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Fábula do Dia   Fábula do Dia
ED 017

O rato do campo jantou como rei e voltou pro buraco

O rato do campo e o rato da cidade vem inteira e em português de hoje, de Horácio a La Fontaine, com a lição de quem prefere a bolota.

Um rato do campo e um rato da cidade diante de uma mesa farta num salão de casa rica.

O rato do campo diante do jantar da casa rica

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Todo convite bom vem com um preço que não está escrito no convite. Às vezes o preço só aparece no meio da sobremesa, na hora em que a porta abre. A fábula de hoje senta dois ratos na mesma mesa pra mostrar essa hora chegando.

A cena tem duas casas. Uma toca cavada no meio do mato, com pé de trigo por perto, e um salão de casa rica na cidade, com resto de banquete ainda em cima da mesa.

No índice Perry, o catálogo que numera a fábula antiga, ela leva o número 352. Poucas mudaram tão pouco em dois mil anos: a mesa, a fartura, o susto e a volta pra casa continuam exatamente na mesma ordem.

O que costuma passar batido é que o rato do campo não vence nenhuma discussão. Ele perde todos os argumentos, um por um, e mesmo assim vai embora com a razão na mão.

O jantar da cidade ganha em tudo que dá pra listar. Mais comida, comida melhor, sofá macio, teto sem goteira. Enquanto está comendo, o rato do campo não tem uma única resposta pra oferecer.

É aí que a fábula morde. História de tentação costuma terminar com o tentado descobrindo que a coisa boa era podre por dentro. Aqui a coisa boa é boa de verdade, e mesmo assim não vale a pena.

A fábula de hoje serve a partir dos cinco anos e leva perto de dois minutos lida em voz alta. Ela vem inteira, do primeiro grão de trigo até a última frase do rato do campo, sem corte e sem resumo.

Depois dela vem a origem declarada, com nome, obra e ano de cada versão que chegou até a sua tela. E no fim, a lição em uma frase, no tamanho da criança, sem transformar a cidade em vilã da história.

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I  A Fábula do Dia

A porta que abriu no meio do jantar

Dois ratos, duas casas e um jantar que ganhava em tudo. A fábula vem completa aqui embaixo, reescrita pra sair na sua voz sem tropeço.

Um rato do campo morava numa toca cavada embaixo de uma cerca velha, na beira de uma plantação de trigo. A casa era pequena, seca por dentro e forrada de palha.

Ele guardava bolota, grão de trigo, um pedaço de raiz doce e alguns caroços que catava no chão depois da colheita.

Num fim de tarde, recebeu a visita de um rato da cidade, primo distante, que passava por ali de viagem.

O rato do campo abriu a despensa inteira. Serviu o que tinha, ficou de pé enquanto o outro comia e não tocou na melhor parte pra deixar tudo pro visitante.

O rato da cidade mastigou uma bolota com cara de esforço e largou o resto na palha. Perguntou ao primo há quanto tempo ele comia daquele jeito e disse que ninguém precisava viver assim.

Contou da casa onde morava, um sobrado de gente rica, com mesa posta quase toda noite e sobra suficiente pra alimentar cem ratos.

O rato do campo escutou tudo calado, olhou pra própria bolota e achou que o primo tinha razão.

Foram os dois pra cidade, andando de noite pela beira do caminho, e chegaram no sobrado quando a casa já dormia.

O rato da cidade subiu na mesa da sala grande e mostrou o que tinha sobrado do jantar.

Havia queijo de três cores, pão branco ainda macio, mel numa tigela funda, uva, azeitona e um pedaço de carne assada.

O rato do campo comeu de tudo, e comeu muito, e no meio da comilança começou a rir do próprio trigo guardado embaixo da cerca.

Estava com o focinho no mel quando a porta da sala se abriu de um golpe.

Entrou luz, entrou voz de gente e entraram dois cães de guarda, que atravessaram a sala latindo alto.

Os dois ratos saltaram da mesa e correram, um pra cada lado, e o rato do campo se enfiou numa fresta atrás do armário com o coração batendo na garganta.

Quando a casa sossegou, o primo da cidade saiu da fresta dele e disse que aquilo era normal, que acontecia quase toda noite e que dava pra voltar pra mesa em seguida.

O rato do campo saiu da fresta com a barriga cheia e as pernas ainda tremendo.

Agradeceu o jantar, disse que era o melhor que já tinha comido na vida inteira e avisou que estava indo embora.

Explicou o motivo antes de sair. Na toca dele a comida era pior, mas a porta nunca abria com cão do outro lado.

Andou a noite toda de volta e chegou na cerca de madrugada, com fome outra vez. Comeu uma bolota sentado na palha, sem pressa nenhuma, e dormiu até o sol bater na entrada da toca.

 
 

II  A Origem

De Horácio a La Fontaine, o mesmo cardápio

Horácio em Roma por volta de 35 antes de Cristo, Bábrio no grego, La Fontaine em Paris em 1668 e Monteiro Lobato no Brasil em 1922: quatro mesas da mesma história.

