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Fábula do Dia   Fábula do Dia
ED 013

O jarro de boca estreita que a cegonha serviu

A raposa e a cegonha vem inteira e em português de hoje, de Esopo a La Fontaine, com a lição de que a brincadeira volta na mesma medida.

Uma cegonha de bico comprido diante de um jarro de barro de boca estreita, numa mesa posta, com a raposa ao lado sem alcançar o fundo.

A cegonha e o jarro de boca estreita, na mesa

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Toda brincadeira tem um dono e um alvo, e quem inventa a brincadeira costuma achar graça sozinho. O alvo ri junto por educação. A conta chega depois, quase sempre num convite de volta.

A fábula que trata dessa conta cabe numa mesa posta: comida boa, dois convidados de focinho e bico muito diferentes, e a louça escolhida de propósito.

No índice Perry, o catálogo que numera a fábula antiga, ela leva o número 426. No catálogo internacional de contos populares, o índice Aarne, Thompson e Uther, ela ocupa o tipo 60, registrado com o nome A raposa e a cegonha se convidam uma à outra.

Os dois números dizem a mesma coisa: a mesa é velha e viajou longe. O francês chama a fábula de Le Renard et la Cigogne, o inglês de The Fox and the Stork, o espanhol de La zorra y la cigüeña.

O que costuma passar batido é que ninguém passa fome por falta de comida. A sopa da raposa é boa e o guisado da cegonha cheira bem a duas casas de distância.

O que atrapalha não está no cardápio. Está no formato da louça, escolhido por quem serviu.

É aí que ela morde. Fábula de vilão que rouba ou bate se resolve rápido na conversa com a criança: não faça o que ele fez. Fábula em que a maldade cabe num prato raso obriga a falar de uma coisa mais fina, a brincadeira que diverte um lado só.

E obriga a falar da segunda metade também, quando o alvo devolve exatamente o que recebeu e chama de festa.

A fábula de hoje serve a partir dos quatro anos e leva perto de dois minutos lida em voz alta. Ela vem inteira, do primeiro convite até o bico da cegonha entrando e saindo do jarro, sem corte e sem resumo.

Depois dela vem a origem declarada, com nome, obra e ano de cada versão que chegou até a sua tela. E no fim, a lição em uma frase, no tamanho da criança, sem transformar a cegonha em vingadora.

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I  A Fábula do Dia

O prato raso e o jarro fundo

Uma sopa quente, uma louça escolhida com segunda intenção e duas visitas muito bem tratadas. A fábula vem completa aqui embaixo, reescrita pra sair na sua voz sem tropeço.

A raposa e a cegonha eram vizinhas de estrada e se cumprimentavam todo dia. Uma morava numa toca embaixo da cerca. A outra morava num ninho alto, em cima do telhado do celeiro.

Numa manhã a raposa teve uma ideia e achou graça sozinha antes mesmo de contar.

Foi até o celeiro e convidou a cegonha pra jantar na casa dela naquela noite.

A raposa cozinhou uma sopa de verdade, com carne, com cheiro forte, dessas que se sente da estrada.

Na hora de pôr a mesa, escolheu a louça com cuidado: dois pratos rasos, largos e lisos, quase sem fundo nenhum.

A cegonha chegou na hora combinada, com fome e com educação.

A raposa serviu a sopa nos dois pratos e mandou a visita começar.

A raposa lambeu o prato inteiro em pouco tempo, do meio pra borda, e ainda passou a língua duas vezes.

A cegonha bicou o prato. O bico dela é comprido e fino, feito de pinça, e bateu na louça sem levar nada.

Bicou de novo, virou a cabeça de lado, tentou pela borda e conseguiu só uma gota.

A raposa olhou a cena e riu com a boca cheia. Perguntou se a sopa não estava boa e disse que era a receita da casa.

A cegonha respondeu que a sopa estava ótima, agradeceu o jantar e foi embora com o mesmo bico limpo com que tinha chegado.

Uma semana depois foi a vez dela convidar.

A cegonha apareceu na cerca e disse que a raposa precisava provar o guisado que ela fazia, e que jantasse no celeiro no dia seguinte.

No dia marcado ela chegou cedo, com o focinho a postos, e o cheiro do guisado descia do celeiro até a estrada.

A cegonha tinha cozinhado bem, com bastante carne e caldo grosso.

E tinha posto a mesa com dois jarros de barro, altos, de barriga larga e boca estreita.

Serviu o guisado dentro dos jarros e convidou a raposa a se servir à vontade.

A cegonha enfiou o bico comprido, alcançou o fundo e comeu com calma, sem pressa nenhuma.

A raposa rodeou o jarro, cheirou a boca estreita, enfiou o focinho e não passou do gargalo.

Ficou ali sentindo o cheiro do guisado quente por horas, com a barriga vazia.

A cegonha comeu tudo, limpou o bico e disse que a raposa não devia levar a mal.

Disse que tinha aprendido a receita e a louça com quem a recebeu primeiro.

E disse que ia servir sempre daquele jeito, porque era a maneira dela comer, do mesmo modo que o prato raso era a maneira da raposa.

A raposa foi embora pela estrada sem responder nada, com fome e sem argumento.

