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Fábula do Dia   Fábula do Dia
ED 011

O guizo que nenhum rato foi amarrar

A assembleia dos ratos vem inteira e em português de hoje, de Odo de Cheriton a La Fontaine, com a origem de pôr o guizo no gato.

Ratos reunidos em conselho no porão de uma casa velha, com um guizo pequeno de metal no centro da roda.

Os ratos em conselho diante do guizo

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Existe um tipo de plano que ganha aplauso na hora e nunca sai do lugar. Ele é claro, é barato, resolve o problema inteiro e não recebe um voto contra. A dificuldade aparece só na pergunta seguinte, e a pergunta seguinte é sempre a mesma: quem vai fazer?

A história que trata dela cabe numa cena só: uma sala cheia de ratos, um gato e um guizo pequeno de metal.

No índice Perry, o catálogo que numera a fábula antiga, ela leva o número 613. No catálogo internacional de contos populares, o índice Aarne, Thompson e Uther, ela ocupa o tipo 110, registrado com o nome Pôr o guizo no gato.

Os dois números dizem a mesma coisa: a cena não ficou presa em livro de fábula, virou expressão de boca de povo em meia dúzia de línguas.

O francês chama a fábula de Conseil tenu par les rats, o inglês de Belling the Cat, o espanhol de El consejo de los ratones.

O que costuma passar batido é que essa fábula não tem vilão e não termina em desastre. Ninguém é pego, ninguém apanha, nada de ruim acontece na última linha. A história acaba com uma reunião se desfazendo e um plano ótimo parado no ar.

É aí que ela morde. Fábula que acaba em prejuízo é fácil de explicar pra criança. Fábula que acaba em nada obriga a olhar a reunião de novo e achar o ponto em que ela deixou de andar.

A fábula de hoje serve a partir dos quatro anos e leva perto de dois minutos e meio lida em voz alta. Ela vem inteira, da primeira noite com o gato na casa até o último rato saindo do porão, sem corte e sem resumo.

Depois dela vem a origem declarada, com nome, obra e ano de cada versão que chegou até a sua tela. E no fim, a lição em uma frase, no tamanho da criança, sem transformar o rato jovem em vilão.

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I  A Fábula do Dia

A reunião no fundo do porão

Uma casa velha, uma despensa cheia e um gato que aprendeu a esperar parado. A fábula vem completa aqui embaixo, reescrita pra sair na sua voz sem tropeço.

Numa casa velha de porão fundo morava uma família inteira de ratos. Eles tinham trilha própria atrás do rodapé, buraco de saída perto do fogão e hora certa de subir, sempre depois que a luz da cozinha apagava.

A vida ali era boa até o dono da casa aparecer com um gato.

O gato era novo, rápido e pisava sem ser percebido. Ele não caçava na correria: sentava perto do buraco e esperava o tempo que fosse preciso.

Em duas semanas a despensa virou armadilha: ninguém sabia se o gato estava atrás da porta ou dormindo na sala.

Os ratos passaram a comer menos e a sair de dois em dois, um pra pegar comida e outro pra vigiar.

Numa noite de chuva, com o gato deitado perto do fogo, o mais velho convocou todo mundo pro porão.

Vieram todos, e o mais velho abriu a reunião dizendo que o problema não era o gato, era nunca saber onde ele estava.

Aí vieram as propostas.

Um rato sugeriu mudar de casa. Foi lembrado que a casa do lado tinha dois gatos.

Outro sugeriu cavar uma saída nova, do outro lado da parede. Foi lembrado que o gato aprendia saída nova em dois dias.

Outro sugeriu sair só de dia. Ninguém aceitou, porque de dia a cozinha ficava cheia de gente.

A reunião estava emperrada quando um rato jovem pediu a palavra.

Ele disse que o problema não era o gato nem a saída, era o aviso. Se todo mundo soubesse onde o gato estava, ninguém mais seria pego de surpresa.

E deu a solução: amarrar um guizo no pescoço do gato. Um guizo pequeno, de metal, desses que tocam a cada passo.

Com o guizo, o gato passaria a se anunciar sozinho, e a casa inteira saberia dele com antecedência.

O porão inteiro aprovou. Foi a melhor ideia que aquela família tinha ouvido em muito tempo.

Bateram as patas no chão e o plano passou sem um voto contra.

Quando a festa baixou, o rato mais velho se levantou devagar e fez uma pergunta.

Muito bem. E quem vai amarrar o guizo no pescoço do gato?

O rato da ideia olhou pro chão e disse que era pequeno demais pra alcançar o pescoço de um gato.

O do lado disse que corria pouco e não chegaria na porta a tempo.

Um terceiro lembrou que tinha três filhotes pra criar.

Um quarto se ofereceu, mas só se outro fosse junto. O outro não apareceu.

A reunião foi se desfazendo, um rato por vez, até sobrarem no porão os dois mais velhos.

O plano estava aprovado por unanimidade e continuava exatamente onde tinha nascido: no ar.

O gato dormiu perto do fogo a noite inteira, sem guizo nenhum, e no dia seguinte a despensa continuou do mesmo jeito.

 
 

II  A Origem

De um sermão inglês à corte de Luís XIV

Odo de Cheriton por volta de 1200, o parlamento inglês de 1376 em Piers Plowman, a noite de Lauder em 1482 e La Fontaine em Paris em 1668: quatro paradas do mesmo guizo.

