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Um rio estreito, um lobo na parte de cima da corrente e um cordeiro que só queria beber. A fábula vem completa aqui embaixo, reescrita pra sair na sua voz sem tropeço.
Num fim de tarde quente, um cordeiro desceu do pasto pra beber água num rio estreito que cortava a serra. Ele era novo, andava sozinho havia poucos dias e conhecia o caminho de cor.
Ficou na parte de baixo da corrente, onde a água chegava mansa, e enfiou o focinho na beirada.
Mais acima, no mesmo rio, um lobo bebia. Estava com fome desde a véspera e viu o cordeiro pequeno lá embaixo.
Ele podia simplesmente descer a margem e pegar o cordeiro. Preferiu descer com uma acusação na boca.
Chegou perto e falou grosso, dizendo que o cordeiro estava sujando a água que ele bebia.
O cordeiro levantou o focinho molhado e olhou pro rio antes de responder.
Disse, com toda a calma, que a água descia do lobo pra ele e não subia dele pro lobo. O que ele mexia na parte de baixo não podia chegar na parte de cima.
O lobo olhou a corrente, viu que era verdade e não discutiu.
Largou a primeira acusação no chão e pegou outra, como quem troca de ferramenta.
Disse que, no ano anterior, o cordeiro tinha falado mal dele pro rebanho inteiro.
O cordeiro respondeu que no ano anterior ele nem tinha nascido.
O lobo ficou quieto um instante, com as patas na água.
Então disse que, se não foi o cordeiro, foi o pai dele, e que dá no mesmo, porque a família responde junto.
O cordeiro respondeu que não escolheu de quem nascer, e que ninguém paga por conversa que não teve.
Três vezes o lobo acusou, três vezes o cordeiro respondeu, e nenhuma das três acusações ficou de pé.
Foi quando o lobo parou de procurar motivo.
Chegou mais perto, olhou o cordeiro de cima e disse a única coisa verdadeira da conversa inteira.
Disse que estava com fome, que sempre esteve, e que todo o resto era só assunto pra encher o caminho até ali.
Depois desceu a margem, e o cordeiro não voltou pro pasto naquela tarde.
O rio continuou correndo no mesmo sentido de sempre, do alto da serra pra baixo, sem mudar uma vírgula por causa da discussão.
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