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O Exemplo 32 do Conde Lucanor conta como três trapaceiros convencem um rei mouro de que tecem um pano visível só aos filhos legítimos, e como a corte inteira finge ver o tecido até um cavalariço negro dizer que o rei anda nu.
Três homens chegaram ao palácio de um rei mouro.
Diziam ser os melhores tecelões do mundo.
O conto nunca diz o nome deles, nem de onde vinham.
Ofereceram ao rei um pano diferente de todos.
Só quem fosse filho do pai que todos conheciam conseguiria ver o tecido.
Quem fosse filho de outro homem veria apenas o ar.
O rei gostou da proposta por um motivo prático.
Com aquele pano, saberia quais homens do reino não eram filhos dos seus pais.
E pela lei dos mouros, esses homens perderiam a herança para a coroa.
Deu aos três uma sala fechada, ouro, prata e seda para o trabalho.
Os tecelões trancaram a porta e montaram o tear.
Passavam o dia mexendo as mãos no ar, sem fio nenhum.
Guardaram o ouro e a seda para eles.
Depois de alguns dias, chamaram o rei para ver o começo do pano.
O rei mandou primeiro o camareiro, o criado de confiança que cuidava dos seus aposentos.
O camareiro entrou, olhou o tear e não viu nada.
Pensou na mãe, pensou no pai, pensou na herança.
Saiu da sala e disse que o pano era lindo.
O rei mandou outro homem, e o segundo voltou com o mesmo elogio.
Então o próprio rei entrou na sala.
Os tecelões descreveram as cores, o desenho e as figuras bordadas.
O rei não viu nada.
Lembrou que o camareiro tinha visto, e que o outro homem também.
Teve medo de não ser filho do rei que o criou.
Elogiou o pano mais do que os dois juntos.
Mandou ainda o aguacil, o oficial de justiça da cidade, e ele também viu o que não havia.
Chegou o dia da festa, e o rei quis vestir a roupa nova.
Os tecelões fingiram cortar, costurar e vestir o rei peça por peça.
O rei montou o cavalo e saiu pela cidade.
Os moradores sabiam da regra do pano.
Ninguém disse uma palavra.
Até que o cavalariço, o homem que cuidava do cavalo do rei, chegou perto.
Disse que não se importava com quem achassem que era o pai dele.
Disse que, ou ele era cego, ou o rei estava nu.
O rei mandou que o castigassem.
Mas a frase já tinha sido ouvida.
Outro homem repetiu, e depois outro.
Logo a cidade inteira dizia em voz alta o que via.
O rei e a corte entenderam o golpe e mandaram buscar os tecelões.
A sala estava vazia.
Os três tinham fugido com o ouro, a prata e a seda.
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