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Fábula do Dia   Fábula do Dia
ED 010

O machado de ouro que o lenhador recusou

O lenhador honesto vem inteira e em português de hoje, de Esopo a La Fontaine, com a origem do machado de ouro e a lição de quem copiou a cena.

Um lenhador sentado no barranco de um rio fundo, diante de um machado de ouro erguido acima da água.

O lenhador diante do machado de ouro no rio

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Tem um tipo de teste que não avisa que começou. Ele não tem prova, não tem plateia e não tem nota no fim. Ele aparece quando alguém oferece uma coisa boa demais e não existe ninguém no mundo pra conferir a resposta.

A história que trata desse teste tem mais de dois mil anos de estrada e chegou aqui com três objetos: um machado de ouro, um de prata e um ferro velho.

No índice que os estudiosos usam pra numerar fábula grega, montado por Ben Edwin Perry, ela leva o número 173. No catálogo internacional de contos populares, o índice Aarne, Thompson e Uther, ela ocupa o tipo 729, registrado com o nome O machado que cai no riacho.

Os dois números dizem a mesma coisa: a cena não ficou presa em livro de fábula, virou conto de boca de povo em meio mundo.

O francês chama de Le Bûcheron et Mercure, o inglês de Mercury and the Woodman, o espanhol de El leñador honrado.

O que costuma passar batido é que a fábula tem duas partes, e quase todo mundo só ouviu a primeira. Na primeira, um homem perde a ferramenta de trabalho e responde a verdade. Na segunda, um vizinho assiste de longe e resolve repetir a cena de propósito.

A segunda parte é a que dá o recado inteiro. Sem ela a história vira promessa de prêmio pra quem se comporta bem.

A fábula de hoje serve a partir dos quatro anos e leva perto de dois minutos e meio lida em voz alta. Ela vem inteira, do primeiro golpe no tronco até o vizinho voltando pra vila de mãos abanando, sem corte e sem resumo.

Depois dela vem a origem declarada, com nome, obra e ano de cada versão que chegou até a sua tela. E no fim, a lição em uma frase, no tamanho da criança, escrita sem transformar o vizinho em vilão e sem cobrar nada de quem lê.

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I  A Fábula do Dia

O machado que caiu na correnteza

Um homem que vivia de cortar lenha, um rio fundo passando ao lado e um ferro que escapou do cabo no meio de um golpe. A fábula vem completa aqui embaixo, reescrita pra sair na sua voz sem tropeço.

Um lenhador derrubava um tronco na beira de um rio, no fim da manhã. O machado era velho, o cabo estava liso de tanto uso e a lâmina já tinha sido amolada mais vezes do que ele lembrava.

No meio de um golpe, o ferro soltou do cabo.

Ele passou por cima do galho, girou no ar e caiu bem no meio do rio.

A água ali era funda e escura. O ferro afundou de uma vez, sem dar tempo de nada.

O lenhador ficou parado na margem com o cabo vazio na mão.

Aquele machado era o trabalho dele. Sem lâmina não tinha lenha, sem lenha não tinha o que vender, e sem o que vender não tinha janta em casa.

Ele sentou no barranco e chorou.

Foi quando um deus apareceu na beira da água e perguntou o que tinha acontecido.

O lenhador contou do golpe, do ferro solto e do rio fundo.

O deus entrou na água e sumiu.

Voltou com um machado de ouro na mão, pesado, brilhando na luz do meio-dia.

É este aqui o seu?

O lenhador olhou bem e disse que não.

O deus entrou de novo. Voltou com um machado de prata, mais leve, com o fio limpo e a lâmina sem marca de uso, e perguntou outra vez.

O lenhador disse que não de novo.

Na terceira vez o deus voltou com um ferro velho, sem brilho nenhum, com o gume gasto de um lado só.

O lenhador levantou na hora e disse que era aquele.

O deus devolveu o machado dele. E entregou os outros dois junto, o de ouro e o de prata, pela resposta que tinha ouvido três vezes seguidas.

O lenhador voltou pra casa com os três nos ombros.

À tarde a história já tinha corrido a vila inteira.

Um vizinho ouviu tudo com atenção, pegou o próprio machado, foi até o mesmo trecho do rio e jogou o ferro na água de propósito.

Sentou no barranco e chorou bem alto, pra caso alguém estivesse escutando.

O deus apareceu na beira da água e perguntou o que tinha acontecido.

O vizinho contou a história do jeito que tinha ensaiado no caminho.

O deus entrou na água e voltou com o machado de ouro.

Perguntou se era aquele.

O vizinho disse que sim antes de o deus terminar a pergunta.

O deus não entregou nada.

Levou o machado de ouro de volta pro fundo, e o ferro do vizinho ficou lá embaixo junto.

O vizinho voltou pra vila sem ouro, sem prata e sem o machado com que tinha saído de casa de manhã.

 
 

II  A Origem

De Esopo ao prólogo de Rabelais

Esopo no século VI antes de Cristo, o tipo 729 no índice dos contos populares, Rabelais no prólogo do Quarto Livro em 1552 e La Fontaine em Paris em 1668: quatro paradas do mesmo machado.

O primeiro nome da linha é Esopo. A tradição grega o coloca no século VI antes de Cristo, na ilha de Samos, contador de histórias curtas em que o bicho, o deus e a natureza ocupam o lugar da gente. Ele não deixou livro escrito.

