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Fábula do Dia   Fábula do Dia
ED 038
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O mosquito que tocou trombeta no leão

Ele escolheu o ponto onde a garra não alcança, ganhou a briga em pleno voo e não olhou para a frente na volta para casa.

O mosquito zumbindo junto ao rosto do leão deitado na clareira, com a teia de aranha esticada entre dois galhos ao fundo, cena da fábula do leão e do mosquito.

O mosquito e o leão no minuto da picada

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"Vai-te, insetinho miserável, excremento da terra", responde o leão ao mosquito no verso que Jean de La Fontaine publicou em Paris, em 1668, no livro II das Fábulas escolhidas. O mosquito escuta a frase inteira e declara guerra ali mesmo.

A briga que vem depois cabe em três metros de ar. De um lado, um bicho com garra, dente e juba. Do outro, um inseto que o vento carrega de lado quando sopra.

O desenho da luta é o que faz a fábula durar dois mil e quinhentos anos. O mosquito não enfrenta o leão onde o leão é forte. Ele vai para onde a garra não chega: a ponta do nariz, a borda das narinas, a pele fina em volta dos olhos.

O leão se defende com o que tem na mão, que é a própria pata. Bate no ar, rasga o próprio rosto, morde de lado e acerta o chão.

O mosquito ganha a briga de verdade. Não ganha por sorte nem por engano: ganha porque escolheu o lugar do ataque e porque o adversário gastou a força em si mesmo.

E então vem a segunda metade, que quase ninguém lembra quando conta a história no almoço. O vencedor sobe zumbindo, faz o voo de volta sem olhar para a frente e para numa teia de aranha esticada entre dois galhos. O bicho que fecha a história não participou da briga em momento nenhum.

Com criança a fábula funciona pelo som. O zumbido é a trombeta do exército, dá para fazer com a boca bem perto do ouvido, e depois parar de repente. A parada seca vale mais que qualquer explicação.

A leitura em voz alta pede duas velocidades: o leão em voz grossa e lenta, o mosquito rápido e fino. Cabe em meio minuto, e o silêncio do fim faz parte do tempo.

A fábula vem inteira aqui embaixo, da provocação na clareira até o fio da teia. Depois dela, a origem declarada, com a coleção grega em prosa, o poeta que a pôs em verso grego, o francês que lhe deu duas morais em 1668 e o brasileiro que a recontou para a escola. E no fim, o que a queda do vencedor ensina sobre o minuto seguinte a uma vitória grande.

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I  A Fábula do Dia

Três metros de ar entre um gigante e um inseto

A provocação, a escolha do ponto de ataque e o fio esticado que ninguém viu no caminho de volta.

O mosquito chegou por cima, zumbindo, e disse que o leão não era rei de nada. Disse que não tinha medo dele e que podia provar na hora.

O leão estava deitado na sombra.

Abriu um olho só.

Mandou o inseto embora com uma frase de desprezo.

Disse que nem valia o esforço de uma pata.

O mosquito não respondeu com palavra.

Respondeu com o voo.

Desceu direto na cara do leão.

Picou a ponta do nariz primeiro.

O leão sacudiu a cabeça.

O mosquito subiu, girou e desceu de novo.

Picou dentro da narina, na pele úmida que não tem pelo.

O leão espirrou e bateu com a pata direita.

Acertou o próprio focinho.

O mosquito já estava atrás da orelha.

Depois na pele fina em volta do olho.

Depois no canto da boca.

Cada picada vinha de um lugar diferente.

O leão rugiu e o estouro espantou os pássaros da clareira.

Bateu de novo, com força, e rasgou a pele do próprio rosto.

A garra fez três riscos fundos acima do maxilar.

Saiu sangue na juba.

O leão mordeu o ar e acertou o chão de terra.

Girou no lugar, cego de raiva, sem conseguir ver o adversário.

O mosquito não estava em lugar nenhum e estava em todos.

A cada investida do leão, o inseto estava do outro lado da cabeça.

O leão cansou antes.

Deitou de lado, com a língua de fora, o rosto rasgado e a respiração pesada.

Pediu trégua com um resmungo baixo.

O mosquito subiu devagar, em espiral, por cima da clareira.

Zumbiu mais alto, como quem toca trombeta depois da batalha.

Anunciou em voz alta que havia derrotado o rei dos animais.

Seguiu o voo sem olhar para a frente, falando sozinho sobre o tamanho do feito.

A dez palmos do chão havia um fio.

Depois outro, e outro, esticados entre dois galhos de arbusto.

O mosquito entrou na teia em velocidade cheia.

A asa direita grudou primeiro.

Ele puxou e a segunda asa grudou também.

Quanto mais batia, mais fio vinha para cima dele.

A aranha desceu do alto, sem pressa, pelo centro da armação.

Ela não tinha visto a briga, não sabia do leão e não precisava saber.

O mosquito ainda falou, preso, para ninguém.

Disse que havia vencido o maior de todos e que terminava ali por causa de um bicho que ninguém teme.

A aranha fez o serviço.

O zumbido da clareira acabou antes do fim da tarde.

