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O mestre de luta e a pegada 360 nunca ensinada
No Gulistan, livro do persa Saadi de 1258, o discípulo desafia o velho mestre diante do rei e cai com a única pegada que não aprendeu.
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O velho mestre ergue o discípulo diante do rei
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“Ele só me vence porque é mais velho e porque foi meu mestre, em força eu sou igual a ele”, disse o jovem lutador ao rei, no pátio do palácio onde a corte assistia aos treinos.
O rei não gostou do tom. O velho que o rapaz acabava de diminuir era o melhor lutador do reino, e tinha passado anos ensinando aquele mesmo rapaz na esteira de treino, pegada por pegada.
O mestre ouviu tudo calado, de braços cruzados. Não respondeu à ofensa e não pediu a palavra ao rei.
O rei mandou preparar a luta num descampado largo. Chamou os ministros, os comandantes e os homens mais fortes da região para assistir. Queria ver com os próprios olhos se o aluno tinha mesmo alcançado o professor.
O rapaz chegou primeiro, com pressa e sem medo. Era mais novo, mais pesado e treinava todos os dias. Na cabeça dele, a disputa estava ganha muito antes do primeiro agarrão.
O velho chegou devagar, cumprimentou o rei e tirou o manto sem olhar para o adversário.
Os nobres apostavam no rapaz. Ninguém ali tinha visto o mestre perder uma luta, mas também ninguém tinha visto o mestre enfrentar alguém com metade da idade dele e o mesmo repertório de golpes.
A cena está no Gulistan (O Jardim das Rosas, em persa), livro que o poeta Saadi terminou em Shiraz, no sul da Pérsia, em 1258. Foi o ano em que os mongóis tomaram Bagdá e derrubaram o califado abássida.
O livro tem oito capítulos de histórias curtas, misturando prosa e verso. A do lutador está no primeiro, dedicado à conduta dos reis, e é uma das mais lidas nas escolas do Irã até hoje.
Adiante, a luta inteira, o golpe que decidiu tudo e o que o velho respondeu quando o rapaz reclamou da derrota. Em seguida, quem foi Saadi, por que ele escreveu um livro de rosas com a Pérsia em chamas e como o Jardim chegou à Europa. Por fim, o que a história ensina a quem ensina e a quem aprende.
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I A Fábula do Dia
Trezentas e sessenta pegadas
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No primeiro capítulo do Gulistan, o poeta persa Saadi de Shiraz conta a história de um mestre de luta que dominava trezentas e sessenta pegadas e ensinou ao aluno preferido todas menos uma.
O mestre era famoso na arte da luta. Usava cada dia uma pegada diferente, de modo que nenhum adversário conseguia prever o agarrão do dia seguinte.
Entre os alunos havia um rapaz bonito e forte, de quem o velho gostava mais do que de todos os outros. A esse ele ensinou trezentas e cinquenta e nove pegadas. A última ele guardou para si.
O rapaz aprendeu bem e depressa. Ganhou técnica, ganhou corpo e ganhou fama. Em pouco tempo, ninguém da cidade aguentava ficar de pé diante dele por mais de alguns instantes.
A fama logo subiu à cabeça dele. Foi nessa altura que ele procurou o rei e se declarou igual ao mestre, faltando apenas o respeito pela idade.
No dia marcado, o rapaz avançou com toda a força, como um elefante enfurecido, segundo a imagem que Saadi usa no texto. Queria derrubar o velho logo no primeiro choque.
O mestre percebeu na hora que, em força bruta, o aluno era superior. Recuou um passo, deixou o rapaz gastar o primeiro ímpeto e então usou a pegada que tinha guardado.
O discípulo nunca tinha treinado aquela pegada. Não sabia por onde ela vinha nem como escapar dela.
O velho o agarrou, ergueu do chão acima da própria cabeça e o lançou na terra, de costas, diante de toda a corte.
A multidão gritou, e o rei mandou chamar os dois lutadores diante do trono.
