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Fábula do Dia   Fábula do Dia
ED 044

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O leão cortou as garras para entrar na família

Pediu a moça em casamento, aceitou as duas condições do pai, voltou ao terreiro sem dentes e sem unhas e encontrou o pau de lenha na mão do lavrador.

Um leão sem dentes e sem garras parado diante do portão de uma casa de roça, com o lavrador na porta.

O leão desarmado diante do portão do lavrador

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"Amor, amor, quando nos pegas, bem se pode dizer: adeus, prudência", escreveu Jean de La Fontaine na abertura do Livro IV das Fábulas, impresso em Paris em 1668, e a frase serve de porta para o poema em que um leão pede a filha de um lavrador em casamento.

A história não nasceu com ele. La Fontaine passou para o verso francês uma fábula que a tradição antiga atribui a Esopo, o contador grego de quem não sobrou uma linha escrita pela própria mão. No enredo, o bicho mais forte da mata chega à porta de uma casa de gente com um pedido de gente.

O lavrador não recusa. Responde com uma exigência, e a exigência tem cara de cuidado de pai: a moça é delicada, um abraço de leão deixa marca, e uma dentada sem querer estraga a festa. Basta aparar o que arranha e o que morde, e o casamento sai.

O pretendente aceita na hora. Deixa arrancar os dentes, deixa cortar as garras e atravessa o terreiro outra vez, agora sem nada que o defenda, para buscar a noiva prometida.

O que vem depois não tem luta. Tem um homem que já sabia o que ia fazer quando disse sim, e um bicho que perdeu as duas coisas que faziam o lavrador falar baixo com ele. A fábula acaba no caminho de volta para o mato, com o leão vivo e desarmado.

A fábula vem inteira aqui embaixo, do primeiro rugido no terreiro até a estrada de volta. Depois dela, a origem declarada: em que catálogo a história ganhou número, em que século ela aparece em verso grego, quem a trouxe para o português e o que ninguém consegue datar. E no encerramento, o que o pedido do leão ensina sobre entregar a própria força para ser aceito na casa dos outros.

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I  A Fábula do Dia

O portão, os dentes e os cães soltos

O pedido feito de peito aberto, as duas condições do pai, a cirurgia aceita sem discussão e o terreiro atravessado pela segunda vez.

Esopo deixou os dois personagens sem nome próprio: o leão e o lavrador, o dono da mata e o dono da roça, separados por uma cerca de pau a pique. A roça ficava na saída da mata.

A casa tinha terreiro de chão batido.

O lavrador criava cães de guarda no fundo.

A filha dele buscava água na fonte todo dia de manhã.

O leão viu a moça na fonte.

Voltou no dia seguinte para vê-la outra vez.

Voltou na semana inteira.

Deixou de caçar no lado de lá do rio.

Decidiu pedi-la em casamento.

Entrou no terreiro em pleno sol.

Os cães fugiram para debaixo da casa.

O lavrador largou a enxada e ficou de pé na porta.

"Vim pedir a sua filha."

O lavrador olhou as patas do leão.

Olhou os dentes.

Olhou a filha atrás de si, dentro de casa.

"Você é um bom partido."

"Minha filha é criada de mão leve."

"Essas unhas rasgam a roupa dela."

"Esses dentes assustam a menina de noite."

"Tire as unhas e os dentes, e ela é sua."

O leão não discutiu o preço.

Foi embora e voltou no outro dia.

Tinha arrancado os dentes um a um.

Tinha cortado as garras rentes à carne.

Atravessou o terreiro devagar.

Os cães ficaram onde estavam.

Nenhum deles fugiu para debaixo da casa.

O lavrador viu o bicho chegar pela segunda vez.

Viu a boca murcha.

Viu as patas lisas.

Pegou o pau de lenha encostado na parede.

Chamou os cães pelo nome.

Os cães vieram.

"Saia da minha roça."

O leão recuou até a cerca.

Tentou rugir.

O rugido saiu, e ninguém correu.

Tentou levantar a pata.

A pata bateu sem cortar nada.

O lavrador avançou com o pau.

Os cães avançaram atrás dele.

O leão saiu pelo mesmo caminho por onde tinha entrado.

Voltou para a mata sem a moça.

Voltou sem os dentes.

Voltou sem as garras.

A fonte continuou no mesmo lugar.

A filha do lavrador buscou água na manhã seguinte.

Ninguém a esperava na beira da água.

 
 

II  A Origem

De um catálogo grego à página de 1668

Um contador grego que a tradição coloca no século VI antes de Cristo, um catálogo moderno que numerou cada fábula atribuída a ele, um poeta francês que abriu o Livro IV com esta história em 1668 e um escritor paulista que a pôs em português no começo do século XX: o leão apaixonado chegou até aqui por essas mãos.

Esopo é o nome que a Antiguidade grega deu ao autor das fábulas de bicho. Heródoto, historiador do século V antes de Cristo, escreve nas Histórias que Esopo foi escravo em Samos, e é uma das poucas notícias antigas sobre ele. Nada que Esopo tenha escrito chegou até hoje, porque provavelmente ele nunca escreveu: o material corria de boca em boca e foi sendo posto no papel por outros.

