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Um bicho que corre, um bicho que não corre e uma noite inteira de conversa antes da largada. A fábula vem completa aqui embaixo.
O veado achou graça quando o jabuti falou em apostar corrida. Os dois estavam na beira do igarapé, no fim da tarde, e a mata inteira sabia quem tinha a perna melhor.
O veado riu com o corpo todo.
Disse que daria três dias de vantagem.
O jabuti recusou a vantagem.
Pediu só que a corrida fosse no dia seguinte, de manhã.
E pediu que fosse pela picada comprida, a que corta a mata de ponta a ponta.
O veado aceitou na hora.
Combinaram uma regra simples para saber quem ia na frente.
De tempo em tempo, o que estivesse atrás gritaria pelo outro.
O outro responderia de onde estivesse.
O jabuti foi embora antes de escurecer.
Ele não foi treinar.
Foi bater de casco em casco na casa dos parentes.
Chamou um por um, até juntar muitos.
Explicou a picada inteira no chão, com um graveto.
Marcou os pontos, um a um, do começo ao fim.
Cada parente ficaria escondido num ponto.
Debaixo de folha seca, atrás de raiz, na sombra do cipó.
Ninguém andaria um passo.
Ninguém apareceria inteiro.
Quando o veado gritasse, o parente daquele trecho responderia.
E a resposta era uma frase só.
Estou aqui.
Nada mais que isso.
Os parentes acharam graça e concordaram.
A picada amanheceu com jabuti escondido de ponta a ponta.
O veado chegou na largada esticando as pernas.
O jabuti do começo estava lá, parado no chão de terra.
Deram a partida.
O veado disparou.
Correu até perder o igarapé de vista.
Depois de um bom trecho, achou que já bastava.
Parou e gritou pelo jabuti.
Estou aqui, respondeu uma voz na frente dele.
O veado olhou e não viu nada, mas a voz vinha da frente.
Ele correu de novo, mais forte.
Correu muito mais dessa vez.
Parou ofegando e gritou outra vez.
Estou aqui, respondeu a mesma voz, mais adiante.
O veado sentiu a perna tremer.
Correu sem parar por um trecho longo da picada.
Gritou de novo, quase sem ar.
Estou aqui.
E de novo.
Estou aqui.
E de novo, já perto do fim da mata.
Estou aqui.
O veado não gritou mais.
Ele caiu de lado na picada, com a boca aberta, sem fôlego.
O jabuti do último ponto saiu de trás da raiz.
Andou até o fim da picada, no passo de sempre.
Os outros ficaram escondidos até a mata esfriar.
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