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Fábula do Dia   Fábula do Dia
ED 048
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O menino que ensinou Anansi a subir na árvore

Anansi juntou a sabedoria do mundo num pote para ninguém mais ter, e foi o filho pequeno quem mostrou como subir com ele.

Uma aranha com um pote de barro amarrado na barriga, agarrada ao tronco liso de uma sumaúma, e um menino deitado no capim olhando de baixo.

Anansi agarrado à sumaúma com o pote na barriga

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"Pai, amarre o pote nas costas e suba com as mãos livres", grita Ntikuma do pé da árvore, numa aldeia akan da floresta que hoje é Gana. Lá em cima, agarrado ao tronco com um pote de barro preso na barriga, o pai dele, Kwaku Anansi, escorrega pela quarta vez.

Anansi é a aranha que os contos akan tratam como gente: casado, pai de família, vizinho de todo mundo e mais esperto do que convém. Nessa história ele passou semanas recolhendo a sabedoria do mundo. Batia de casa em casa, pedia um pouco a cada vizinho e guardava tudo no mesmo pote, tampado com folha de bananeira.

O plano era simples. Se só ele soubesse, todos teriam de pedir a ele. Faltava esconder o pote, e a aldeia era pequena, cheia de criança curiosa e de mulher que varre a casa inteira. Anansi escolheu a sumaúma mais alta da mata, árvore de tronco liso que em twi, a língua akan, se chama onyina, e decidiu guardar o tesouro na forquilha mais alta.

O que ele não calculou foi o próprio corpo. Com o pote amarrado na frente, os braços não abraçavam o tronco. Subia um palmo, o barro batia na casca, ele escorregava. Tentava outra vez, suando e xingando a árvore.

Ntikuma tinha seguido o pai escondido. Assistiu às tentativas deitado no capim, calado, até não aguentar mais, e deu a ideia que um menino dá sem pensar muito. Uma frase só, do mais novo da casa, para o homem que carregava toda a sabedoria do mundo na barriga.

A virada do conto está no que Anansi faz com essa frase. É ela que explica por que, na tradição akan, ninguém é dono do saber, e por que cada pessoa carrega só um pedaço dele.

Abaixo vem a fábula inteira, da primeira porta em que Anansi bateu ao que a chuva levou. Depois, de onde vem a aranha que é dona de todas as histórias, como ela atravessou o Atlântico nos navios do tráfico e o que os livros não conseguem datar. No encerramento, o que o pote quebrado ensina sobre guardar o que se sabe.

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I  A Fábula do Dia

O pote na forquilha da sumaúma

Um pote de barro, uma folha de bananeira, uma sumaúma de tronco liso e um menino escondido no capim.

Anansi e o Pote da Sabedoria é um conto akan, de Gana, com dois personagens nomeados: a aranha Kwaku Anansi e o filho dele, Ntikuma. A história começa numa manhã de seca.

Anansi acordou com uma ideia na cabeça.

Se ele soubesse tudo, todos teriam de pedir a ele.

Pegou um pote de barro vazio na cozinha.

Saiu pela aldeia batendo de porta em porta.

Pediu ao ferreiro o segredo do fogo forte.

Pediu à tecelã o jeito de cruzar os fios.

Pediu ao caçador o rastro de cada bicho.

Pediu às velhas os remédios das folhas.

Cada um deu um pouco do que sabia.

Anansi guardava tudo no pote e agradecia.

Andou por muitas aldeias durante muitos dias.

Quando o pote pesou, ele voltou para casa.

Tampou a boca com uma folha de bananeira.

Amarrou a folha com cipó bem apertado.

Sentou e olhou o pote a noite inteira.

Ali estava toda a sabedoria do mundo.

E ninguém mais tinha nenhuma.

Então veio o medo.

Alguém podia entrar e abrir o pote.

A mulher podia tropeçar nele.

Os filhos podiam brincar com ele.

Anansi decidiu esconder o pote no alto.

Escolheu a sumaúma mais alta da mata.

Amarrou o pote na frente do corpo, sobre a barriga.

Saiu antes do sol, para ninguém ver.

Não viu que Ntikuma vinha atrás.

O menino deitou no capim e ficou olhando.

Anansi abraçou o tronco e começou a subir.

O pote bateu na casca e ele escorregou.

Tentou outra vez, e o pote bateu de novo.

Subiu um palmo e caiu dois.

Suou, bufou e xingou a árvore.

Tentou pela quarta vez e voltou ao chão.

Ntikuma levantou do capim.

"Pai, amarre o pote nas costas e suba com as mãos livres."

Anansi olhou para o filho.

Olhou para o pote.

Desamarrou o pote da barriga e amarrou nas costas.

Subiu a sumaúma sem escorregar nenhuma vez.

Lá em cima, na forquilha, ele parou.

Tinha toda a sabedoria do mundo no pote.

E um menino tinha sabido o que ele não sabia.

A raiva subiu mais depressa que ele.

Anansi arrancou o pote das costas e o jogou lá de cima.

O barro bateu numa pedra e se partiu em cacos.

A sabedoria escorreu pelo chão.

A chuva daquela tarde lavou tudo para o riacho.

O riacho levou para o rio, e o rio levou para o mar.

Cada pessoa que bebeu daquela água ficou com um pouco.

Desde aquela tarde, ninguém tem toda a sabedoria.

E todo mundo tem alguma.