O nome de Esopo aparece na capa da maioria das coleções que trazem a assembleia dos ratos, e é por ele que ela chega à escola. A tradição grega o coloca no século VI antes de Cristo, na ilha de Samos.

O que quase nenhuma edição infantil conta: a reunião do porão não está nos manuscritos gregos mais antigos. A versão escrita mais velha que sobrou é latina, de um inglês.

O inglês é Odo de Cheriton, pregador e professor que viveu até 1246. Nas Parabolae, escritas por volta de 1200, ele conta os ratos em conselho pra cutucar gente de igreja que pregava reforma de costume e não mexia um dedo.

Na versão dele o plano é o mesmo e o fim também: aprovam o guizo, nenhum rato se candidata, e o gato segue dono da casa.

Do parlamento de 1376 pra corte de Luís XIV

Menos de dois séculos depois a fábula virou charge política. Em Piers Plowman, poema que William Langland escreveu por volta de 1377 na Inglaterra, ratos e camundongos se reúnem pra pendurar o guizo num gato de corte.

Quem lia na época sabia de quem se tratava: o parlamento de 1376, um rei ainda menino e o tio que mandava de verdade.

Em 1482 a cena saiu do papel. Nobres escoceses se reuniram na ponte de Lauder pra decidir o que fazer com um favorito do rei Jaime III, e alguém contou a fábula dos ratos em voz alta. Archibald Douglas se levantou e disse que ele punha o guizo no gato, e ficou com o apelido pelo resto da vida: Bell-the-Cat.

Quase trezentos anos depois de Langland, em 1668, em Paris, Jean de La Fontaine publicou Fables choisies, mises en vers. A assembleia dos ratos abre o livro II, na fábula 2, com o nome Conseil tenu par les rats.

O gato dele tem nome próprio, Rodilardus, roedor de toucinho, apelido que La Fontaine pegou emprestado de Rabelais. O guizo é um grelot, e quem faz a pergunta que desmancha a reunião é um rato velho e prudente.

Ne faut-il que délibérer, la cour en conseillers foisonne; est-il besoin d'exécuter, l'on ne rencontre plus personne.

Basta deliberar? A corte transborda de conselheiros. Precisa executar? Não se encontra mais ninguém.

Jean de La Fontaine, Fables choisies, mises en vers, livro II, fábula 2, Paris, 1668. A tradução acima segue a leitura corrente do texto em domínio público.

Do francês ficou a expressão attacher le grelot, amarrar o guizo, que até hoje quer dizer ser o primeiro a topar a parte perigosa. O português ficou com pôr o guizo no gato.

No Brasil, quem levou a coleção pra boca do adulto foi Monteiro Lobato. Em Fábulas, de 1922, as histórias saem contadas por Dona Benta, sem cerimônia.

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III  A Lição que Fica

O voluntário que não apareceu

A moral que ficou colada nesta fábula é curta e um pouco morna: falar é fácil, fazer é difícil. Ela é verdadeira e não funciona dita assim, porque sai da boca do adulto com cara de bronca.

Repare no que a fábula faz com o plano. Ela não diz que o guizo era uma ideia ruim. O guizo resolvia o problema inteiro, custava quase nada e não tinha furo de raciocínio.

Faltava uma peça só, e a peça que faltava era um rato disposto a chegar perto do gato.

O rato jovem não mentiu e não enganou ninguém. Ele fez a parte fácil da reunião e chamou a parte fácil de solução.

Repare também na ordem das duas perguntas. A primeira é o que a gente faz. A segunda é quem faz. A primeira enche o porão de patas levantadas, a segunda devolve cada rato pro buraco dele.

A criança reconhece a cena na hora. É o trabalho em grupo da escola, onde todo mundo tem ideia pro cartaz e um só leva a cartolina de casa.

A lição em uma frase: plano sem alguém que levante a mão continua sendo conversa, e conversa não tira gato nenhum da despensa.

Antes de começar: diga a idade e o tempo em voz alta. A partir dos quatro anos, perto de dois minutos e meio. A criança entra melhor quando sabe que a história acaba logo.

Na hora das propostas: pare a cada ideia recusada e pergunte pra criança o que ela faria. Três propostas caem antes do guizo, e é nessa parte que ela senta na reunião junto.

Na hora do guizo: comemore com ela. Bata na mesa, aprove o plano, deixe a criança achar que a história acabou bem. A pergunta do rato velho funciona melhor depois da festa.

Depois da pergunta: conte até três antes de continuar a leitura. A pausa faz um trabalho que nenhuma explicação faz.

Se a criança perguntar por que ninguém se ofereceu, a leitura funcionou. Vale responder que todos tinham um motivo bom, e que motivo bom é o que mais aparece na hora de não fazer.

Vale dizer também o que a fábula não faz. Ela não chama os ratos de covardes e não pede heroísmo de ninguém. Ela mostra a distância entre aprovar e executar.

O adulto que lê está na reunião junto: a mudança que a equipe inteira aprovou na quinta e ninguém marcou no calendário na sexta.

A assembleia não errou o plano. Errou ao tratar aprovar e executar como a mesma coisa.

"Qual plano da sua casa já foi aprovado por todo mundo e continua esperando alguém levantar a mão?"

 
 
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Em 1482, na ponte de Lauder, um nobre escocês se ofereceu para fazer o que nenhum rato da fábula topou fazer, amarrar o guizo num favorito do rei. Que apelido ficou colado nele pelo resto da vida?

ARodilardus
BBell-the-Cat
CPiers Plowman
DConseil tenu par les rats

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