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Fábula do Dia   Fábula do Dia
ED 036
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O jabuti que se multiplicou na mata

Ele aceitou correr contra o bicho mais rápido da mata e passou a noite anterior espalhando parentes iguais a ele pela beira da picada.

O jabuti parado na beira da picada enquanto o veado corre ao fundo, cena da fábula da corrida do jabuti com o veado.

O jabuti e o veado na beira da picada

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"Estou aqui", respondeu o jabuti na primeira curva da picada, e o veado, que vinha correndo com tudo, não viu casco nenhum à frente dele. A fala se repete em cada curva da mata, sempre igual, sempre na mesma altura da voz, e é ela que sustenta a história inteira.

O ouvinte brasileiro conhece a cena mesmo sem lembrar onde ouviu. Um bicho de casco marca corrida com um bicho de perna comprida, e o bicho de casco ganha.

A mecânica aqui não tem nada a ver com passo firme nem com esforço miúdo. O jabuti não anda mais que o normal e não chega antes de ninguém. Ele nem participa da corrida, no sentido de mover o corpo pela mata.

O que ele faz é na véspera, no escuro, longe do adversário. Ele conversa com os parentes, e o casco de um jabuti é igual ao casco de outro jabuti para quem passa correndo.

Cada parente fica escondido na beira da picada, num ponto combinado, com uma ordem só: quando o veado gritar, responder que está ali na frente. Ninguém precisa correr. Ninguém precisa mentir mais do que uma frase.

O veado perde porque acredita no que ouve e porque acelera cada vez que ouve. A vitória do jabuti é feita da pressa do outro somada ao trabalho de bichos que o outro nunca viu.

Com criança funciona por causa da repetição. A resposta é sempre a mesma, o lugar muda, e a criança percebe o truque antes do veado, o que deixa ela na posição confortável de quem já sabe.

A leitura em voz alta pede vozes: uma para o veado, ofegante, e uma só, calma, para todos os jabutis. Cabe em pouco mais de meio minuto.

A fábula vem completa aqui embaixo, da aposta feita na beira do igarapé até o veado caído no fim da picada. Depois dela vem a origem declarada, com os folcloristas que anotaram a história no Brasil, o número que ela recebeu no catálogo internacional e a versão que os Estados Unidos publicaram no século XIX. E no fim, o que a corrida ensina sobre esforço solitário e trabalho combinado.

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I  A Fábula do Dia

A aposta feita na beira da picada

Um bicho que corre, um bicho que não corre e uma noite inteira de conversa antes da largada. A fábula vem completa aqui embaixo.

O veado achou graça quando o jabuti falou em apostar corrida. Os dois estavam na beira do igarapé, no fim da tarde, e a mata inteira sabia quem tinha a perna melhor.

O veado riu com o corpo todo.

Disse que daria três dias de vantagem.

O jabuti recusou a vantagem.

Pediu só que a corrida fosse no dia seguinte, de manhã.

E pediu que fosse pela picada comprida, a que corta a mata de ponta a ponta.

O veado aceitou na hora.

Combinaram uma regra simples para saber quem ia na frente.

De tempo em tempo, o que estivesse atrás gritaria pelo outro.

O outro responderia de onde estivesse.

O jabuti foi embora antes de escurecer.

Ele não foi treinar.

Foi bater de casco em casco na casa dos parentes.

Chamou um por um, até juntar muitos.

Explicou a picada inteira no chão, com um graveto.

Marcou os pontos, um a um, do começo ao fim.

Cada parente ficaria escondido num ponto.

Debaixo de folha seca, atrás de raiz, na sombra do cipó.

Ninguém andaria um passo.

Ninguém apareceria inteiro.

Quando o veado gritasse, o parente daquele trecho responderia.

E a resposta era uma frase só.

Estou aqui.

Nada mais que isso.

Os parentes acharam graça e concordaram.

A picada amanheceu com jabuti escondido de ponta a ponta.

O veado chegou na largada esticando as pernas.

O jabuti do começo estava lá, parado no chão de terra.

Deram a partida.

O veado disparou.

Correu até perder o igarapé de vista.

Depois de um bom trecho, achou que já bastava.

Parou e gritou pelo jabuti.

Estou aqui, respondeu uma voz na frente dele.

O veado olhou e não viu nada, mas a voz vinha da frente.

Ele correu de novo, mais forte.

Correu muito mais dessa vez.

Parou ofegando e gritou outra vez.

Estou aqui, respondeu a mesma voz, mais adiante.

O veado sentiu a perna tremer.

Correu sem parar por um trecho longo da picada.

Gritou de novo, quase sem ar.

Estou aqui.

E de novo.

Estou aqui.

E de novo, já perto do fim da mata.

Estou aqui.

O veado não gritou mais.

Ele caiu de lado na picada, com a boca aberta, sem fôlego.

O jabuti do último ponto saiu de trás da raiz.

Andou até o fim da picada, no passo de sempre.

Os outros ficaram escondidos até a mata esfriar.

 
 

II  A Origem

Do Amazonas até o caderno dos folcloristas

Uma história indígena da Amazônia, um naturalista americano que a publicou em 1875, um dicionário potiguar que a catalogou e um livro infantil que a pôs na boca de uma cozinheira: a corrida do jabuti chegou até aqui por quatro caminhos diferentes.

