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Fábula do Dia   Fábula do Dia
ED 009

O sapo que quis ficar do tamanho do boi

O sapo e o boi vem inteira e em português de hoje, de Esopo a Fedro e La Fontaine, com a lição de quem se mede pelo tamanho do vizinho.

Um sapo enchendo o peito de ar na beira de um brejo, com um boi enorme bebendo água no barranco atrás dele.

O sapo enchendo o peito na beira do brejo

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Existe uma conta que a gente faz sem perceber e que quase sempre sai errada: olhar pro tamanho do outro e usar ele como medida do próprio. A régua troca de dono num segundo, e o que era suficiente de manhã começa a parecer pouco à tarde.

A conta tem dois mil e quinhentos anos de registro. Ela virou uma história de sapo e boi que atravessou a Grécia, Roma, a corte francesa e o sítio de Dona Benta sem perder o formato. O francês chama de La Grenouille qui se veut faire aussi grosse que le Bœuf, o inglês de The Frog and the Ox, o espanhol de La rana y el buey.

No índice que os estudiosos usam pra numerar fábula grega, montado por Ben Edwin Perry, a história leva o número 376. Ela chegou até aqui por três estradas ao mesmo tempo: a coleção grega, a sátira romana e o livro francês de corte.

A cena do sapo tem versão de hoje em qualquer casa. É o adolescente que mede a própria festa pela festa do vizinho e o adulto que abre a tela satisfeito e fecha ela achando que está atrasado.

O que sustenta a fábula não é o tamanho do boi. É o que o sapo faz com a informação de que o boi existe. O boi não desafia, não fala e vai embora sem saber que virou medida.

A fábula de hoje serve a partir dos quatro anos e leva perto de dois minutos lida em voz alta, em ritmo tranquilo. Ela vem inteira, do primeiro passo do boi no barranco até a pergunta do filho mais novo, sem corte, sem resumo e sem trecho de amostra.

Depois dela vem a origem declarada, com nome, obra e ano de cada versão que chegou até a sua tela. E no fim, a lição em uma frase, no tamanho da criança, escrita sem transformar o sapo em bobo da história e sem cobrar nada de quem lê.

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I  A Fábula do Dia

O boi na beira do brejo

Um brejo pequeno, um boi que desceu pra beber sem olhar pra ninguém e um sapo que resolveu chegar no tamanho dele. A fábula vem completa aqui embaixo, reescrita pra sair na sua voz sem tropeço.

Numa tarde quente, um sapo tomava sol na beira do brejo com os dois filhos. O brejo era pequeno, o barro era macio e, até ali, nenhum dos três tinha reclamado do tamanho de coisa nenhuma.

Foi quando um boi desceu o barranco pra beber água.

O bicho era enorme. A sombra dele cobriu a beira inteira do brejo e o barro tremeu de leve a cada passo.

Os dois filhos correram pra trás de uma touceira de capim e ficaram espiando.

O boi baixou a cabeça, bebeu sem pressa, levantou a cabeça de novo e subiu de volta pelo mesmo barranco.

Ele não olhou pro sapo em nenhum momento. Nem sabia que tinha um sapo ali.

Quando o barro parou de tremer, o filho mais velho voltou e disse que nunca tinha visto bicho tão grande.

O sapo não gostou da frase.

Grande? Aquilo ali não é tamanho nenhum. Eu chego lá quando eu quiser.

E encheu o peito de ar.

Ficou um pouco mais largo e perguntou pros filhos se já estava do tamanho do boi.

Os dois disseram que não, que faltava muito.

O sapo puxou mais ar. A pele esticou, as costas arredondaram e ele ficou parecendo uma bola verde na beira da água.

Perguntou de novo. Os filhos disseram que estava maior, mas que ainda faltava um bocado.

O sapo puxou mais ar ainda. Quanto mais ele enchia o peito, menos ele conseguia enxergar o próprio brejo.

O filho mais novo pediu pra ele parar. Disse que o boi já tinha ido embora fazia tempo e que ninguém mais estava olhando.

O sapo não ouviu. Perguntou pela terceira vez se já estava chegando, e recebeu a mesma resposta de antes.

Então puxou mais um ar, e mais um, e mais um.

A pele esticou até onde dava, e um pouco além.

E estourou como uma bexiga cheia demais.

O ar saiu de uma vez só, e o brejo voltou a ser do tamanho que sempre tinha sido.

Os dois filhos ficaram parados um tempo, olhando pra água.

O mais novo foi o primeiro a falar. Perguntou por que o pai tinha querido virar boi, se boi não nada, não coaxa e não cabe em brejo nenhum.

O mais velho olhou pro barranco vazio e não soube o que responder.

O boi, a essa altura, já estava longe. Pastava num campo aberto sem saber que tinha servido de medida pra alguém.

 
 

II  A Origem

O sapo que atravessou Roma e Paris

Esopo no século VI antes de Cristo, Horácio em sátira romana por volta do ano 30 antes de Cristo, Fedro em verso latino no século I e La Fontaine em Paris em 1668: quatro paradas do mesmo sapo.

O primeiro nome da linha é Esopo. A tradição grega o coloca no século VI antes de Cristo, na ilha de Samos, contador de histórias curtas em que o bicho e a natureza ocupam o lugar da gente. Ele não deixou livro escrito: as fábulas rodaram de boca em boca antes de virar papel.