Ao discípulo, o rei falou duro. Disse que ele tinha desafiado quem o criou na luta e que a soberba dele tinha acabado no chão.
O rapaz se defendeu como pôde. Disse que o mestre não tinha vencido pela força, e sim por um golpe escondido, guardado de propósito durante anos de treino.
O mestre confirmou sem constrangimento. Disse que tinha guardado a pegada para um dia como aquele.
Depois repetiu ao rei um conselho antigo dos sábios: não dar ao amigo tanta força que, se um dia ele virar inimigo, possa usá-la contra você.
E recitou dois versos, que Saadi registra no mesmo trecho:
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“Ou a lealdade não existe no mundo, ou ninguém a pratica nestes tempos. Ninguém aprendeu comigo a arte do arco sem, no fim, fazer de mim o alvo.”
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Saadi, Gulistan, capítulo 1, Shiraz, 1258.
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II A Origem
O poeta que voltou para casa
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Saadi escreveu o Gulistan em Shiraz, um ano depois do Bustan (O Pomar, em persa), quando voltou de décadas de viagem e encontrou a cidade poupada pelos mongóis.
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O nome completo dele era Abu Muhammad Muslih al-Din Saadi Shirazi. Nasceu em Shiraz, mas a data exata se perdeu: as fontes da época não registram o ano, e os estudiosos situam o nascimento entre 1184 e 1210.
Estudou em Bagdá, na Nizamiyya (a grande escola de direito e teologia da cidade). Saiu da Pérsia jovem, nos anos em que os exércitos mongóis começavam a avançar sobre as cidades do leste.
Trinta anos na estrada
Segundo o próprio Saadi, as viagens passaram por Síria, Arábia, Anatólia e Egito. Ele conta no Gulistan que foi capturado por cruzados perto de Trípoli e posto para cavar trincheiras.
Um mercador de Alepo que o reconheceu pagou dez dinares pelo resgate e ainda lhe deu a filha em casamento. Saadi descreve a esposa como brigona e encerra a história com uma piada sobre o preço da liberdade.
Os historiadores discutem quanto dessas memórias é fato e quanto é recurso de contador. Nenhum documento fora da obra confirma a prisão em Trípoli.
Em 1257, Saadi voltou para Shiraz. A província de Fars era governada pelo atabak (governador hereditário) Abu Bakr ibn Saad, que pagava tributo aos mongóis e, com o tributo, mantinha a cidade de pé.
O pseudônimo Saadi vem dessa família de governantes, os salgúridas. O poeta tomou o nome em homenagem a Saad, o herdeiro do atabak.
Um jardim que o outono não alcança
No prefácio, Saadi conta que um amigo colheu rosas num jardim para levar para casa. O poeta avisou que as flores murchariam em poucos dias e prometeu escrever um livro de rosas cujas pétalas nenhum vento de outono conseguisse arrancar.
O resultado são oito capítulos: a conduta dos reis, a moral dos dervixes (religiosos que viviam de pobreza voluntária), o contentamento, o silêncio, o amor e a juventude, a velhice, a educação e as regras da conversa.
Cada história é curta, quase sempre em prosa, e termina em versos que resumem a moral. A do lutador cabe numa página.
Do persa ao francês e ao latim
Em 1634, o orientalista francês André du Ryer publicou a primeira tradução europeia, com o título Gulistan, ou l'Empire des roses (o império das rosas). Em 1651, Georgius Gentius lançou em Amsterdã a versão latina.
Por séculos, o Gulistan foi o primeiro livro de leitura das crianças persas. Um tapete doado pelo Irã à sede da ONU em Nova York, em 2005, traz bordados versos do mesmo capítulo do lutador, os que dizem que todos os filhos de Adão são membros de um só corpo.
Saadi morreu em Shiraz no começo da década de 1290. O túmulo, chamado Saadieh, fica num jardim na saída norte da cidade.
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