 
 

II  A Origem

Fedro, o verso latino e o aviso aos trapaceiros

Esopo no século VI antes de Cristo, Fedro em Roma no século I, La Fontaine em Paris em 1668 e Monteiro Lobato no Brasil em 1922: quatro paradas da mesma mesa.

O nome de Esopo aparece na capa da maioria das coleções que trazem a raposa e a cegonha, e é por ele que a história chega à escola. A tradição grega o coloca no século VI antes de Cristo, escravo alforriado que contava bicho pra falar de gente.

A fábula está no índice Perry com o número 426, o catálogo que organiza tudo que a tradição atribui a ele.

Na versão grega o desenho já é o que se conta hoje: a raposa convida, serve em prato raso, a cegonha não alcança nada, e o convite de volta chega com a louça trocada.

A moral vem colada no fim do texto grego, e não fala em vingança. Fala em quem inventa a brincadeira ter que aguentar a mesma brincadeira de volta.

De Fedro em Roma ao verso que virou aviso

A versão latina mais antiga que sobrou é de Fedro, liberto do imperador Augusto, que pôs as fábulas gregas em verso latino no século I depois de Cristo. A raposa e a cegonha é a fábula 26 do livro I, com o nome Vulpes et Ciconia.

Fedro abre com a lição antes da cena, do jeito dele: nulli nocendum, si quis vero laeserit, multandum simili iure fabella admonet. Não se deve prejudicar ninguém, e quem prejudicar, avisa a fabulazinha, há de ser cobrado pela mesma regra.

Em 1668, em Paris, Jean de La Fontaine publicou Fables choisies, mises en vers. A raposa e a cegonha está no livro I, na fábula 18, com o nome Le Renard et la Cigogne.

Na versão dele a raposa é apresentada como sovina que convida pra economizar, e o jantar sai em prato raso porque o caldo escorrido não dá trabalho nenhum de fazer.

O fim é o que ficou. La Fontaine para de contar a história e fala direto com quem está lendo, num verso que virou aviso de boca de povo na França.

Trompeurs, c'est pour vous que j'écris: attendez-vous à la pareille.

Trapaceiros, é pra vocês que eu escrevo: podem esperar a mesma moeda.

Jean de La Fontaine, Fables choisies, mises en vers, livro I, fábula 18, Paris, 1668. A tradução acima segue a leitura corrente do texto em domínio público.

No Brasil a fábula entrou na leitura de casa pela mão de Monteiro Lobato. Em Fábulas, de 1922, Dona Benta conta a história em voz alta, com palavra de cozinha e sem cerimônia.

A expressão que sobrou em português é mais curta que todas elas: pagar na mesma moeda. É o que a criança já ouviu no pátio da escola antes de ouvir o nome de Esopo.

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III  A Lição que Fica

A medida que volta pra quem serviu

A moral que ficou colada nesta fábula é curta e um pouco torta: quem ri por último ri melhor. Ela premia a cegonha pelo troco, e o troco não é o assunto da história.

Repare no que a raposa fez. Ela não gritou com a cegonha, não roubou nada e não bateu a porta na cara dela. Ela cozinhou bem e serviu de boa vontade.

A maldade inteira coube na escolha da louça.

É por causa disso que a fábula ainda funciona com criança de quatro anos. A raposa fez o que qualquer um consegue fazer sem levantar a voz: montou uma situação em que só ela podia se dar bem.

Repare também no que a cegonha respondeu. Ela não brigou, não acusou e não chamou de injustiça na hora.

Ela esperou uma semana e devolveu o mesmo desenho, com o mesmo sorriso e o mesmo cheiro de comida boa.

A criança reconhece a cena na hora. É a regra do jogo inventada por quem já sabe ganhar, é a divisão do lanche que sai igual no papel e desigual na mão.

A lição em uma frase: brincadeira que diverte um lado só volta pro outro lado com a mesma medida, e quem escolheu a louça não pode reclamar do jarro.

Antes de começar: diga a idade e o tempo em voz alta. A partir dos quatro anos, perto de dois minutos. A criança entra melhor quando sabe que a história acaba logo.

Na hora do prato raso: faça o gesto do bico com a mão e bata na mesa duas vezes. A criança precisa sentir a batida antes de entender a intenção.

Na hora do riso: pare e pergunte pra criança se a raposa estava fazendo graça ou fazendo maldade. A resposta costuma vir dividida, e a dúvida dela é o miolo da fábula.

Na hora do jarro: conte até três antes de continuar a leitura. A pausa entre o focinho no gargalo e a fala da cegonha faz um trabalho que nenhuma explicação faz.

Se a criança rir da raposa faminta, tudo bem, é pra rir mesmo. Vale a pergunta seguinte: e se alguém fizer o jarro pra você um dia?

Vale dizer também o que a fábula não faz. Ela não manda revidar toda vez nem ensina a guardar mágoa por uma semana.

Ela mostra o preço de uma piada montada de propósito e devolve a escolha pra quem convida.

O adulto que lê está na mesa junto: a reunião marcada no horário que só serve pra quem marcou, o processo com regra escrita pelo lado que sempre ganha.

A raposa não errou ao gostar de sopa. Errou ao escolher a louça sabendo que a visita não alcançava o fundo.

"Que jarro de boca estreita você já serviu, sem perceber, pra alguém que não tinha o bico certo?"

 
 
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