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Uma sopa quente, uma louça escolhida com segunda intenção e duas visitas muito bem tratadas. A fábula vem completa aqui embaixo, reescrita pra sair na sua voz sem tropeço.
A raposa e a cegonha eram vizinhas de estrada e se cumprimentavam todo dia. Uma morava numa toca embaixo da cerca. A outra morava num ninho alto, em cima do telhado do celeiro.
Numa manhã a raposa teve uma ideia e achou graça sozinha antes mesmo de contar.
Foi até o celeiro e convidou a cegonha pra jantar na casa dela naquela noite.
A raposa cozinhou uma sopa de verdade, com carne, com cheiro forte, dessas que se sente da estrada.
Na hora de pôr a mesa, escolheu a louça com cuidado: dois pratos rasos, largos e lisos, quase sem fundo nenhum.
A cegonha chegou na hora combinada, com fome e com educação.
A raposa serviu a sopa nos dois pratos e mandou a visita começar.
A raposa lambeu o prato inteiro em pouco tempo, do meio pra borda, e ainda passou a língua duas vezes.
A cegonha bicou o prato. O bico dela é comprido e fino, feito de pinça, e bateu na louça sem levar nada.
Bicou de novo, virou a cabeça de lado, tentou pela borda e conseguiu só uma gota.
A raposa olhou a cena e riu com a boca cheia. Perguntou se a sopa não estava boa e disse que era a receita da casa.
A cegonha respondeu que a sopa estava ótima, agradeceu o jantar e foi embora com o mesmo bico limpo com que tinha chegado.
Uma semana depois foi a vez dela convidar.
A cegonha apareceu na cerca e disse que a raposa precisava provar o guisado que ela fazia, e que jantasse no celeiro no dia seguinte.
No dia marcado ela chegou cedo, com o focinho a postos, e o cheiro do guisado descia do celeiro até a estrada.
A cegonha tinha cozinhado bem, com bastante carne e caldo grosso.
E tinha posto a mesa com dois jarros de barro, altos, de barriga larga e boca estreita.
Serviu o guisado dentro dos jarros e convidou a raposa a se servir à vontade.
A cegonha enfiou o bico comprido, alcançou o fundo e comeu com calma, sem pressa nenhuma.
A raposa rodeou o jarro, cheirou a boca estreita, enfiou o focinho e não passou do gargalo.
Ficou ali sentindo o cheiro do guisado quente por horas, com a barriga vazia.
A cegonha comeu tudo, limpou o bico e disse que a raposa não devia levar a mal.
Disse que tinha aprendido a receita e a louça com quem a recebeu primeiro.
E disse que ia servir sempre daquele jeito, porque era a maneira dela comer, do mesmo modo que o prato raso era a maneira da raposa.
A raposa foi embora pela estrada sem responder nada, com fome e sem argumento.
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