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Fábula do Dia   Fábula do Dia
ED 014

O osso que o cão largou pra pegar o do rio

O cão e o reflexo vem inteira e em português de hoje, de Esopo a La Fontaine, com a lição de quem solta o que já tem na boca.

Um cão parado no meio de uma ponte de tábuas, com um osso na boca, olhando o próprio reflexo na água parada do rio.

O cão na ponte, diante do próprio reflexo

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Ninguém solta uma coisa boa da mão por burrice pura. Solta porque, por um segundo, apareceu uma coisa parecida e maior. A fábula de hoje mede exatamente esse segundo.

Ela cabe numa travessia curta: uma ponte de tábuas, um rio de água parada embaixo e um bicho que já tinha conseguido o que queria.

No índice Perry, o catálogo que numera a fábula antiga, ela leva o número 133. No catálogo internacional de contos populares, o índice Aarne, Thompson e Uther, ela ocupa o tipo 34A, registrado com o nome O cão solta a carne pelo reflexo.

Os dois números dizem a mesma coisa: a ponte é velha e viajou longe. O francês chama a fábula de Le Chien qui lâche sa proie pour l'ombre, o inglês de The Dog and Its Reflection, o espanhol de El perro y el reflejo.

O que costuma passar batido é que o reflexo não mente. A água devolve a imagem certa, no tamanho certo, de um cão que existe de verdade e está ali mesmo em cima da ponte.

O erro não está na imagem. Está na conta que o cão fez sozinho, olhando pra baixo, com a boca cheia.

É aí que ela morde. Fábula de vilão que rouba ou engana se resolve rápido na conversa com a criança: não faça o que ele fez. Fábula em que ninguém engana ninguém obriga a falar de uma coisa mais fina, o prejuízo que a gente arruma sozinho.

E obriga a falar do preço, que nesta história é pago à vista, sem prazo e sem aviso: a boca abre, o osso cai e a água leva.

A fábula de hoje serve a partir dos quatro anos e leva perto de um minuto e meio lida em voz alta. Ela vem inteira, do açougue até a volta pra casa de boca vazia, sem corte e sem resumo.

Depois dela vem a origem declarada, com nome, obra e ano de cada versão que chegou até a sua tela. E no fim, a lição em uma frase, no tamanho da criança, sem transformar o cão em bobo.

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I  A Fábula do Dia

A ponte de tábuas e a água parada

Um osso conquistado com esforço, uma travessia de dez passos e um segundo de conta errada. A fábula vem completa aqui embaixo, reescrita pra sair na sua voz sem tropeço.

Havia um cão que rondava o açougue da vila todo santo dia. Ele sentava na calçada, ao lado da porta, e ficava esperando com as orelhas levantadas.

Na maioria das tardes ele voltava pra casa sem nada, arrastando a pata.

Mas numa tarde de sol o açougueiro olhou pra ele, deu de ombros e jogou um osso grande na calçada.

Era um osso de verdade, pesado, com carne colada em toda a volta e tutano no meio.

O cão fechou a boca no osso e não abriu mais. Saiu andando com o pescoço duro, sem correr, pra não deixar cair.

Passou pela padaria e não olhou pro lado. Passou por dois cachorros conhecidos e nem parou pra cheirar.

O caminho de casa passava por uma ponte velha de tábuas, atravessada em cima de um rio de água parada.

Era fim de tarde, sem vento nenhum, e a água estava lisa como um vidro escuro.

No meio da ponte o cão olhou pra baixo, do jeito que qualquer bicho olha.

E viu outro cão dentro da água, olhando de volta pra ele.

O outro cão tinha o mesmo pelo, o mesmo tamanho e as mesmas orelhas.

E tinha um osso na boca.

O cão da ponte parou de andar e ficou olhando aquele osso lá embaixo.

Quanto mais olhava, maior o osso da água parecia ficar.

Pensou que o outro cão tinha tido mais sorte no açougue. Pensou que aquele osso ali era o melhor dos dois.

Pensou que, se assustasse o outro com um latido, o bicho ia largar tudo e sair correndo.

Aí o osso grande ficaria boiando e ele desceria pra pegar.

Firmou as quatro patas na tábua, encheu o peito e latiu com toda a força que tinha.

A boca abriu.

O osso escorregou dos dentes, bateu na tábua e caiu na água com um barulho seco.

Na mesma hora o outro cão sumiu. O osso da água sumiu junto.

O rio se fechou por cima e ficou tudo escuro embaixo da ponte.

O cão desceu a barranca, entrou na água até a barriga e procurou com o focinho.

Só encontrou pedra fria, lodo e o próprio reflexo se remexendo de novo quando a água acalmou.

Ficou ali dentro do rio, com a água na altura do peito, esperando o osso voltar a aparecer.

O osso não voltou.

Quando escureceu, ele subiu a barranca, sacudiu o pelo molhado e atravessou a ponte de volta pra casa.

Chegou com a boca vazia, com fome, e com o mesmo caminho que tinha feito de manhã pela frente no dia seguinte.