A moral grega não fala de humildade. Fala de medida: o dano não veio do boi, veio da régua que o sapo escolheu sozinho.

De Roma pra mesa de Luís XIV

A versão mais antiga que sobreviveu inteira não está em livro de fábula, está em poesia satírica. Horácio pôs a cena nas Sátiras, no livro II, sátira 3, escrita em Roma por volta do ano 30 antes de Cristo.

No texto de Horácio o bicho grande é um bezerro, não um boi, e quem enche o peito é a mãe, depois que os filhotes chegam contando o que viram no pasto.

No século seguinte, o liberto Fedro pôs a mesma história em verso latino, na coleção Fabulae Aesopiae. Ela está no livro I, na fábula 24, com o nome Rana rupta et bos, a rã estourada e o boi.

O primeiro verso de Fedro é a moral inteira: Inops, potentem dum vult imitari, perit, o fraco se arruína quando quer imitar o poderoso. Quem lia em latim já sabia o fim antes da primeira cena.

Em 1668, em Paris, Jean de La Fontaine publicou Fables choisies, mises en vers. O sapo aparece logo na abertura, no livro I, na fábula 3, com o nome La Grenouille qui se veut faire aussi grosse que le Bœuf.

Tout bourgeois veut bâtir comme les grands seigneurs, tout petit prince a des ambassadeurs, tout marquis veut avoir des pages.

Todo burguês quer construir como os grandes senhores, todo principezinho tem seus embaixadores, todo marquês quer ter os seus pajens.

Jean de La Fontaine, Fables choisies, mises en vers, livro I, fábula 3, Paris, 1668. A tradução acima segue a leitura corrente do texto em domínio público.

O verso não era sobre bicho. La Fontaine escrevia na França de Luís XIV, e a corte inteira se reconheceu na beira daquele brejo.

No Brasil, quem levou a coleção pra boca do adulto foi Monteiro Lobato. Em Fábulas, de 1922, as histórias saem contadas por Dona Benta, em português falado e sem cerimônia.

O nome do bicho mudou no caminho. No grego, no latim e no francês ele é rã. No Brasil o título popular trocou pra sapo, e ficou sapo na boca de quem conta.

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III  A Lição que Fica

De quem é a régua que você usa

A moral que ficou colada nesta fábula é curta e um pouco morna: cada um no seu tamanho. Ela é fácil de dizer e difícil de usar com criança, porque sai da boca do adulto parecendo pedido de bom comportamento.

O sapo da história não é bobo. Ele enxerga bem, mede bem e sabe com precisão quanto falta pra chegar no tamanho do boi.

O detalhe que costuma passar batido é de onde veio a régua. Até o boi descer o barranco, o brejo estava do tamanho certo pra todo mundo que morava nele.

Repare no que o boi faz e no que ele nunca faz. Ele não desafia, não provoca, não compara e vai embora pastar sem saber que virou medida.

E repare no motivo de o sapo continuar puxando ar. Não era o boi que estava cobrando, eram os filhos respondendo que ainda faltava. A conta continuou de pé com o boi já longe.

A criança reconhece a cena na hora. Ela mostra o desenho contente até ver o desenho do colega, e a partir dali o desenho dela ficou pequeno sem ninguém ter encostado nele.

A lição em uma frase: o tamanho do outro não tira nada do seu, quem tira é a conta que você faz com ele.

Antes de começar: diga a idade e o tempo em voz alta. A partir dos quatro anos, perto de dois minutos. A criança entra melhor na história quando sabe que ela acaba logo.

Na hora do boi: faça a sombra passar devagar e bata o pé no chão a cada passo. O boi precisa ser grande de verdade na leitura, senão a vontade do sapo não faz sentido depois.

Na hora dos sopros: encha o peito junto e pergunte pra criança, no lugar dos filhotes, se já chegou. Deixe ela responder que não. Ela vira personagem por três frases e não solta mais a história.

Depois da última linha: faça a pergunta do fim e espere. A resposta costuma render mais conversa que a história inteira, e quase sempre chega com um nome de gente de verdade.

Se a criança perguntar o que aconteceu com o sapo depois, a leitura funcionou. A fábula acaba ali de propósito: o que fica da cena é a pergunta do filho mais novo.

Algumas versões brasileiras deixam o sapo murchar em vez de estourar. Pode ler assim se a criança for pequena, desde que a conta continue a mesma: o sapo se perdeu na comparação, não no boi.

Vale dizer também que querer crescer não é o defeito da história. O sapo não errou por querer ser maior. Errou por escolher o tamanho de outro bicho como número final.

O adulto que lê está na página junto. O boi da vida adulta é a casa do colega no feed, o salário que alguém comentou de passagem e a foto de férias que abre na tela às onze da noite.

O sapo não estourou porque o boi era grande. Estourou porque escolheu o boi como medida de si mesmo.

"De quem é o tamanho que você usa pra medir se o seu já está bom?"

 
 
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A Escada de 21 Noites

O caminho que leva a criança da tela até o primeiro livro lido sozinha.

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Na versão da fábula escrita por Horácio, em Roma, por volta do ano 30 antes de Cristo, quem enche o peito de ar ao ouvir a descrição do bicho grande?

AO próprio sapo pai, sozinho e sem ouvir ninguém
BA mãe, depois que os filhotes contam o que viram no pasto
CO bezerro, tentando parecer maior ainda
DFedro, o autor da versão em latim

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