No século XX, o classicista americano Ben Edwin Perry organizou esse acervo disperso e deu a cada fábula um número fixo, no que os estudiosos chamam de índice de Perry, o catálogo que ordena as histórias atribuídas ao grego. O leão apaixonado carrega ali o número 140, e é assim que um pesquisador de Coimbra e outro de Chicago sabem que estão falando do mesmo texto.

Em verso, a história aparece em Bábrio, poeta que escreveu fábulas gregas em metro coliambo, um verso de doze sílabas com o último pé invertido. Bábrio viveu por volta do século II depois de Cristo, e foi por coleções como a dele que os enredos atravessaram a Idade Média dentro de manuscritos escolares.

Jean de La Fontaine, nascido em Château-Thierry, na França, em 1621, publicou Le Lion amoureux (O leão apaixonado) como primeira fábula do Livro IV, na segunda leva das Fábulas, de 1668. Ele não escondeu a fonte: os prefácios dos volumes creditam a matéria a Esopo, e o trabalho do francês está no verso, no ritmo e na dedicatória que abre o poema, endereçada a Mademoiselle de Sévigné, filha da marquesa de Sévigné, a autora das Cartas.

Amor, amor, quando nos pegas, bem se pode dizer: adeus, prudência.

Jean de La Fontaine, Fábulas, Livro IV, 1668.

No Brasil, Monteiro Lobato, nascido em Taubaté, São Paulo, em 1882, recontou o acervo esópico em português no livro Fábulas, dos anos 1920, com a moral dita pelos personagens do Sítio do Picapau Amarelo. Foi por esse caminho, e pelas edições escolares que vieram depois, que o leão desdentado entrou na infância brasileira.

O que não se sabe sobre a origem

Não existe documento que prove que Esopo escreveu esta fábula, nem que ele tenha existido como uma pessoa só. O nome funciona como endereço de um repertório oral, e nenhum papiro traz a assinatura dele.

Também não se sabe onde a história foi contada pela primeira vez. As coleções mais antigas que a preservam são posteriores em séculos ao tempo em que a tradição situa o grego, e o texto que chega hoje passou por copistas, tradutores e professores que mexeram no que quiseram.

O desfecho varia conforme a coleção. Numa linha de versões o lavrador expulsa o pretendente a pauladas, com os cães soltos, como no texto acima. Noutra, o leão morre nas mãos do homem, e as edições infantis brasileiras costumam ficar com a primeira, que deixa o bicho vivo e humilhado.

 

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III  A Lição que Fica

Quem entrega a arma antes de entrar

O pedido era sincero, as condições pareciam razoáveis, e a conta só fechou quando o pretendente já não tinha com que cobrar.

Repare na ordem dos fatos. O lavrador não disse não ao leão em nenhum momento. Ele disse sim com uma condição, e a condição era exatamente aquilo que o impedia de dizer não.

O medo do homem tinha nome e tamanho: dente e unha. Enquanto os dois estivessem no lugar, o lavrador falava baixo, escolhia as palavras e mandava a filha para dentro. A conversa era desigual, e a desigualdade estava a favor do bicho.

A condição do pai não pedia amor, nem palavra, nem tempo de espera: pedia a única coisa que sustentava o pedido de pé.

O leão não foi enganado por um argumento falso. As unhas rasgam mesmo tecido, os dentes assustam mesmo criança, e cada frase do lavrador se sustenta sozinha. O truque está em reunir duas verdades pequenas para conseguir uma entrega grande.

A cirurgia também merece atenção. Não houve luta, cerco, veneno nem armadilha na mata. O bicho se desarmou com as próprias patas e voltou andando, no seu ritmo, pela estrada que ele mesmo escolheu.

Os cães contam o resto sem falar. Na primeira visita, sumiram debaixo da casa. Na segunda, ficaram parados no terreiro e depois avançaram. Cachorro não lê intenção, lê cheiro e postura, e a mudança deles mede o quanto o leão tinha perdido.

Vale dizer o que a fábula não ensina. Ela não manda desconfiar de todo pedido, não trata paixão como defeito e não diz que ceder é sempre perda. O aviso é estreito: quem abre mão do que o protegia para ser aceito descobre o preço no dia em que volta para buscar o combinado.

Antes de começar: diga a idade e o tempo em voz alta. A partir dos cinco anos, dois minutos de leitura.

Na hora das condições: leia as quatro falas do lavrador devagar, uma por vez, como quem faz uma oferta boa, para a criança ouvir a armadilha se montando.

Na hora da segunda chegada: pare quando o leão atravessa o terreiro e pergunte à criança o que os cães vão fazer agora.

Na hora do pau de lenha: leia a expulsão inteira sem pausa, e termine baixo, no caminho de volta.

O adulto reconhece a cena na entrevista em que se pede humildade e se cobra submissão, na sociedade que só aceita o sócio depois que ele abre mão do próprio caixa e no acordo em que a garantia cai primeiro e a promessa fica para depois.

“O que você já cortou de si para ser aceito em algum portão?”

O lavrador voltou para a enxada.

Os cães voltaram para o fundo da casa.

O leão não voltou.

 
 

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