 
 

II  A Origem

Fedro, o rio latino e a carne que a água levou

Esopo no século VI antes de Cristo, Fedro em Roma no século I, La Fontaine em Paris em 1668 e Monteiro Lobato no Brasil em 1922: quatro paradas da mesma ponte.

O nome de Esopo aparece na capa da maioria das coleções que trazem o cão e o reflexo, e é por ele que a história chega à escola. A tradição grega o coloca no século VI antes de Cristo, escravo alforriado que contava bicho pra falar de gente.

A fábula está no índice Perry com o número 133, o catálogo que organiza tudo que a tradição atribui a ele.

Na versão grega o desenho já é o que se conta hoje: o bicho atravessa a água carregando comida, vê a própria imagem, cobiça a porção do outro e abre a boca.

Vale registrar uma diferença que atravessa as versões. No grego e no latim o cão carrega um pedaço de carne. Em boa parte das coleções brasileiras ele carrega um osso, que é a imagem que a criança daqui reconhece na hora.

De Fedro em Roma ao verso que atravessou a ponte

A versão latina mais antiga que sobrou é de Fedro, liberto do imperador Augusto, que pôs as fábulas gregas em verso latino no século I depois de Cristo. O cão e o reflexo é a fábula 4 do livro I, com o nome Canis per fluvium carnem ferens, o cão que atravessa o rio levando carne.

Fedro abre com a lição antes da cena, do jeito dele. E o verso que resume a história virou frase de citar em latim:

Amittit merito proprium qui alienum appetit.

Perde com razão o que é seu quem cobiça o alheio.

Fedro, Fabulae, livro I, fábula 4, Roma, século I. A tradução acima segue a leitura corrente do texto em domínio público.

Em 1668, em Paris, Jean de La Fontaine publicou Fables choisies, mises en vers. O cão e o reflexo está no livro VI, na fábula 17, com o nome Le Chien qui lâche sa proie pour l'ombre.

O título francês já é a moral inteira: o cão que solta a presa pela sombra. La Fontaine troca o reflexo pela palavra sombra e usa a fábula pra falar de gente que corre atrás de promessa em vez de ficar com o que tem na mão.

No Brasil a fábula entrou na leitura de casa pela mão de Monteiro Lobato. Em Fábulas, de 1922, Dona Benta conta a história em voz alta, com palavra de cozinha e sem cerimônia.

A expressão que sobrou em português é mais curta que todas elas: mais vale um pássaro na mão que dois voando. É o que a criança já ouviu na cozinha antes de ouvir o nome de Esopo.

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III  A Lição que Fica

O que já estava na boca

A moral que ficou colada nesta fábula é curta e um pouco torta: quem tudo quer tudo perde. Ela trata o cão como ganancioso, e a ganância explica pouco do que aconteceu na ponte.

Repare no que o cão fez. Ele não roubou nada, não brigou com ninguém e não mentiu pra conseguir o osso. Ele esperou a tarde inteira na calçada e ganhou o osso na frente de todo mundo.

O prejuízo inteiro coube num latido.

É por causa disso que a fábula ainda funciona com criança de quatro anos. O cão fez o que qualquer um consegue fazer sem sair do lugar: comparou o que tinha na boca com uma coisa que parecia maior.

Repare também no lugar da comparação. Ela não veio de outro cão de verdade chegando na ponte e mostrando um osso melhor.

Ela veio de baixo, da água parada, do próprio reflexo do bicho que já tinha ganhado o dia.

A criança reconhece a cena na hora. É a bala trocada no recreio que parecia maior na mão do colega, é o brinquedo largado no chão porque apareceu outro na estante da loja.

A lição em uma frase: olhar o que o outro tem é de graça, mas abrir a boca pra pegar custa o que já estava dentro dela.

Antes de começar: diga a idade e o tempo em voz alta. A partir dos quatro anos, perto de um minuto e meio. A criança entra melhor quando sabe que a história acaba logo.

Na hora do açougue: conte devagar a espera na calçada. A criança precisa entender que o osso deu trabalho, senão a perda no fim não pesa nada.

Na hora do reflexo: pergunte pra criança quem é o cão da água antes de continuar. Muita criança de quatro anos responde que é outro cachorro, e a descoberta vale mais que a explicação.

Na hora do latido: abra a boca e faça o gesto do osso caindo com a mão. A queda precisa de um som e de um movimento, não de um adjetivo.

Se a criança rir do cão molhado dentro do rio, tudo bem, é pra rir mesmo. Vale a pergunta seguinte: e se ele tivesse atravessado a ponte sem olhar pra baixo?

Vale dizer também o que a fábula não faz. Ela não manda nunca querer mais nem ensina a criança a se contentar com pouco pro resto da vida.

Ela separa duas coisas que se parecem: querer mais e largar o que já é seu pra correr atrás de uma imagem.

O adulto que lê está na ponte junto: a vaga boa trocada pela proposta que ainda não tinha contrato, a economia guardada por anos jogada numa promessa que brilhava na tela.

O cão não errou ao querer o osso maior. Errou ao abrir a boca antes de descobrir se o osso maior existia.

"Que osso você já largou no meio da ponte por causa de uma imagem maior na água?"

 
 
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CUm peixe fresco
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