|
Dois ratos, duas casas e um jantar que ganhava em tudo. A fábula vem completa aqui embaixo, reescrita pra sair na sua voz sem tropeço.
Um rato do campo morava numa toca cavada embaixo de uma cerca velha, na beira de uma plantação de trigo. A casa era pequena, seca por dentro e forrada de palha.
Ele guardava bolota, grão de trigo, um pedaço de raiz doce e alguns caroços que catava no chão depois da colheita.
Num fim de tarde, recebeu a visita de um rato da cidade, primo distante, que passava por ali de viagem.
O rato do campo abriu a despensa inteira. Serviu o que tinha, ficou de pé enquanto o outro comia e não tocou na melhor parte pra deixar tudo pro visitante.
O rato da cidade mastigou uma bolota com cara de esforço e largou o resto na palha. Perguntou ao primo há quanto tempo ele comia daquele jeito e disse que ninguém precisava viver assim.
Contou da casa onde morava, um sobrado de gente rica, com mesa posta quase toda noite e sobra suficiente pra alimentar cem ratos.
O rato do campo escutou tudo calado, olhou pra própria bolota e achou que o primo tinha razão.
Foram os dois pra cidade, andando de noite pela beira do caminho, e chegaram no sobrado quando a casa já dormia.
O rato da cidade subiu na mesa da sala grande e mostrou o que tinha sobrado do jantar.
Havia queijo de três cores, pão branco ainda macio, mel numa tigela funda, uva, azeitona e um pedaço de carne assada.
O rato do campo comeu de tudo, e comeu muito, e no meio da comilança começou a rir do próprio trigo guardado embaixo da cerca.
Estava com o focinho no mel quando a porta da sala se abriu de um golpe.
Entrou luz, entrou voz de gente e entraram dois cães de guarda, que atravessaram a sala latindo alto.
Os dois ratos saltaram da mesa e correram, um pra cada lado, e o rato do campo se enfiou numa fresta atrás do armário com o coração batendo na garganta.
Quando a casa sossegou, o primo da cidade saiu da fresta dele e disse que aquilo era normal, que acontecia quase toda noite e que dava pra voltar pra mesa em seguida.
O rato do campo saiu da fresta com a barriga cheia e as pernas ainda tremendo.
Agradeceu o jantar, disse que era o melhor que já tinha comido na vida inteira e avisou que estava indo embora.
Explicou o motivo antes de sair. Na toca dele a comida era pior, mas a porta nunca abria com cão do outro lado.
Andou a noite toda de volta e chegou na cerca de madrugada, com fome outra vez. Comeu uma bolota sentado na palha, sem pressa nenhuma, e dormiu até o sol bater na entrada da toca.
|