texto chama de dona Doninha; e o gato Raminagrobis. A história começa ao amanhecer.

Jean Lapin saiu cedo da toca, como fazia todo dia.

Foi comer tomilho no campo e passear no orvalho.

Deixou a porta aberta, porque nunca tinha precisado fechar.

A doninha passava por perto e viu a entrada livre.

Entrou, olhou os cantos e gostou do lugar.

Trouxe os pertences dela e se instalou sem pressa.

Quando o coelho voltou, encontrou o focinho dela na janela.

"Dona Doninha, saia da minha casa agora mesmo."

"Senão chamo todos os ratos da vizinhança para tirar a senhora."

A doninha nem se mexeu do lugar.

"A terra é de quem ocupa primeiro. Eu cheguei, a toca é minha."

"Que lei deu esta casa ao senhor, e não a mim?"

Jean Lapin respondeu com a voz firme.

"A lei do costume. A toca foi do meu avô, depois do meu pai."

"Agora é minha, e foi assim que chegou até mim."

A doninha deu de ombros e fez uma proposta.

"Vamos levar a questão ao Raminagrobis. Ele decide."

O coelho conhecia a fama do gato e aceitou.

Raminagrobis vivia sozinho, como um eremita devoto.

Era gordo, de pelo macio, e tinha ar de santo.

Os bichos diziam que ele entendia de todas as causas.

Os dois subiram juntos até a porta do juiz.

Cada um começou a contar a própria versão da briga.

O gato ouviu a primeira frase e ergueu a pata.

“Meus filhos, cheguem perto. Estou velho e ouço muito mal.”

A doninha deu um passo, sem desconfiar de nada.

O coelho deu outro passo, ao lado dela.

Agora estavam ao alcance das patas do velho.

Raminagrobis esticou as duas garras ao mesmo tempo.

Pegou a doninha com uma e o coelho com a outra.

E comeu os dois, sem deixar o processo terminar.

A briga acabou ali, com os dois litigantes de acordo.

Nenhum deles voltou para a toca.

 
 

II  A Origem

Um gato que veio da Índia

Um livro de fábulas indiano, uma tradução francesa de 1644, dois apelidos tirados de Rabelais e um juiz que a Europa inteira reconhecia: a fábula chegou a La Fontaine por esse caminho.

Jean de La Fontaine nasceu em Château-Thierry, na Champagne, em 1621, e morreu em Paris em 1695. Publicou a primeira coletânea de Fábulas em 1668, com os livros I a VI, quase todos tirados de Esopo e do poeta latino Fedro.

A segunda coletânea saiu entre 1678 e 1679, com os livros VII a XI. No aviso ao leitor, La Fontaine conta que buscou temas novos e que deve a maior parte deles a Pilpay, sábio indiano. A fábula do gato juiz está nesse grupo.

Pilpay é a forma francesa de Bidpai, o sábio que narra o Kalila e Dimna, versão árabe feita por Ibn al-Muqaffa no século VIII. O livro árabe, por sua vez, vinha do Panchatantra (em sânscrito, os cinco tratados), coletânea indiana de fábulas escrita para educar príncipes.

La Fontaine leu Pilpay em francês, no Livre des lumières (Livro das luzes), tradução de 1644 assinada por David Sahid de Isfahan e preparada com o orientalista Gilbert Gaulmin. Foi por esse volume que o enredo indiano entrou em Paris.

O gato que jejuava

No Panchatantra, a briga é entre uma perdiz e uma lebre. A perdiz sai por uns dias, a lebre ocupa o buraco, e os dois procuram um juiz. Encontram um gato chamado Dadhikarna (Orelha de Coalhada) que jejua e reza na beira do rio Ganges.

O gato indiano faz o mesmo teatro da surdez, pede que os dois se aproximem para ouvir melhor e mata os dois. Na versão indiana, a história é contada como aviso contra entregar uma disputa a quem vive de parecer santo.

La Fontaine trocou a perdiz pela doninha e a lebre pelo coelho, bichos mais comuns no campo francês. Também deu às partes argumentos de tribunal: a doninha fala em ocupação, o coelho fala em herança e costume, como dois advogados da época.

Dois apelidos de empréstimo

O apelido do juiz vem de François Rabelais. No Terceiro Livro, de 1546, Raminagrobis é um velho poeta à beira da cova, a quem Panurge vai pedir conselho sobre casamento. La Fontaine pegou o apelido e o vestiu num gato.

No desfecho, o gato ganha outro apelido rabelaisiano: Grippeminaud. No Quinto Livro, publicado em 1564, Grippeminaud é o arquiduque dos Chats-fourrés (os Gatos Peludos), juízes de toga forrada de pele que devoram quem cai nos processos deles.

Grippeminaud, le bon apôtre, / Jetant des deux côtés la griffe en même temps, / Mit les plaideurs d'accord en croquant l'un et l'autre.

Jean de La Fontaine, Fábulas, livro VII, 1678: "Grippeminaud, o bom apóstolo, lançando a garra dos dois lados ao mesmo tempo, pôs os litigantes de acordo comendo um e outro."

O último verso da fábula aponta o alvo. La Fontaine compara a cena às disputas dos pequenos soberanos que levam as queixas aos reis. Na Europa de Luís XIV, príncipes menores pediam arbitragem às grandes coroas e acabavam engolidos por elas.

 

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III  A Lição que Fica

O juiz que a doninha escolheu

A doninha escolheu o juiz, e o coelho aceitou sem perguntar.

Repare que o gato não precisa caçar ninguém. Os dois bichos sobem até a casa dele por vontade própria, contam a briga e se aproximam quando ele pede. A armadilha funciona porque as vítimas trazem o caso até a boca do juiz.

Repare também em quem escolhe o árbitro. É a doninha, a parte que invadiu. O coelho, dono pela herança, aceita o gato só pela fama de santo, sem perguntar por que um caçador de coelhos serviria para julgar coelhos.

A toca valia pouco. O juiz cobrou os dois bichos.

A briga era pequena. Havia campo de sobra, e uma toca nova se cava em poucos dias. Doninha e coelho podiam ter dividido, trocado ou brigado sozinhos. Ao chamar um terceiro poderoso, apostaram mais do que a disputa valia.

O disfarce do gato também diz algo. Surdez, velhice e devoção são sinais de fraqueza, e é por eles que os dois baixam a guarda. La Fontaine mostra que o perigo maior vinha justamente da figura que parecia mais inofensiva na cena.

Antes de ler: pergunte à criança quem ela chama quando briga com um irmão ou colega.

Na chegada da doninha: peça que ela diga de quem é a toca, e por quê.

Quando o gato pede que cheguem perto: pare a leitura e pergunte se ela chegaria.

No desfecho: pergunte que acordo os dois bichos podiam ter feito sozinhos.

O adulto reconhece a cena na herança disputada que termina inteira em honorários, na briga de sócios decidida por um terceiro interessado e no vizinho que chama o síndico para uma vaga de garagem.

“Na sua casa, quem resolve as brigas pequenas: vocês mesmos ou um gato?”

Raminagrobis voltou para dentro de casa.

A toca ficou vazia.

 
 
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