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A edição de hoje foi escolhida pela maioria dos leitores na votação de ontem.
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O Sol que abriu a porta para a Água
No conto efik registrado em 1910, o Sol diz sim a cada leva da Água até a casa sumir e ele subir ao céu com a Lua.
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O Sol e a Lua no telhado, a água subindo
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“Se eu for com o meu povo, não vamos caber na sua casa, e você vai acabar expulso dela”, disse a Água ao Sol, na beira do rio onde os dois costumavam conversar.
Os dois eram amigos antigos. No tempo em que o Sol e a Água moravam na terra, o Sol ia visitar a amiga quase todos os dias, sentava na margem e conversava até a tarde cair.
A Água nunca retribuía. Recebia bem, ouvia com atenção e não aparecia na casa de ninguém.
Um dia o Sol perguntou o motivo. Queria saber por que a amiga, tão gentil no próprio leito, nunca batia na porta dele.
A resposta foi a frase da beira do rio. A Água não andava sozinha. Onde ela ia, iam junto os peixes, os bichos do rio e tudo que vive debaixo dela.
O Sol não se ofendeu. Achou que o problema era de espaço, e problema de espaço se resolve com obra.
Voltou para casa e contou à Lua, sua mulher, o que tinha ouvido. A Lua concordou com o plano: iam construir um terreno grande, com muros largos e cômodos de sobra, para que a visita coubesse inteira.
Na cena há um aviso dado com franqueza e um convite feito com boa vontade. Ninguém mentiu. Ninguém quis enganar ninguém.
O conto vem dos efiks e dos ibibios, povos do sudeste da Nigéria, perto do rio Cross. Chegou ao papel em inglês em 1910, num livro de Elphinstone Dayrell, funcionário do governo colonial britânico.
Adiante, a visita inteira, do primeiro peixe ao telhado. Em seguida, quem foi Dayrell e como uma história contada à noite numa aldeia virou livro em Londres e, décadas depois, livro ilustrado premiado nos Estados Unidos. Por fim, o que acontece com quem diz sim sem olhar a altura da água.
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I A Fábula do Dia
A casa que o Sol construiu
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Em “Por que o Sol e a Lua moram no céu”, conto efik que Elphinstone Dayrell publicou em 1910, o Sol e a Lua perdem a casa para a visita que eles mesmos chamaram.
A obra levou tempo. O Sol queria um terreno à altura da amiga, e a Lua cuidou para que nada faltasse: pátio largo, paredes firmes, telhado alto.
Quando ficou pronto, o Sol voltou à margem e repetiu o convite. Agora havia lugar. Ela podia vir com quem quisesse.
A Água aceitou e marcou o dia.
Chegou devagar. Parou no portão e perguntou se podia entrar.
O Sol disse que sim.
A Água entrou, e com ela os primeiros peixes. Em pouco tempo o chão do pátio sumiu, e a água batia no joelho de um homem.
Ela perguntou se ainda era seguro o seu povo continuar entrando. O Sol e a Lua responderam que sim.
Vieram mais bichos do rio. Entraram os caranguejos, as cobras d'água, os peixes grandes que vivem no fundo. A água subiu até a cintura, depois até o peito.
A Água perguntou outra vez. Os anfitriões repetiram a resposta, com a boa educação de quem não quer parecer mesquinho diante de uma convidada.
Quando a água chegou à altura da cabeça de um homem, o Sol e a Lua já não tinham onde ficar no chão. Subiram para o alto do telhado e sentaram ali, olhando a casa encher.
A Água perguntou mais uma vez. Ainda havia muita gente dela esperando no portão, peixes e bichos que não tinham conseguido passar.
O Sol e a Lua, educados até aquela hora, disseram que sim.
A última leva entrou. A água cobriu o telhado.
Sem chão, sem parede e sem telha, o Sol e a Lua subiram para o céu.
Ficaram por lá desde então. A Água tomou a terra que era deles, e os dois passaram a olhar a casa de cima, de dia o Sol, de noite a Lua.
A repetição é o motor do conto. Cada pergunta da Água dá ao Sol uma chance de dizer que basta. Cada sim fecha uma dessas chances.
O conto não diz se a Água pediu desculpas, nem se a amizade continuou. A versão de Dayrell acaba na subida e não volta ao assunto, porque a história existe para explicar onde o Sol e a Lua estão, e esse é todo o serviço dela.
Também não diz o que aconteceu com a casa. Ela fica debaixo da água, e o leitor entende sozinho que não houve volta.
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II A Origem
Do rio Cross para uma editora de Londres
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Elphinstone Dayrell, funcionário colonial britânico na Nigéria, juntou dezenas de contos dos efiks e dos ibibios e publicou em Londres em 1910; o do Sol e da Água atravessou o século.
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Os efiks vivem no sudeste da atual Nigéria, na região de Calabar, perto da foz do rio Cross. Os ibibios são vizinhos e falam uma língua aparentada. As histórias de bichos e de forças da natureza circulavam entre eles contadas de boca, à noite, de avô para neto.
O funcionário que anotava contos
Elphinstone Dayrell trabalhou como comissário distrital (o chefe administrativo de um distrito no governo colonial) no protetorado britânico do Sul da Nigéria, no começo do século 20. Entre um relatório e outro, anotava as histórias que ouvia dos moradores.
O livro saiu em 1910 pela editora Longmans, Green and Co., em Londres, com o título Folk Stories from Southern Nigeria, West Africa (contos populares do sul da Nigéria, África Ocidental). A introdução é do escocês Andrew Lang, conhecido pelos livros de contos de fadas batizados com cores.
O conto do Sol e da Água aparece ali como Why the Sun and the Moon Live in the Sky (por que o Sol e a Lua moram no céu).
O que ficou na aldeia
Dayrell não diz quem contou cada história a ele, nem em que aldeia. Os narradores não aparecem no livro, e sem eles ninguém sabe hoje como a versão efik soava na boca de quem a contava.
O que chegou foi a versão de um inglês, escrita em inglês, para leitores ingleses. O enredo sobreviveu. O ritmo da fala original, as pausas e as respostas da plateia ficaram na Nigéria.
O livro ilustrado de 1968
Em 1968, a editora Houghton Mifflin, de Boston, publicou o conto sozinho, como livro infantil, com desenhos de Blair Lent. Os personagens aparecem como dançarinos mascarados, à moda das festas da região.
O livro recebeu em 1969 a menção honrosa da Medalha Caldecott, prêmio da Associação Americana de Bibliotecas para ilustração infantil. Foi por esse caminho que o conto entrou nas escolas americanas e, de lá, em coletâneas de vários países.
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“So the sun and moon were forced to go up into the sky, where they have remained ever since.”
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Elphinstone Dayrell, Folk Stories from Southern Nigeria, West Africa, 1910: “Então o Sol e a Lua foram forçados a subir ao céu, onde ficaram desde então.”
Contos assim têm rótulo entre os estudiosos: são mitos etiológicos (histórias que explicam a origem de algo que existe). Este explica por que o Sol e a Lua estão no alto, e por que a água cobre tanto da terra.
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