O leão levantou com o rosto marcado e foi beber água.

 
 

II  A Origem

Da prosa grega até as duas morais de 1668

Uma coleção grega em prosa, um poeta que a pôs em verso no século II, um catálogo do século XX que lhe deu número, um francês que lhe deu duas morais em 1668 e um brasileiro que a levou para a escola em 1922: o leão e o mosquito chegaram aqui por cinco mãos.

A versão mais antiga vive na coleção em prosa atribuída a Esopo, o contador de histórias que os gregos situavam no século VI antes de Cristo e de quem não sobrou nenhuma linha escrita de próprio punho.

O animal do título em grego é o kónops, que se traduz por mosquito ou pernilongo, o inseto que pica e zumbe. A escolha do bicho importa: um besouro não teria como atacar a cara de um leão e sair vivo da primeira investida.

Nos estudos a fábula aparece pelo número 255 do índice de Ben Edwin Perry, o catálogo publicado em 1952 que deu uma entrada numerada para cada fábula greco-latina e hoje serve de endereço comum entre pesquisadores de línguas diferentes.

Babrio, que verteu fábulas gregas para verso por volta do século II, registra a mesma armação com o mosquito desafiando o leão, vencendo e caindo na teia de uma aranha no voo de saída.

Que lição podemos tirar daqui? Vejo duas. A primeira, que entre os nossos inimigos os mais temíveis são muitas vezes os menores. A outra, que alguém pode escapar de grandes perigos e perecer no menor deles.

Jean de La Fontaine, Le Lion et le Moucheron, Fábulas escolhidas, livro II, fábula 9, 1668.

Por que esta fábula guarda duas lições em vez de uma

La Fontaine foi o único a escrever as duas em voz alta, uma embaixo da outra, e a segunda contradiz o orgulho que a primeira permite.

A versão francesa de 1668 é a mais detalhada de todas. La Fontaine descreve a trombeta, o exército de um soldado só, o leão que espuma e se rasga, a cauda que bate no próprio flanco, e termina no fio da aranha em dois versos secos.

O francês também foi quem pôs a frase de desprezo na boca do leão, no primeiro verso da fábula, e a escolha dessa abertura é o que faz a provocação do mosquito parecer resposta e não capricho.

Na tradição brasileira a história entrou pela escola. Monteiro Lobato recontou fábulas de Esopo e de La Fontaine no volume Fábulas, de 1922, em linguagem de criança brasileira, e as seletas escolares do período imprimiam a moral embaixo do texto, quase sempre só a primeira das duas.

O costume de imprimir uma moral só explica o que acontece hoje na hora de contar a história em casa. O adulto guarda o mosquito vencendo o leão, que é a parte divertida, e esquece a teia, que é a parte útil.

 

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III  A Lição que Fica

O minuto seguinte à vitória

A primeira lição da fábula é a mais repetida e a mais fácil de aceitar: tamanho não define quem ganha a briga.

O mosquito venceu porque escolheu o terreno. Atacou onde a garra não alcança e fez o leão gastar a força em si mesmo, sem desferir um golpe sequer.

Repare que o leão não perdeu para o mosquito. Ele perdeu para a própria pata, para a própria raiva e para o próprio cansaço, enquanto o adversário se mantinha a um palmo de distância.

A segunda lição não fala da briga. Fala do minuto seguinte, quando a atenção que estava toda no leão vira comemoração e o caminho de volta passa a ser percorrido de olhos fechados.

O vencedor não foi derrotado por um inimigo maior. Foi parado por um fio que estava esticado ali desde antes da briga começar, no mesmo lugar, visível para quem olhasse.

A aranha não teve mérito nenhum na história. Ela não caçou o mosquito, não escolheu o alvo e não sabia quem estava chegando. Só manteve a teia no lugar.

Vale dizer também o que a fábula não ensina. Ela não manda deixar de brigar, nem manda desconfiar de toda vitória. O aviso é mais estreito: a euforia da vitória consome a mesma atenção que a briga exigia, e o perigo seguinte raramente tem o tamanho do anterior.

Antes de começar: diga a idade e o tempo em voz alta. A partir dos quatro anos, meio minuto de leitura.

Na hora da picada: faça o zumbido com a boca perto do ouvido da criança e mude de lado a cada frase, como o mosquito muda de lugar.

Na hora da trombeta: levante a voz e aumente o zumbido. É o único momento alto da história.

Na hora da teia: pare o zumbido de repente, no meio da frase, e conte até três antes da última linha.

O adulto que lê reconhece o fio em quem fecha o maior contrato do ano e deixa a entrega atrasar por falta de um arquivo, em quem ganha a discussão da reunião e perde o cargo numa mensagem escrita com raiva, e em quem sai de uma dívida de dez anos e assume outra em três meses porque estava comemorando.

“Quem está esperando no seu caminho de volta?”

O leão ficou com a cara rasgada.

A teia não se mexeu.

O zumbido parou.

 
 

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AUm pássaro que cruzou a clareira
BUm fio de teia de aranha esticado entre dois galhos
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