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Fábula do Dia   Fábula do Dia
ED 056

A 14ª pauta escolhida pelos leitores. Aqui está.

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O lobo que pescou com o rabo no gelo

No conto russo recolhido por Afanassiev, o lobo perde o rabo no rio congelado e ainda leva a raposa nas costas.

Um lobo cinzento sentado na beira de um buraco no gelo de um rio, com o rabo na água, enquanto uma raposa observa da margem nevada.

O lobo sentado no buraco do rio congelado

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"Enfia o rabo no buraco e repete: pesca, peixinho, pequeno e grande", disse a raposa ao lobo, na beira do rio congelado que passa atrás da aldeia.

A instrução está no conto A Raposinha e o Lobo, a primeira história da coletânea Contos Populares Russos, que o folclorista Aleksandr Afanassiev publicou em Moscou entre 1855 e 1863.

O inverno do conto é o inverno russo de verdade. O rio vira chão. As mulheres da aldeia abrem um buraco no gelo com machado para tirar água, e o buraco fica ali, redondo e escuro, esperando o balde da manhã.

A raposa chega ao lobo com a barriga cheia de peixe. O lobo pergunta onde ela pescou tanto. Ela aponta o rio e ensina o método, com a calma de quem explica receita de família.

O método tem três passos. Sentar na beira do buraco. Baixar o rabo na água. Esperar a noite inteira repetindo a frase, sem puxar antes da hora.

O lobo obedece. Senta, baixa o rabo, repete a frase. A raposa fica por perto, andando em volta dele, e murmura outra frase, bem baixinho, que o lobo não entende direito.

A frase dela é: congela, congela, rabo de lobo.

A noite é longa e fria. A água do buraco fecha em volta do pelo, primeiro mole, depois dura como pedra. O lobo sente o rabo pesado e acredita que é peixe demais.

Quando o dia clareia, ele puxa. O rabo não sobe. Está preso no gelo, e o peso que ele sentiu era o próprio rio.

Na aldeia, as mulheres pegam os baldes e descem para buscar água.

Adiante, a noite no rio contada inteira, e o que a raposa fez enquanto o lobo pescava. Depois, como Afanassiev reuniu esta história e por que ela aparece em quase toda a Europa do Norte. Por fim, o que o conto mostra sobre quem aceita conselho de quem já comeu.

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I  A Fábula do Dia

Uma noite inteira de pescaria

A Raposinha e o Lobo é o conto russo em que a raposa rouba peixe de um camponês, convence o lobo a pescar com o rabo num buraco do gelo e, quando ele perde o rabo, ainda consegue ser carregada nas costas dele.

Tudo começou numa estrada de inverno.

Um camponês voltava da pescaria com o trenó cheio de peixe.

A raposa viu o trenó de longe e deitou no meio da estrada.

Ficou dura, de olhos fechados, como bicho que o frio levou.

O camponês parou e olhou para ela.

Pensou na gola de pele que daria para a mulher.

Jogou a raposa no trenó, em cima dos peixes, e seguiu viagem.

Atrás dele, a raposa abriu os olhos.

Foi jogando peixe na estrada, um por um, sem fazer barulho.

Quando o trenó ficou leve, ela pulou também.

Em casa, o camponês foi buscar a gola e o jantar.

Não achou raposa. Não achou peixe.

Na estrada, a raposa juntava a carga e comia com calma.

Foi aí que o lobo apareceu, magro de inverno.

Perguntou onde ela tinha arranjado tanto peixe.

A raposa respondeu que tinha pescado no rio, com o rabo.

Ensinou o lugar, o buraco e a frase: pesca, peixinho, pequeno e grande.

O lobo desceu ao rio e sentou na beira do buraco.

Baixou o rabo na água preta e começou a repetir.

A raposa rodeava o lobo e dizia a própria frase.

Congela, congela, rabo de lobo.

O lobo perguntou o que ela estava falando.

Estou ajudando, disse a raposa. Peço que venha peixe.

A noite passou. O gelo fechou.

De manhã, o lobo tentou puxar e não conseguiu.

Achou que tinha pescado um peixe enorme.

As mulheres da aldeia chegaram com baldes e viram o lobo preso.

Gritaram, pegaram pau e balde e bateram nele.

O lobo puxou com toda a força e o rabo arrebentou.

Fugiu pelo mato sem rabo, com o corpo doendo.

Nesse meio-tempo, a raposa entrou numa casa vazia da aldeia.

Meteu a cabeça na gamela de massa de pão e se lambuzou.

Saiu cambaleando e encontrou o lobo na estrada.

O lobo reclamou que ela o tinha ensinado errado.

A raposa gemeu que estava pior: tinham batido nela até os miolos saírem.

A massa grudada na cabeça parecia miolo mesmo.

O lobo teve pena e deixou a raposa subir nas costas.

Ele carregou a raposa pela estrada, mancando.

Lá em cima, ela cantava baixinho: o surrado leva o que ninguém surrou.

O lobo perguntou o que ela cantava.

Estou gemendo de dor, disse a raposa.

