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O lobo que desceu pela chaminé do porquinho
Na versão inglesa de 1890, o porquinho da casa de tijolo vence o lobo três vezes pela astúcia e uma quarta pela panela no fogo.
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O lobo no telhado, a panela fervendo embaixo
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“Porquinho, porquinho, me deixa entrar”, disse o lobo à porta da casa de palha, na beira da estrada onde a velha porca tinha despedido os três filhos.
A porca era pobre. Não tinha comida para todos, e mandou os três porquinhos pelo mundo, cada um atrás da própria sorte.
O primeiro encontrou um homem carregando um feixe de palha. Pediu a palha, ganhou, e levantou uma casa com ela na mesma tarde.
O lobo chegou logo depois e bateu.
“Não, não, pelos pelos do meu queixinho”, respondeu o porquinho lá de dentro.
“Então eu bufo, eu sopro e derrubo a sua casa”, disse o lobo. Bufou, soprou, e a palha voou. O porquinho foi comido ali mesmo.
O segundo encontrou um homem com um feixe de tojo, um arbusto espinhoso das charnecas inglesas que as traduções em português costumam chamar de gravetos. Fez a casa com os galhos.
O lobo repetiu o pedido, ouviu a mesma recusa e repetiu a ameaça. Precisou bufar e soprar com mais força, mas os galhos cederam. O segundo porquinho teve o destino do irmão.
O terceiro encontrou um homem com uma carga de tijolos. Pediu, ganhou e construiu devagar, parede por parede, com chaminé e lareira.
Quando o lobo bateu nessa porta, ouviu a recusa conhecida. Bufou, soprou, bufou de novo. A casa não se mexeu.
A versão que fixou esta sequência foi publicada em Londres, em 1890, pelo folclorista australiano Joseph Jacobs, no livro English Fairy Tales (contos de fadas ingleses). Ele não inventou o enredo. Recolheu o que as amas inglesas contavam às crianças havia gerações.
A parte que quase todo livro infantil moderno corta vem depois da casa de tijolo. O lobo, sem conseguir derrubar a parede, tenta atrair o porquinho para fora com três convites, cada um marcado para uma hora certa.
Adiante, os três convites e o caldeirão. Em seguida, de onde o conto veio, quem o escreveu primeiro e como um desenho animado de 1933 trocou o final. Por fim, o que a casa de tijolo ensina a uma criança.
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I A Fábula do Dia
Três convites e uma chaminé
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Em Os Três Porquinhos, na versão de Joseph Jacobs de 1890, o terceiro porquinho sobrevive porque chega sempre uma hora antes do lobo.
O primeiro convite foi para os nabos. O lobo contou que conhecia um bom canteiro na horta do senhor Smith e combinou de buscar o porquinho às seis da manhã.
O porquinho acordou às cinco. Foi sozinho, colheu os nabos e voltou para casa.
Às seis, o lobo bateu na porta e perguntou se o porquinho estava pronto. Ouviu que ele já tinha ido e voltado, com a panela cheia para o jantar.
O lobo ficou furioso, mas disfarçou. Fez um segundo convite: uma macieira carregada num lugar chamado Merry-garden (o jardim alegre). Passaria às cinco.
O porquinho saiu às quatro. Desta vez a árvore era longe, e subir nela levou tempo. Ainda estava lá em cima, com o saco cheio, quando viu o lobo chegando.
Pensou rápido. Jogou uma maçã bem longe, ladeira abaixo. O lobo correu atrás da fruta, e o porquinho desceu e correu para casa.
O terceiro convite foi para a feira de Shanklin, à tarde, às três.
O porquinho saiu antes, como sempre. Na feira, comprou uma batedeira de manteiga, um barril de madeira com tampa e manivela. Voltava com ela pela colina quando viu o lobo subindo.
Entrou dentro da batedeira para se esconder. O barril tombou e desceu o morro rolando, com o porquinho lá dentro.
O lobo viu aquele tambor descendo em sua direção, levou um susto e fugiu sem entender o que era.
Mais tarde, foi à casa de tijolo contar o medo que tinha passado. O porquinho riu. Disse que o barril era dele e que ele estava lá dentro.
Foi a gota. O lobo decidiu entrar de qualquer jeito e subiu no telhado para descer pela chaminé.
O porquinho ouviu os passos lá em cima. Pôs no fogo uma panela grande, cheia de água, e atiçou a lenha até ferver.
Quando o lobo vinha descendo, o porquinho tirou a tampa. O lobo caiu dentro da água fervendo.
O porquinho tampou a panela, cozinhou o lobo e comeu no jantar.
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Na versão de Jacobs, a casa de tijolo segura o lobo do lado de fora, mas quem vence a disputa é o horário.
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O texto inglês fecha dizendo que o porquinho viveu feliz para sempre.
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II A Origem
Das amas inglesas ao cinema
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Antes de Jacobs, o conto já tinha saído impresso em 1849, na coletânea de rimas infantis do estudioso inglês James Orchard Halliwell-Phillipps.
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Halliwell-Phillipps, mais conhecido como pesquisador de Shakespeare, juntou em Popular Rhymes and Nursery Tales (rimas populares e contos de berçário) as histórias que ouvia de amas e de velhos do interior. Os porquinhos estavam lá, com os nabos, as maçãs e a feira.
Joseph Jacobs nasceu em Sydney, em 1854, e se mudou para a Inglaterra para estudar em Cambridge. Achava que a Inglaterra tinha contos tão bons quanto os alemães dos irmãos Grimm, só que ninguém os reunia num livro para crianças.
English Fairy Tales saiu pela editora David Nutt, com ilustrações de John D. Batten. No fim do volume, Jacobs listou a fonte de cada conto. Para os porquinhos, apontou Halliwell.
Jacobs mexeu pouco no texto. Manteve o diálogo repetido, que as crianças decoravam e diziam junto.
O livro fez sucesso suficiente para ganhar um segundo volume em 1894, More English Fairy Tales (mais contos de fadas ingleses), com a mesma dupla de editor e ilustrador.
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“Little pig, little pig, let me come in. No, no, by the hair of my chiny chin chin.”
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Joseph Jacobs, English Fairy Tales, 1890: “Porquinho, porquinho, me deixa entrar. Não, não, pelos pelos do meu queixinho.”
O desenho de 1933
Em maio de 1933, os estúdios Walt Disney lançaram o curta Three Little Pigs, da série Silly Symphonies (sinfonias bobas), dirigido por Burt Gillett. A canção Who's Afraid of the Big Bad Wolf? (quem tem medo do lobo mau?), de Frank Churchill, tocou nas rádios dos Estados Unidos durante a Grande Depressão.
O filme ganhou o Oscar de melhor curta de animação na cerimônia de 1934.
Disney mudou o desfecho. Os dois primeiros porquinhos fogem para a casa do irmão, e ninguém é comido. O lobo cai na panela, que no desenho está cheia de terebintina, e sai correndo pela estrada com o traseiro ardendo.
Os três convites também sumiram. A disputa ficou reduzida às casas e ao sopro.
O que ficou da versão antiga
A maior parte dos livros infantis brasileiros segue o roteiro de Disney: três casas, três sopros, irmãos salvos.
A casa de tijolo continua no centro de qualquer versão. A versão de Jacobs mostra que ela só garantia o abrigo. A vitória sobre o lobo veio das três idas cedo e da panela que o porquinho preparou ao ouvir os passos no telhado.
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