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A provocação, a escolha do ponto de ataque e o fio esticado que ninguém viu no caminho de volta.
O mosquito chegou por cima, zumbindo, e disse que o leão não era rei de nada. Disse que não tinha medo dele e que podia provar na hora.
O leão estava deitado na sombra.
Abriu um olho só.
Mandou o inseto embora com uma frase de desprezo.
Disse que nem valia o esforço de uma pata.
O mosquito não respondeu com palavra.
Respondeu com o voo.
Desceu direto na cara do leão.
Picou a ponta do nariz primeiro.
O leão sacudiu a cabeça.
O mosquito subiu, girou e desceu de novo.
Picou dentro da narina, na pele úmida que não tem pelo.
O leão espirrou e bateu com a pata direita.
Acertou o próprio focinho.
O mosquito já estava atrás da orelha.
Depois na pele fina em volta do olho.
Depois no canto da boca.
Cada picada vinha de um lugar diferente.
O leão rugiu e o estouro espantou os pássaros da clareira.
Bateu de novo, com força, e rasgou a pele do próprio rosto.
A garra fez três riscos fundos acima do maxilar.
Saiu sangue na juba.
O leão mordeu o ar e acertou o chão de terra.
Girou no lugar, cego de raiva, sem conseguir ver o adversário.
O mosquito não estava em lugar nenhum e estava em todos.
A cada investida do leão, o inseto estava do outro lado da cabeça.
O leão cansou antes.
Deitou de lado, com a língua de fora, o rosto rasgado e a respiração pesada.
Pediu trégua com um resmungo baixo.
O mosquito subiu devagar, em espiral, por cima da clareira.
Zumbiu mais alto, como quem toca trombeta depois da batalha.
Anunciou em voz alta que havia derrotado o rei dos animais.
Seguiu o voo sem olhar para a frente, falando sozinho sobre o tamanho do feito.
A dez palmos do chão havia um fio.
Depois outro, e outro, esticados entre dois galhos de arbusto.
O mosquito entrou na teia em velocidade cheia.
A asa direita grudou primeiro.
Ele puxou e a segunda asa grudou também.
Quanto mais batia, mais fio vinha para cima dele.
A aranha desceu do alto, sem pressa, pelo centro da armação.
Ela não tinha visto a briga, não sabia do leão e não precisava saber.
O mosquito ainda falou, preso, para ninguém.
Disse que havia vencido o maior de todos e que terminava ali por causa de um bicho que ninguém teme.
A aranha fez o serviço.
O zumbido da clareira acabou antes do fim da tarde.
O leão levantou com o rosto marcado e foi beber água.
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