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Fábula do Dia   Fábula do Dia
ED 045
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O macaco cobrou o rabo e saiu com uma viola

Perdeu o rabo na faca da velha, exigiu a faca em troca e seguiu cobrando de porta em porta até a estrada acabar numa canção.

Um macaco sem rabo parado na porta de uma casa de barro, com a velha e a faca na mão.

O macaco sem rabo na porta da velha

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"Dá cá o meu rabo, ou dá cá a tua faca", grita o macaco no terreiro da velha, no conto que Sílvio Romero recolheu em Sergipe e reuniu nos Contos Populares do Brasil, com prefácio assinado em 1883. A mesma cobrança volta em cada porta da história, sempre no tom de quem veio buscar o que é seu.

O enredo começa com um roubo pequeno. O macaco entra na cozinha de uma velha para lamber o tacho, ela aparece com a faca na mão e o rabo do bicho fica no chão de terra batida.

Nenhum macaco de história brasileira aceita prejuízo calado. Este vira as costas para o próprio rabo e volta até a porta com uma proposta simples: ou a velha devolve o que cortou, ou entrega a faca que cortou. A velha não tem como costurar rabo, e a faca troca de dono.

A partir daí a história vira uma corrente. Cada pessoa que pega o objeto do macaco quebra, come ou perde o objeto, e o macaco cobra na hora, sempre com a mesma fórmula, sempre levando algo maior que antes. A faca some na mão de um pescador, o peixe some na cozinha, o pão some na boca de um burro de tropa.

A fórmula da cobrança se repete sem mudar uma palavra, e é ela que dá ritmo ao conto quando alguém o lê em voz alta. Cada porta recebe a mesma frase de duas partes, cada dono do objeto perdido escolhe a segunda, e a corrente avança para a casa seguinte com um objeto de valor maior no ombro do macaco.

A última porta da estrada guarda uma viola pendurada na parede de uma sala, e a viola muda o fim da história: o bicho que saiu de casa mutilado termina sentado numa cerca, cantando o próprio inventário de trocas.

A história vem inteira aqui embaixo, do tacho lambido até a última porta. Depois dela, a origem declarada: quem recolheu o conto, em que cidade, em que catálogo internacional ele ganhou número, quem o classificou no Brasil e o que ninguém consegue datar. E no encerramento, o que a corrente de trocas ensina sobre quem nunca deixa uma perda passar em branco.

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I  A Fábula do Dia

Dá cá o meu rabo, ou dá cá a tua faca

O tacho lambido, a faca da velha, o rabo no chão e a corrente de cobranças que atravessa sete portas.

Sílvio Romero deixou os personagens sem nome próprio: o macaco, a velha, o pescador, a cozinheira, o tropeiro, o lavrador, a dona da casa e o dono da viola. A história começa numa cozinha de casa de barro.

A velha tinha posto um tacho de canjica no fogo.

Saiu para buscar lenha no quintal.

O macaco entrou pela janela.

Meteu a mão no tacho quente.

Lambeu o dedo e meteu de novo.

A velha voltou com a lenha no braço.

Viu o bicho em cima do fogão.

Pegou a faca de cortar carne.

O macaco pulou para a janela.

A faca pegou o rabo no meio do pulo.

O rabo caiu no chão de terra batida.

O macaco correu até a cerca e parou.

Voltou andando devagar até a porta.

"Dá cá o meu rabo, ou dá cá a tua faca."

A velha não sabia costurar rabo de macaco.

Entregou a faca e fechou a porta.

O macaco foi embora com a faca no ombro.

Na beira do rio encontrou um pescador limpando tainha com um caco de telha.

Emprestou a faca ao pescador.

O pescador forçou a lâmina na espinha.

A faca quebrou no meio.

"Dá cá a minha faca, ou dá cá o teu peixe."

O pescador entregou a tainha maior do balaio.

O macaco seguiu estrada acima com o peixe.

Numa casa de fazenda, uma cozinheira pediu o peixe emprestado para fazer o almoço.

Deixou o peixe na mesa e saiu para peneirar o arroz.

O gato comeu a tainha inteira.

"Dá cá o meu peixe, ou dá cá o teu pão."

A cozinheira entregou o pão do dia.

Na curva da estrada passava uma tropa de burros.

O tropeiro pediu o pão para molhar no café.

Encostou o pão na sela e foi acertar a carga.

O burro da frente comeu o pão de uma vez.

"Dá cá o meu pão, ou dá cá o teu milho."

O tropeiro entregou um cesto de milho.

Adiante havia um lavrador consertando o mourão do curral.

O lavrador pediu o cesto para escorar o mourão.

As galinhas acharam o milho no chão.

Comeram grão por grão até o cesto virar.

"Dá cá o meu milho, ou dá cá a tua galinha."

O lavrador entregou a galinha carijó.

Na última casa da estrada, uma dona de casa guardou a galinha no puleiro.

O cachorro do terreiro achou o puleiro aberto.

Sobrou pena espalhada no chiqueiro.

"Dá cá a minha galinha, ou dá cá a tua viola."

A viola era do filho dela, pendurada na parede da sala.

A dona de casa desceu a viola do prego e entregou.

O macaco subiu na cerca com a viola no colo.

Afinou as cordas com a mão sem calo.

Cantou que tinha saído de casa com um rabo e voltava com uma viola.

A velha ouviu a cantoria da cozinha.

O rabo continuava no chão de terra batida.