A corrida pertence ao ciclo do jabuti, um conjunto de histórias amazônicas em que o bicho de casco vence sempre pela cabeça, nunca pela força. No ciclo ele engana a onça, engana o homem, engana o veado e ainda sai ileso.

O registro impresso mais conhecido em língua estrangeira é Amazonian Tortoise Myths, do geólogo americano Charles Frederick Hartt, publicado no Rio de Janeiro em 1875. Hartt trabalhava no Brasil em levantamento geológico e recolheu as histórias de contadores da região amazônica.

No Brasil, quem organizou o material em escala foi Luís da Câmara Cascudo, nascido em Natal. Contos Tradicionais do Brasil saiu em 1946, Literatura Oral no Brasil em 1952 e o Dicionário do Folclore Brasileiro em 1954, os três trazendo o jabuti como personagem central da esperteza popular.

Monteiro Lobato levou o ciclo para a criança. Em Histórias de Tia Nastácia, de 1937, ele reúne contos populares brasileiros contados por uma cozinheira dentro da própria narrativa, e o jabuti aparece ali com o mesmo jeito de quem resolve tudo sem levantar poeira.

K11.1 Race won by deception: relative helpers.

Corrida vencida por engano: parentes ajudantes.

Stith Thompson, Motif-Index of Folk-Literature, Indiana University Press, edição revista de 1955.

Por que o catálogo separa esta corrida daquela outra

O índice internacional guarda a corrida do jabuti numa entrada própria justamente porque o mecanismo é outro. Não existe aqui um competidor que dorme no meio do caminho nem um vencedor que ganha por manter o passo. Existe uma equipe.

Barbosa Rodrigues recolheu narrativas indígenas do vale amazônico e as publicou em Poranduba Amazonense, de 1890, onde o jabuti aparece em várias armações do mesmo tipo. Sílvio Romero já havia impresso Contos Populares do Brasil em 1885, reunindo material do Nordeste.

Nos Estados Unidos, Joel Chandler Harris publicou em 1881 uma corrida com a mesma engrenagem em Uncle Remus, His Songs and His Sayings: um cágado vence a raposa com a família inteira posicionada ao longo do percurso. A coincidência não é acaso: as duas versões vêm do mesmo tronco de histórias trazidas e recontadas na diáspora africana.

Em algumas versões brasileiras o adversário não é o veado, e sim a onça, o cervo ou o próprio homem. O que nunca muda é a regra da resposta: alguém do lado do jabuti fala de um ponto mais adiante, e o adversário aceita a voz como prova de posição.

 

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III  A Lição que Fica

A corrida que ninguém correu sozinho

A moral que costuma vir grudada nesta história é a mais confortável possível: com inteligência se vence a força. Dita assim, ela some com o que a cena realmente mostra.

Repare em quantos bichos foram necessários. A picada tinha jabuti escondido do começo ao fim, e nenhum deles apareceu no fim para receber crédito.

O jabuti não venceu por ser esperto sozinho. Ele venceu porque conseguiu convencer os parentes a passar uma manhã inteira parados debaixo de folha seca, sem prêmio, sem plateia e sem nome na história.

A corrida não foi ganha por um bicho lento que insistiu. Foi ganha por um bicho que trocou o próprio esforço pela coordenação de muitos, e a única habilidade que ele usou foi organizar gente igual a ele.

Tem uma segunda camada, e é a que costuma incomodar o adulto. O veado não perdeu por preguiça nem por excesso de confiança no meio do caminho. Ele perdeu correndo, e correndo mais a cada vez que ouvia a voz.

O esforço dele era real e foi o esforço que o derrubou. Cada aceleração vinha de uma informação falsa que ele mesmo pediu, porque foi ele quem gritou primeiro.

Vale dizer também o que a história não ensina. Ela não recomenda armação, e o texto folclórico não finge que o jabuti é honesto. O ponto é anterior à moral: existe competição em que o adversário não é um corpo só, e insistir em correr sozinho contra um arranjo coletivo é perder com a perna boa.

Antes de começar: diga a idade e o tempo em voz alta. A partir dos quatro anos, pouco mais de meio minuto.

Na hora da combinação: conte a noite dos parentes com voz baixa, como segredo. A criança precisa saber do truque antes do veado, é daí que vem a graça.

Na hora do grito: faça a voz do veado ofegante e a voz do jabuti sempre igual, calma, no mesmo tom. A repetição idêntica é o motor da cena.

Na hora da queda: pare depois que o veado se deita na picada e conte até três. Só então diga que o jabuti chegou andando no passo de sempre.

O adulto que lê conhece a mesma picada na negociação em que o outro lado tinha três pessoas e ele tinha uma, na disputa por um cargo em que o concorrente já havia conversado com todo mundo antes da reunião, e no vendedor que corre sozinho contra uma empresa que combinou o discurso na véspera.

“Quem está escondido na curva seguinte da sua picada?”

O veado correu de verdade.

O jabuti andou no passo de sempre.

A picada continuou com bicho escondido até a tarde.

Ninguém contou ao veado.

 
 

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