A fábula aparece na maioria das coleções assinadas por Esopo e está no índice Perry com o número 352, o catálogo que organiza tudo que a tradição atribui a ele.

A versão grega em verso que chegou inteira é a de Bábrio, poeta que escreveu em grego no século II depois de Cristo e que fixou o desenho básico: a visita, a fartura, o susto e a volta.

Mas quem contou essa fábula com mais graça na Antiguidade não foi um fabulista de profissão. Foi um poeta romano falando da própria vida.

Horácio a colocou no fim da sátira 6 do livro II, publicada por volta de 35 antes de Cristo, no meio de um poema sobre a fazenda que ele ganhou de presente e sobre a canseira de viver em Roma.

Na sátira, um vizinho conta a história do rato do campo pra explicar por que Horácio prefere a fazenda ao barulho da capital. A mesma sátira traz a frase que virou lema de todo mundo cansado de cidade grande, quando ele pergunta ao campo quando vai poder vê-lo de novo.

Do verso de Paris ao quintal brasileiro

Em 1668, em Paris, Jean de La Fontaine publicou Fables choisies, mises en vers. O rato da cidade e o rato do campo está no livro I, na fábula 9, com o nome Le Rat de ville et le Rat des champs.

La Fontaine faz uma escolha que muda o peso da história: em vez de descrever cão, ele descreve barulho de porta, e deixa o medo aparecer antes do perigo.

O fecho dele é a frase mais citada da fábula inteira e sai pela boca do rato do campo, na despedida.

Fi du plaisir que la crainte peut corrompre.

Nada de prazer que o medo pode estragar.

Jean de La Fontaine, Fables choisies, mises en vers, livro I, fábula 9, Paris, 1668. A tradução acima segue a leitura corrente do texto em domínio público.

No Brasil a fábula entrou na leitura de casa pela mão de Monteiro Lobato. Em Fábulas, de 1922, Dona Benta conta a história em voz alta, com palavra de cozinha e sem cerimônia.

A expressão que sobrou em português é mais curta que todas elas: antes pouco com sossego que muito com susto. É o que a criança entende antes de ouvir o nome de Horácio.

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III  A Lição que Fica

O preço que vem depois do jantar

A moral que ficou colada nesta fábula é curta e um pouco preguiçosa: pobre é feliz e rico vive com medo. Ela deixa a criança com uma frase bonita e nenhuma ferramenta na mão.

Repare no que a fábula mostra de verdade. O rato do campo não descobre que o queijo era ruim. Ele come, gosta, ri do próprio trigo e admite em voz alta que a comida da cidade é melhor.

O que muda a decisão dele não é a comida. É a porta.

Quem compara duas vidas costuma comparar só o que está em cima da mesa. A fábula obriga a somar o que está do lado de fora dela.

É por esse motivo que a história ainda funciona com criança de cinco anos. Ela conhece a sensação de estar comendo uma coisa gostosa e ouvir passo no corredor.

O que ela precisa ver é a parte seguinte, que é a mais fina da fábula inteira: o rato do campo não vai embora com raiva do primo.

Ele agradece, elogia o jantar, diz que foi o melhor da vida dele e sai. Ninguém é vilão nessa história, nem o primo, nem a casa rica, nem os cães, que só estavam fazendo o serviço deles.

A lição em uma frase: o que está na mesa não é a coisa toda, porque o preço de um jantar às vezes só aparece na hora em que a porta abre.

Antes de começar: diga a idade e o tempo em voz alta. A partir dos cinco anos, perto de dois minutos. A criança entra melhor quando sabe que a história acaba logo.

Na hora da despensa: conte devagar o que o rato do campo tinha guardado, item por item, e mostre que ele ofereceu tudo. A generosidade dele no começo é o que faz o fim doer menos.

Na hora da mesa posta: exagere no cardápio da casa rica, sem economia. Se o jantar não parecer maravilhoso, a escolha do fim perde a força inteira.

Na hora da porta: bata uma vez na mesa com a mão aberta, na frase em que a porta abre. A criança precisa levar um susto pequeno pra entender o susto grande.

Na hora da despedida: pare e pergunte pra criança o que ela teria feito no lugar do rato do campo. Deixe ela responder antes de você. Muita criança escolhe ficar, e a conversa fica melhor quando ela escolhe.

Vale dizer o que a fábula não faz. Ela não ensina a criança a ter medo de cidade, de gente rica ou de comida boa.

Ela separa duas coisas que se parecem: uma vida melhor de verdade, que continua melhor depois que a novidade passa, e uma vida melhor só na mesa, que cobra a diferença em sobressalto.

O adulto que lê está na mesma sala: o cargo que pagava bem e obrigava a dormir com o telefone ligado, a viagem barata que custou três noites mal dormidas, o cliente grande que trouxe a fatura maior e o domingo trabalhado.

O rato do campo perdeu todas as comparações que dava pra fazer em cima da mesa. Ganhou a única que se fazia embaixo dela, na hora em que a porta abriu.

"Qual foi o último jantar bom que te custou a noite de sono?"

 
 
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