 
 

II  A Origem

De um caderno sergipano para as prensas de Lisboa

Um advogado sergipano que anotava o que ouvia nas cozinhas e nos engenhos, uma coleção impressa em Portugal na década de 1880, um folclorista potiguar que organizou o acervo brasileiro em 1946 e um catálogo internacional que deu número a este enredo: o macaco sem rabo chegou até aqui por essas mãos.

Sílvio Romero nasceu em Lagarto, Sergipe, em 1851, formou-se em direito no Recife e dividiu a vida entre a crítica literária, a política e as histórias que ouvia de gente comum. Os Contos Populares do Brasil reúnem o que ele anotou em Sergipe e no Recife, impressos em Lisboa na década de 1880, com prefácio assinado em 1883.

A escolha de imprimir em Portugal tem razão prática: o mercado editorial brasileiro do século XIX publicava pouco fora do Rio de Janeiro, e coleção de folclore não vendia. Foi de Lisboa que os contos voltaram para as escolas brasileiras.

O macaco sem rabo pertence ao que os estudiosos chamam de conto acumulativo, a história que vai empilhando episódios iguais numa corrente, cada um puxando o seguinte. No índice ATU, o catálogo internacional de tipos de conto organizado por Antti Aarne, Stith Thompson e revisto por Hans-Jörg Uther em 2004, a corrente de trocas a partir de um rabo perdido carrega o tipo 2034.

Enredos do mesmo tipo aparecem na Índia, em Portugal e na África ocidental, com o rato, a raposa ou o coelho no papel principal. No Brasil o posto coube ao macaco, que já era o esperto da fauna nos contos de bicho daqui.

Dá cá o meu rabo, ou dá cá a tua faca.

Conto recolhido por Sílvio Romero, Contos Populares do Brasil, 1883.

Luís da Câmara Cascudo, nascido em Natal, Rio Grande do Norte, em 1898, organizou por tipo o acervo disperso de Romero e de outros coletores nos Contos Tradicionais do Brasil, de 1946. Foi ele quem separou os contos acumulativos num grupo próprio, pela fórmula repetida.

O que não se sabe sobre a origem

Os nomes de quem contou a história a Romero não chegaram até hoje. Ele registrava o enredo e raramente a pessoa, e a coleção ficou sem a lista de contadores que a sustentou.

Também não se sabe por qual rota o tipo 2034 chegou ao Brasil. Portugal e a costa ocidental africana são os dois caminhos possíveis, os dois trouxeram gente para o mesmo território nos mesmos séculos, e nenhum documento separa a contribuição de cada um.

O objeto final varia conforme quem conta: viola, rabeca, punhado de moedas ou noiva, e há registros em que o macaco perde tudo na última troca.

 

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III  A Lição que Fica

Quem cobra na hora nunca sai no prejuízo

O macaco perdeu um pedaço do próprio corpo e terminou a estrada com um instrumento musical no colo.

Repare no que cada pessoa faz com o objeto emprestado. O pescador força a lâmina, a cozinheira sai da cozinha, o tropeiro encosta o pão perto do burro, o lavrador derruba o cesto. Ninguém age por maldade, todos agem por descuido.

O macaco não discute o descuido. Ele chega com a fórmula pronta, uma frase de duas partes que já traz a alternativa dentro dela: devolve o meu, ou me dá o teu. Quem recebe a frase escolhe entre duas opções, e a primeira delas é impossível.

A cobrança chega antes do esquecimento, e é o que sustenta a corrente inteira de pé: o macaco nunca volta no dia seguinte para reclamar.

A velha não costura rabo, o pescador não solda faca, a cozinheira não tira o peixe do gato. A alternativa impossível empurra cada um para a segunda saída, que custa sempre um objeto maior que o perdido.

O crescimento do valor tem lógica doméstica. Uma faca vale mais que um rabo, um peixe grande vale a faca, um cesto de milho vale o pão, a galinha vale o cesto e a viola vale a galinha. A escada sobe porque quem paga prefere pagar caro a discutir na porta.

Há uma leitura amarga guardada na corrente. O prejuízo nunca desaparece, só troca de dono, e no fim da estrada quem perdeu foi a velha, o pescador, a cozinheira, o tropeiro, o lavrador e a dona da viola. Quem atravessa tudo sem perder nada é quem começou perdendo um pedaço do corpo.

Vale dizer o que o conto não ensina. Ele não manda cobrar de quem faz um favor nem promete que insistir dá lucro. O aviso é estreito: quem aceita usar objeto alheio responde por ele, e a conta chega na mesma visita.

Antes de começar: diga à criança que a história tem uma frase que se repete, e peça que ela fale a frase junto quando reconhecer.

Na cozinha da velha: leia a cena do tacho devagar, porque ali o macaco faz o único erro dele na história inteira.

A cada troca: pare antes da cobrança e pergunte à criança o que o macaco vai pedir agora.

Na viola: leia a cantoria em voz alta e termine baixo, na linha do rabo no chão.

O adulto reconhece a corrente no fornecedor que repassa o próprio atraso ao cliente seguinte e no colega que devolve a tarefa quebrada sem dizer que quebrou.

“De quantas perdas suas você desistiu de cobrar na mesma semana?”

A velha ficou sem faca.

O tropeiro ficou sem milho.

O macaco seguiu tocando.

 
 
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Quiz da edição

Segundo o texto, qual é o número do tipo de conto no catálogo internacional ATU que classifica a corrente de trocas do macaco sem rabo?

A1946
B2034
C1883
D2043

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