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Um morro, um rebanho, um menino com tempo demais e uma aldeia inteira que acreditava na palavra dele. A fábula vem completa aqui embaixo, reescrita pra sair na sua voz sem tropeço.
Havia um pastor jovem que passava os dias sozinho no alto do morro, tomando conta das ovelhas da aldeia. O trabalho era simples, o dia era comprido e ele não tinha com quem conversar.
As ovelhas comiam capim de manhã até a tarde. O menino olhava, contava, olhava de novo.
Um dia, de tanto tédio, ele teve uma ideia.
Encheu o peito e chamou pra aldeia inteira ouvir: lobo, lobo, tem um lobo no meio do rebanho.
Os homens largaram o que estavam fazendo e subiram o morro correndo, com pau e foice na mão.
Chegaram ofegantes lá em cima e encontraram as ovelhas comendo capim, tranquilas, e o menino rindo sentado numa pedra.
Não tinha lobo nenhum. Ele tinha achado graça em ver todo mundo largar o serviço e correr.
Os homens desceram o morro sem falar muita coisa e voltaram pro trabalho de sempre.
Na semana seguinte o tédio voltou, e a ideia veio junto com ele.
O menino chamou de novo: lobo, lobo, ele está levando as ovelhas pro mato.
Os homens subiram outra vez, mais devagar que da primeira, e outra vez encontraram o rebanho inteiro e o menino rindo na mesma pedra.
Dessa vez desceram irritados. Um deles avisou que aquilo não tinha graça e que ninguém ia subir de novo à toa.
O menino achou que a ameaça era conversa de gente brava. A aldeia sempre tinha vindo.
Alguns dias depois, no fim da tarde, um lobo de verdade saiu do mato e entrou no meio das ovelhas.
O menino ficou em pé na pedra e chamou com toda a força que tinha: lobo, lobo, agora é de verdade.
A voz dele desceu o morro e chegou na aldeia inteira.
Os homens pararam um instante, olharam uns pros outros, lembraram das duas subidas anteriores e continuaram exatamente onde estavam.
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Ele já chamou duas vezes por nada, disse o mais velho deles. Hoje eu não subo.
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Ninguém subiu o morro.
O menino chamou mais uma vez, e mais outra, até a voz falhar.
O lobo trabalhou sem pressa, porque tinha a tarde inteira pela frente.
Quando o pastor desceu, ele desceu sozinho, sem o rebanho que tinha subido com ele de manhã.
Na aldeia ninguém duvidou da história. Dessa vez acreditaram nele na hora, e acreditar depois não trouxe nenhuma ovelha de volta.
O que tinha acabado no alto do morro não era a coragem dos homens. Era o crédito que a palavra do menino ainda tinha com eles.
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