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O macaco preso pelos 5 no boneco de cera
No conto registrado por Sílvio Romero em 1885, um macaco ladrão briga com um boneco de cera calado e fica preso pelos cinco.
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O macaco diante do boneco de cera na roça
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“Me dá uma fruta, moleque, senão eu te bato”, disse o macaco ao boneco de cera, no meio da roça do velho, numa noite sem lua.
O boneco não respondeu. Estava de pé no canteiro desde a tarde, de braços abertos, cara redonda e pele escura e lisa, feita de cera de abelha amolecida no fogo.
Quem tinha feito o boneco era o dono da roça. Fazia semanas que alguém entrava de madrugada e levava o que estava maduro, e de manhã ele só achava casca no chão e pegada miúda na terra fofa.
O velho sabia de quem era a pegada. O macaco morava no mato da beira da roça e conhecia o caminho melhor que o próprio dono.
Já tinha tentado de tudo. O espantalho de pano o macaco derrubou na segunda noite, e as latas amarradas na cerca ele aprendeu a pular sem encostar.
Ficar acordado a noite inteira não adiantava. O macaco esperava o velho cochilar, pulava a cerca e voltava para o mato com a boca cheia.
Então o velho mudou de plano. Juntou cera, esquentou no fogo, modelou um menino do tamanho de um macaco em pé e o plantou no canteiro, entre as fileiras, de frente para a trilha.
Não pôs veneno, nem laço, nem cachorro. Pôs só o boneco, e foi dormir.
O macaco chegou na hora de sempre. Viu o vulto parado no meio do canteiro e estranhou. Ninguém ficava na roça àquela hora.
Chegou perto, devagar, e cumprimentou. O boneco ficou quieto.
Pediu a fruta com educação. O boneco ficou quieto.
Foi aí que o macaco fez a ameaça, e o boneco, mais uma vez, ficou quieto.
A primeira faixa conta o que o macaco fez com as mãos, os pés e a cabeça, e como o canteiro amanheceu.
Depois vem o crítico sergipano que pôs o conto no papel e o que o boneco ensina sem abrir a boca.
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I A Fábula do Dia
Cinco golpes no canteiro
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O Macaco e o Moleque de Cera, conto que o crítico sergipano Sílvio Romero registrou em 1885 no livro Contos Populares do Brasil, segue a briga golpe por golpe, até o dono da roça chegar.
Moleque, na fala da época, queria dizer menino. O boneco do conto é um menino feito de cera, posto ali para parecer gente no escuro.
De perto, à luz das estrelas, o boneco tinha o tamanho certo e a postura certa. Faltava só a voz.
O macaco repetiu o pedido, mais alto. O boneco seguiu calado, com os braços abertos e a cara virada para a trilha.
A mão direita
Irritado, o macaco deu um tapa na cara do boneco com a mão direita. A mão afundou na cera e ficou.
Ele puxou. A cera esticou, mas não soltou. “Larga minha mão, moleque, senão te bato com a outra”, gritou.
O boneco não largou. O macaco bateu com a mão esquerda, e a esquerda grudou também.
Os dois pés
Pendurado pelas duas mãos, ele ainda achava que mandava na briga. Ameaçou com o pé e chutou. O pé direito ficou preso na barriga do boneco.
Chutou com o esquerdo. Preso também.
Cada golpe vinha com a mesma ameaça, e cada ameaça ficava sem resposta. O macaco falava sozinho no meio do canteiro, cada vez mais alto, e o mato inteiro ouvia.
Agora ele estava agarrado ao boneco pelos quatro membros, como quem abraça um tronco, e a cera, esfriando no sereno da madrugada, segurava cada vez melhor.
Sobrava a cabeça. O macaco ameaçou uma última vez e deu uma cabeçada no peito do boneco. A testa afundou na cera e ali ficou, com o nariz colado.
O dono na trilha
Assim o velho o encontrou, de manhã cedo: preso pelas duas mãos, pelos dois pés e pela cabeça, sem conseguir nem virar o rosto para ver quem vinha.
O macaco tentou explicar. Disse que o moleque tinha começado a briga, que só queria uma fruta, que o boneco não quis largar. O velho ouviu calado, igual ao boneco.
O dono da roça não precisou correr nem armar laço. Bastou chegar e pegar o macaco, com boneco e tudo.
O conto termina com o ladrão nas mãos do dono, preso pelos cinco no mesmo canteiro onde roubava toda noite.
Ele tinha pulado a cerca para levar fruta e saiu da roça carregado, com o boneco grudado no corpo.
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II A Origem O crítico de Lagarto
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Sílvio Romero nasceu Sílvio Vasconcelos da Silveira Ramos Romero em 1851, na vila de Lagarto, no interior de Sergipe.
Formou-se em Direito no Recife, em 1873, na roda de Tobias Barreto, e passou a vida dividido entre a crítica literária, a política e a sala de aula.
Foi professor de filosofia no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, e em 1897 esteve entre os fundadores da Academia Brasileira de Letras, onde ocupou a cadeira 17.
O livro de 1885
Contos Populares do Brasil saiu em Lisboa, com introdução e notas do escritor português Teófilo Braga. Romero juntou histórias ouvidas sobretudo no Nordeste e no Rio de Janeiro, contadas por gente sem livro, na cozinha e na porta de casa.
O livro guardou a fala do povo do jeito que ela chegava, com repetição, ameaça e resposta, num tempo em que o conto oral brasileiro quase não tinha registro escrito.
Dois anos antes, em 1883, ele tinha publicado os Cantos Populares do Brasil, com versos e cantigas recolhidos do mesmo jeito, de boca em boca.
Nos contos, ele separou as histórias em três grupos, pela origem: europeia, indígena e africana, com a mestiça junto. O macaco do boneco de cera entrou no grupo africano.
A ideia de mistura atravessa a obra dele inteira. Na História da Literatura Brasileira, ele escreveu:
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“Todo brasileiro é um mestiço, quando não no sangue, nas ideias.”
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Sílvio Romero, História da Literatura Brasileira, 1888.
O boneco de piche
Em 1880, o jornalista americano Joel Chandler Harris publicou em Atlanta o livro Uncle Remus: His Songs and His Sayings (Tio Remus: suas canções e seus ditos), com a história do coelho e do Tar-Baby (o boneco de piche).
O enredo é o mesmo: um boneco calado, um bicho atrevido que bate e gruda. Harris ouviu a história de pessoas escravizadas nas plantações da Geórgia.
Na versão americana, o coelho escapa no fim pedindo para não ser jogado no espinheiro, o lugar onde nasceu. O macaco de Romero não tem esse truque: fica no canteiro até o dono chegar.
Os folcloristas reuniram a família inteira sob o número 175 do índice Aarne-Thompson-Uther (o catálogo internacional de tipos de conto). Entre os povos acãs, da costa ocidental da África, quem gruda num boneco coberto de goma de árvore é a aranha Ananse.
Romero morreu em 1914, no Rio de Janeiro. O conto chegou ao papel porque ele resolveu escrever o que as cozinhas do Nordeste já sabiam de cor.
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