 
 

II  A Origem

Da caixa de Nyame aos quintais da Jamaica

Um povo da floresta de Gana que chama toda narrativa de "história da aranha", um deus do céu que vendeu os contos, um antropólogo britânico que os anotou em twi em 1930 e os navios que levaram Anansi para o Caribe: o conto do pote chegou até aqui por esse caminho.

Os akan são o maior grupo étnico de Gana e incluem os axânti, que ergueram um reino poderoso em torno da cidade de Kumasi no fim do século XVII. A língua deles é o twi, e em twi ananse quer dizer aranha.

Nas aldeias akan, o conto de Anansi não é um gênero entre outros. Toda narrativa de ficção se chama anansesem, as histórias da aranha, mesmo quando a aranha nem aparece nela. O costume era contar à noite, em roda, depois do trabalho.

A explicação para a aranha ser dona de tudo está noutro conto. Nyame, o deus do céu na tradição akan, guardava todas as histórias numa caixa. Anansi pediu para comprá-las, e o preço foi trazer quatro prisioneiros: Onini, a píton; Osebo, o leopardo; Mmoboro, os marimbondos; e Mmoatia, a fada da mata. Anansi capturou os quatro com truques, e Nyame lhe entregou as histórias.

Esse conto está em Akan-Ashanti Folk-Tales, livro que o antropólogo britânico Robert Sutherland Rattray publicou pela Clarendon Press, de Oxford, em 1930, com o texto em twi numa página e a tradução inglesa na página ao lado. Rattray servia à administração colonial da Costa do Ouro, território que virou Gana na independência, em 1957.

Tikoro nko agyina.

Provérbio akan tradicional, em twi: uma cabeça sozinha não faz conselho.

Anansi saiu da África nos navios do tráfico de escravizados. Os akan embarcados nos fortes da Costa do Ouro levaram as histórias para as plantações da Jamaica, do Suriname e das Antilhas. Na Jamaica a aranha virou Anancy; no Suriname, as histórias ainda se chamam anansitori; no sul dos Estados Unidos, virou Aunt Nancy, a tia Nancy.

Nas plantações, a aranha ganhou peso novo. Um bicho pequeno que vence os grandes pela esperteza era figura que os escravizados entendiam bem, e o conto passou a servir de lição de sobrevivência contada longe do feitor.

O que os registros não datam

Nenhum documento fixa quando o episódio do pote surgiu. Ele não aparece ligado ao conto da caixa de Nyame, e as versões impressas em inglês no século XX já o trazem pronto, sem indicar a aldeia ou o contador de quem veio. A primeira fonte escrita dele segue, então, sem data conhecida.

Os detalhes também variam. Em algumas versões o pote cai por acidente quando Anansi se atrapalha na forquilha; em outras ele o atira de raiva. Em umas a sabedoria vai para o mar; em outras o vento a espalha. Em todas, o saber sai do pote e se reparte entre as pessoas.

O menino muda pouco. Na maioria das versões ele é Ntikuma, o filho mais velho de Anansi com a mulher, Aso; em algumas é só "o filho pequeno", sem nome.

 

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III  A Lição que Fica

O conselho que veio de baixo

Anansi passou semanas juntando o saber dos outros e perdeu a calma diante de uma frase do filho.

Repare no que o conto põe na mão da aranha. Anansi não roubou nada: pediu, e cada vizinho deu de boa vontade. O pote se encheu pela generosidade da aldeia inteira. O defeito está no que ele quis fazer com o que recebeu.

Guardar o saber no alto de uma árvore é tentar transformar em posse o que só existe circulando. O ferreiro continuou sabendo forjar depois de contar o segredo. A tecelã continuou tecendo. Ninguém ficou mais pobre por dar, e Anansi não ficou mais rico por juntar.

Sabedoria tampada num pote não serve nem para subir numa árvore.

A prova vem do corpo. Com todo o saber do mundo amarrado na barriga, Anansi não resolve um problema de braço e tronco. O que ele acumulou está fechado com folha e cipó, e fechado não ajuda na hora em que faz falta.

Ntikuma, que não tinha nada no pote, resolve com o que viu. A resposta dele não vem de vizinho nem de ferreiro: vem de olhar o pai escorregar quatro vezes. É conhecimento que só existe fora do pote.

A queda do pote não é castigo de deus nenhum. É Anansi quem o joga, e o conto deixa claro que a raiva nasce do orgulho ferido, não da perda. Quem juntou tudo não suporta aprender com quem juntou nada.

O final ainda devolve o prejuízo em forma de ganho. O pote quebrado faz, sem querer, o que as portas da aldeia faziam de propósito: reparte.

Antes de ler: mostre à criança um pote ou uma jarra fechada e pergunte o que caberia dentro.

Nas portas: a cada vizinho que Anansi visita, peça que ela diga o que aquela pessoa sabe fazer.

Na árvore: deixe a criança sugerir como subir antes de ler a fala de Ntikuma.

No fim: pergunte o que ela sabe que um adulto da casa ainda não aprendeu.

O adulto reconhece a cena de outra forma: no chefe que centraliza toda decisão e trava a equipe, e no incômodo de ouvir a solução certa de quem chegou ontem.

“Qual conselho você recusou só porque veio de alguém mais novo?”

Anansi desceu da árvore sem o pote.

Ntikuma já tinha voltado para casa.

Choveu.

 
 
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Em twi, a língua akan, qual é o nome da sumaúma de tronco liso onde Anansi tentou esconder o pote?

AAnanse
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A raposa das cem artimanhas e o gato do galho

A raposa ria do gato que só sabia subir em árvore, até o caçador aparecer na trilha com quatro cães.

 
 
 

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