E ele seguiu carregando.

 
 

II  A Origem

Da aldeia ao livro de Afanassiev

O conto chegou ao papel pelas mãos de um funcionário de arquivo de Moscou que nunca saiu recolhendo histórias pelas aldeias, e mesmo assim montou a maior coletânea de contos russos do século 19.

Aleksandr Nikolaievitch Afanassiev nasceu em 1826, na província de Voronej, no sul da Rússia. Trabalhou como funcionário do arquivo do Ministério das Relações Exteriores e passou a vida entre livros.

O material veio de outros. A Sociedade Geográfica Russa guardava centenas de contos anotados por professores, padres e viajantes. O poeta e dicionarista Vladimir Dahl entregou a Afanassiev perto de mil textos que tinha recolhido.

O livro

Afanassiev publicou tudo em 8 fascículos, de 1855 a 1863, com o título Narodnye russkie skazki (Contos Populares Russos). Skazka quer dizer conto de fada, a história que o povo contava sabendo que era invenção.

Ele abriu a coletânea com os contos de bichos. A história da raposa, do peixe e do lobo leva o número 1 na edição, e por essa razão muita criança russa conhece a raposa antes de conhecer qualquer princesa.

O nome da raposa

Nos contos russos, a raposa tem apelido fixo: Lisa Patrikeievna. Lisa é raposa. Patrikeievna é patronímico (o sobrenome russo formado com o nome do pai), e a tradição liga o nome a Patrikei, príncipe lituano do século 14 lembrado como esperto.

O lobo ganha um tratamento parecido, ora de irmão, ora de compadre. O conto trata os bichos como vizinhos da mesma aldeia, que se cumprimentam na estrada e sabem o nome um do outro.

O surrado carrega o que ninguém surrou.

Aleksandr Afanassiev, Contos Populares Russos, 1855: a cantiga da raposa nas costas do lobo. Quando ele pergunta o que ela diz, a raposa troca as palavras por um gemido, e o lobo não percebe o deboche.

Três contos colados num só

Os folcloristas separam a história em três tipos no índice ATU, o catálogo internacional de contos revisado pelo alemão Hans-Jörg Uther em 2004. O tipo 1 é o roubo dos peixes com a raposa fingida de morta. O tipo 2 é o pescador de rabo. O tipo 4 é o bicho que se finge doente para ser carregado.

O pescador de rabo corre o norte da Europa com trocas de elenco. Na Noruega, na versão que Peter Christen Asbjørnsen e Jørgen Moe recolheram e George Webbe Dasent traduziu para o inglês em 1859, quem perde o rabo é o urso. O conto termina explicando por que o urso tem rabo curto até hoje.

A versão russa não explica origem de rabo nenhum. Prefere a última cena, com o lobo mancando e a raposa cantando nas costas dele.

 

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III  A Lição que Fica

O conselho de quem já comeu

A raposa não mentiu sobre o peixe. Ela tinha mesmo uma barriga cheia. Mentiu sobre o jeito de conseguir.

O lobo viu o resultado e não perguntou pelo caminho. Um peixe na boca de outro bicho pareceu prova suficiente de que o método funcionava.

A frase que a raposa lhe deu ajudou no engano. Tinha ritmo, repetição e cara de fórmula antiga. Quem repete uma frase a noite toda passa a acreditar nela.

Quem mostra o peixe na mão nem sempre conta como ele chegou lá.

O conto guarda uma segunda lição, mais dura. O lobo apanha, perde o rabo e, horas depois, carrega a culpada nas costas por pena.

Ela aparece com massa de pão na cabeça e uma história triste. Ele esquece o próprio machucado para cuidar do dela. A raposa sai do inverno sem um arranhão.

O terceiro ponto está no peso que o lobo sentiu no rabo. Ele achou que era peixe. Era gelo. A sensação de que algo está funcionando pode vir justamente do erro que prende.

Em casa, a cena aparece na criança que copia o truque do colega porque ele tirou nota boa, sem saber que o colega colou. Na escola, no grupo que segue a ideia do mais falante porque ele parece seguro.

No adulto, aparece em quem entra num negócio porque o vizinho diz que ganhou, e em quem continua pagando por um método porque a promessa de peixe grande ainda soa bonita.

Antes de ler: pergunte à criança se ela já fez uma tarefa do jeito que alguém ensinou e deu errado.

Na noite do rio: pare quando a raposa murmura congela, congela e pergunte por que o lobo não desconfia.

Na manhã: pergunte o que o lobo pensou que era o peso no rabo.

Na estrada: pergunte por que o lobo carrega a raposa, se foi ela que o enganou.

“Que conselho você seguiu só porque quem deu parecia ter ganhado?”

A raposa voltou para casa nas costas do lobo.

O lobo ficou sem rabo.

 
 

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Na versão norueguesa do mesmo conto, traduzida para o inglês por George Webbe Dasent em 1859, qual animal perde o rabo preso no gelo, no lugar do lobo?

AA raposa
BO urso
CO alce
DA rena

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