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Uma casa velha, uma despensa cheia e um gato que aprendeu a esperar parado. A fábula vem completa aqui embaixo, reescrita pra sair na sua voz sem tropeço.
Numa casa velha de porão fundo morava uma família inteira de ratos. Eles tinham trilha própria atrás do rodapé, buraco de saída perto do fogão e hora certa de subir, sempre depois que a luz da cozinha apagava.
A vida ali era boa até o dono da casa aparecer com um gato.
O gato era novo, rápido e pisava sem ser percebido. Ele não caçava na correria: sentava perto do buraco e esperava o tempo que fosse preciso.
Em duas semanas a despensa virou armadilha: ninguém sabia se o gato estava atrás da porta ou dormindo na sala.
Os ratos passaram a comer menos e a sair de dois em dois, um pra pegar comida e outro pra vigiar.
Numa noite de chuva, com o gato deitado perto do fogo, o mais velho convocou todo mundo pro porão.
Vieram todos, e o mais velho abriu a reunião dizendo que o problema não era o gato, era nunca saber onde ele estava.
Aí vieram as propostas.
Um rato sugeriu mudar de casa. Foi lembrado que a casa do lado tinha dois gatos.
Outro sugeriu cavar uma saída nova, do outro lado da parede. Foi lembrado que o gato aprendia saída nova em dois dias.
Outro sugeriu sair só de dia. Ninguém aceitou, porque de dia a cozinha ficava cheia de gente.
A reunião estava emperrada quando um rato jovem pediu a palavra.
Ele disse que o problema não era o gato nem a saída, era o aviso. Se todo mundo soubesse onde o gato estava, ninguém mais seria pego de surpresa.
E deu a solução: amarrar um guizo no pescoço do gato. Um guizo pequeno, de metal, desses que tocam a cada passo.
Com o guizo, o gato passaria a se anunciar sozinho, e a casa inteira saberia dele com antecedência.
O porão inteiro aprovou. Foi a melhor ideia que aquela família tinha ouvido em muito tempo.
Bateram as patas no chão e o plano passou sem um voto contra.
Quando a festa baixou, o rato mais velho se levantou devagar e fez uma pergunta.
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Muito bem. E quem vai amarrar o guizo no pescoço do gato?
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O rato da ideia olhou pro chão e disse que era pequeno demais pra alcançar o pescoço de um gato.
O do lado disse que corria pouco e não chegaria na porta a tempo.
Um terceiro lembrou que tinha três filhotes pra criar.
Um quarto se ofereceu, mas só se outro fosse junto. O outro não apareceu.
A reunião foi se desfazendo, um rato por vez, até sobrarem no porão os dois mais velhos.
O plano estava aprovado por unanimidade e continuava exatamente onde tinha nascido: no ar.
O gato dormiu perto do fogo a noite inteira, sem guizo nenhum, e no dia seguinte a despensa continuou do mesmo jeito.
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