Na versão grega quem sai da água é Hermes, o deus dos caminhos, dos mensageiros e também dos ladrões. Quando a coleção passou pro latim, o mesmo deus virou Mercúrio, e é com esse nome que ele chega ao francês e ao português.

A moral grega não fala em prêmio. Fala em prova: o deus não paga a honestidade, ele testa primeiro e decide depois.

Do prólogo de Rabelais pra corte de Luís XIV

A parada seguinte não está em livro de fábula. Em 1552, o médico e escritor François Rabelais abriu o Quarto Livro das aventuras de Pantagruel com essa história contada por inteiro.

No texto de Rabelais o lenhador grita por Júpiter, e é Mercúrio quem desce até o rio com as três lâminas. O escritor usou a cena pra falar de gente que pede o mundo aos céus e não cuida do pouco que já tem na mão.

Cento e dezesseis anos depois, em 1668, em Paris, Jean de La Fontaine publicou Fables choisies, mises en vers. O lenhador abre o livro V, na fábula 1, com o nome Le Bûcheron et Mercure.

La Fontaine tinha lido Rabelais e não escondeu de quem era a história. A cena é a mesma: o machado perdido, o chamado a Júpiter e Mercúrio saindo da água três vezes.

Ne point mentir, être content du sien, c'est le plus sûr: cependant on s'occupe à dire faux pour attraper du bien. Que sert cela? Jupiter n'est pas dupe.

Não mentir, se contentar com o que é seu, é o mais seguro. Mesmo assim todo mundo se ocupa em dizer falso pra apanhar alguma coisa. De que adianta? Júpiter não cai nessa.

Jean de La Fontaine, Fables choisies, mises en vers, livro V, fábula 1, Paris, 1668. A tradução acima segue a leitura corrente do texto em domínio público.

Na versão francesa o vizinho não vem sozinho: o boato corre, a vila inteira perde o machado no mesmo rio, e nenhum imitador volta com ouro.

No Brasil, quem levou a coleção pra boca do adulto foi Monteiro Lobato. Em Fábulas, de 1922, as histórias saem contadas por Dona Benta, em português falado e sem cerimônia.

O objeto mudou de nome no caminho. No francês de Rabelais e de La Fontaine ele é a cognée, o machado de cabo comprido de derrubar árvore grande. No Brasil ficou machado.

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III  A Lição que Fica

O que o vizinho não entendeu

A moral que ficou colada nesta fábula é curta e um pouco morna: a honestidade compensa. Ela é fácil de dizer e difícil de usar com criança, porque sai da boca do adulto parecendo promessa de prêmio.

O vizinho entendeu exatamente essa versão morna. Ele viu o lenhador voltar com três machados no ombro e leu a cena como receita: perde o ferro no rio, chora no barranco, ganha ouro.

Repare no que ele copiou e no que deixou de fora. Copiou o rio, o choro e a pergunta do deus. Não copiou a única parte que sustentava tudo: responder a verdade na hora em que ela custava caro.

Repare também no detalhe que segura a primeira parte. Quando disse não ao machado de ouro, o lenhador achava que estava sozinho com um estranho na beira de um rio fundo.

E tem uma coisa que quase ninguém comenta: o lenhador chorou antes. Ele não recusou o ouro por ser bem-comportado, recusou precisando muito e sabendo o tamanho do que dispensava.

A criança reconhece a cena na hora. É o troco a mais que veio na mão dela na padaria e o ponto que a professora contou errado a favor dela.

A lição em uma frase: o que você faz sem ninguém por perto é o único pedaço da sua palavra que vale alguma coisa.

Antes de começar: diga a idade e o tempo em voz alta. A partir dos quatro anos, perto de dois minutos e meio. A criança entra melhor na história quando sabe que ela acaba logo.

Na hora dos três machados: mostre o peso com a mão e mude a voz a cada um. Ouro pesado, prata leve, ferro velho. A cena depende de a criança sentir a diferença entre os três.

Na hora da pergunta do deus: pergunte pra criança, no lugar do lenhador, se aquele é o machado dele. Deixe ela responder. Ela vira personagem por três frases e não solta mais a história.

Depois da última linha: faça a pergunta do fim e espere. A resposta costuma render mais conversa que a história inteira, e quase sempre chega com uma cena de escola.

Se a criança perguntar por que o deus não devolveu nem o ferro velho do vizinho, a leitura funcionou. Vale responder que ele jogou o próprio machado fora sabendo o que fazia.

Querer o machado de ouro não é o defeito da história. O lenhador também queria. Ele só não trocou a resposta por um metal mais caro.

O adulto que lê está na página junto. O rio da vida adulta é a nota que ninguém pediu e o relatório de horas que ninguém confere.

O lenhador não ganhou os três machados por precisar. Ganhou por dizer não ao ouro numa margem de rio onde ninguém ia conferir a resposta.

"O que você já devolveu sem ninguém saber que estava com você?"

 
 
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A Escada de 21 Noites

O caminho que leva a criança da tela até o primeiro livro lido sozinha.

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No catálogo internacional de contos populares Aarne-Thompson-Uther, a fábula do machado que cai no rio é registrada como tipo número:

A173
B729
C452
D668

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