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Um osso conquistado com esforço, uma travessia de dez passos e um segundo de conta errada. A fábula vem completa aqui embaixo, reescrita pra sair na sua voz sem tropeço.
Havia um cão que rondava o açougue da vila todo santo dia. Ele sentava na calçada, ao lado da porta, e ficava esperando com as orelhas levantadas.
Na maioria das tardes ele voltava pra casa sem nada, arrastando a pata.
Mas numa tarde de sol o açougueiro olhou pra ele, deu de ombros e jogou um osso grande na calçada.
Era um osso de verdade, pesado, com carne colada em toda a volta e tutano no meio.
O cão fechou a boca no osso e não abriu mais. Saiu andando com o pescoço duro, sem correr, pra não deixar cair.
Passou pela padaria e não olhou pro lado. Passou por dois cachorros conhecidos e nem parou pra cheirar.
O caminho de casa passava por uma ponte velha de tábuas, atravessada em cima de um rio de água parada.
Era fim de tarde, sem vento nenhum, e a água estava lisa como um vidro escuro.
No meio da ponte o cão olhou pra baixo, do jeito que qualquer bicho olha.
E viu outro cão dentro da água, olhando de volta pra ele.
O outro cão tinha o mesmo pelo, o mesmo tamanho e as mesmas orelhas.
E tinha um osso na boca.
O cão da ponte parou de andar e ficou olhando aquele osso lá embaixo.
Quanto mais olhava, maior o osso da água parecia ficar.
Pensou que o outro cão tinha tido mais sorte no açougue. Pensou que aquele osso ali era o melhor dos dois.
Pensou que, se assustasse o outro com um latido, o bicho ia largar tudo e sair correndo.
Aí o osso grande ficaria boiando e ele desceria pra pegar.
Firmou as quatro patas na tábua, encheu o peito e latiu com toda a força que tinha.
A boca abriu.
O osso escorregou dos dentes, bateu na tábua e caiu na água com um barulho seco.
Na mesma hora o outro cão sumiu. O osso da água sumiu junto.
O rio se fechou por cima e ficou tudo escuro embaixo da ponte.
O cão desceu a barranca, entrou na água até a barriga e procurou com o focinho.
Só encontrou pedra fria, lodo e o próprio reflexo se remexendo de novo quando a água acalmou.
Ficou ali dentro do rio, com a água na altura do peito, esperando o osso voltar a aparecer.
O osso não voltou.
Quando escureceu, ele subiu a barranca, sacudiu o pelo molhado e atravessou a ponte de volta pra casa.
Chegou com a boca vazia, com fome, e com o mesmo caminho que tinha feito de manhã pela frente no dia seguinte.
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