|
|
|
{{saudacao | Bom te ver por aqui.}} {{saudacao_nome | }}
|
|
|
A edição de hoje foi escolhida pela maioria dos leitores na votação de ontem.
|
| {{subiu_orn | }} |
{{subiu_num | }} |
{{subiu_orn | }} |
{{subiu_caps | }}
{{subiu_linha | }}
|
|
O tigre com medo de um caqui seco
No conto popular coreano, um tigre ouve a mãe calar o bebê com um caqui seco e foge da aldeia antes de amanhecer.
|
O tigre na janela de papel, numa noite de neve
|
| ▼ |
| |
|
“O tigre está aqui, para de chorar”, disse a mãe ao bebê, dentro de uma casa de telhado de palha no pé da montanha, numa noite de inverno na Coreia.
O bebê chorou mais alto ainda.
Encostado na parede de barro, o tigre ouviu o próprio nome e ficou imóvel.
Tinha descido da montanha com fome. A neve cobria o mato havia dias, os bichos pequenos tinham sumido nas tocas, e o cheiro da aldeia, de lenha queimada e de boi no estábulo, subiu pela encosta até ele.
Parou rente à janela de papel de amoreira. Lá dentro havia uma lamparina acesa, uma mãe cansada e uma criança que não queria dormir.
Quando ouviu a palavra tigre, o bicho armou o corpo. Achou que tinha sido visto e esperou o grito, a porta batendo, o pau de lenha na mão de alguém.
A porta não se abriu. A mãe só queria assustar o filho, e o filho não se assustou.
“Olha o urso da montanha”, tentou ela. O choro continuou igual.
O tigre achou graça na cena. Ninguém naquela casa tinha medo dele, nem a criança de colo, que mal sabia andar.
Então a mãe mudou o tom de voz. “Toma, um gotgam”, disse, oferecendo ao filho um caqui seco, e o bebê parou de chorar na mesma hora.
O silêncio caiu sobre a casa de uma vez, e o tigre gelou junto à parede.
Não sabia o que era um gotgam. Nunca tinha visto um. Sabia apenas que a criança, que não temia tigre nem urso, tinha calado ao ouvir o nome daquela fera.
Pela conta dele, a fera chamada gotgam devia ser maior, mais forte e mais brava que qualquer tigre. E estava ali dentro, a poucos passos da janela.
O frio da noite apertou. O tigre recuou devagar, sem fazer barulho na neve, e se encolheu no escuro, perto do estábulo, pensando por onde voltar à montanha sem cruzar com a fera.
A primeira faixa conta o que aconteceu quando um ladrão de bois, no escuro, pulou nas costas do tigre.
Depois vêm a origem coreana do conto, com os tigres que rondavam as aldeias de fato, e o que a fruta seca ensina sem abrir a boca.
Continue lendo ↓
|
|
|
|
I A Fábula do Dia
O ladrão nas costas do bicho
|
|
O Tigre e o Caqui Seco, que os coreanos chamam Horangi-wa Gotgam, é contado há gerações nas aldeias da península e termina antes de o sol nascer.
Naquela mesma noite, outro visitante rondava a casa. Era um ladrão de bois, que esperava a família dormir para levar o animal do estábulo.
Ele também tinha fome, também tinha frio, e não sabia que o tigre estava ali, encolhido entre a parede e o monte de palha.
O estábulo escuro
A lamparina apagou. O ladrão entrou no estábulo tateando, com as mãos estendidas, procurando o lombo do boi para montar e sair puxando o bicho pela aldeia.
Encontrou um lombo quente e peludo. Achou que fosse o boi e pulou em cima.
O lombo era do tigre.
O bicho sentiu o peso cair nas costas e teve certeza na hora: o gotgam tinha saído da casa e vinha pegá-lo.
A corrida na neve
O tigre disparou. Correu pelo caminho da aldeia, passou pelo poço, pelos campos de arroz cobertos de neve e subiu a trilha da montanha sem olhar para trás.
O ladrão se agarrou ao pelo com as duas mãos. Logo percebeu que boi nenhum corria daquele jeito, e que o lombo embaixo dele tinha listras.
Pular era morte certa, ao menos na cabeça dele. Ficar também era. Então ele apertou mais, e quanto mais apertava, mais o tigre acreditava que a fera não ia soltar.
|
Os dois com medo do mesmo escuro sustentaram a corrida a noite inteira.
|
O galho e o amanhecer
Quando o céu começou a clarear, o tigre passou rente a uma árvore grande, de galhos baixos. O ladrão viu a chance, largou o pelo e se agarrou num galho.
O peso sumiu das costas do tigre. Ele não parou para conferir. Correu até o alto da montanha e nunca mais desceu àquela aldeia.
O ladrão ficou pendurado na árvore até o sol subir, tremendo, e desceu sem boi e sem coragem de voltar ao estábulo.
Na casa de palha, a mãe acordou, acendeu o fogo e não soube de nada. O bebê tinha dormido a noite inteira, com o caqui seco na mão.
|
|
|
|
|
II A Origem No tempo em que os tigres fumavam
|
|
Os contos coreanos costumam abrir com a fórmula horangi dambae pigo meokdeon sijeol, que quer dizer “no tempo em que os tigres fumavam cachimbo”.
É o jeito coreano de dizer era uma vez. A frase põe o tigre no começo de tudo, e não por acaso: durante séculos, ele foi o bicho mais presente nas histórias da península.
O conto do caqui seco não tem autor. Ninguém sabe quem contou primeiro nem em que século, porque ele passou de avó para neto muito antes de alguém escrever. As versões no papel vêm de coletâneas de folclore feitas no século 20.
O tigre de carne e osso
O medo do conto tinha base. A Coreia teve tigres selvagens, da mesma espécie do tigre-siberiano, e eles desciam às aldeias nos invernos de fome.
Os Anais da Dinastia Joseon, a crônica oficial dos reis coreanos entre os séculos 14 e 19, registram ataques de tigres a vilas e a viajantes nas estradas da montanha.
A caça pesada no começo do século 20, durante a ocupação japonesa, acabou com eles. O último tigre selvagem registrado no sul da península foi abatido em 1921, perto de Gyeongju.
O tigre que faz rir
Mesmo temido, o tigre coreano virou personagem de graça. Na minhwa (a pintura popular coreana), ele aparece de olhos arregalados ao lado de uma pega, a ave que dá a notícia, mais bobo do que feroz.
Nos santuários das montanhas, o tigre acompanha o sansin, o espírito da montanha, como guarda e mensageiro. Em 1988, um filhote de tigre chamado Hodori foi o mascote dos Jogos Olímpicos de Seul.
O conto do caqui seco segue a mesma linha: a fera mais temida da aldeia foge de uma fruta, e quem ri é quem ouve.
A fruta pendurada no beiral
O gotgam é o caqui descascado e posto para secar ao vento. No outono, as famílias penduram os caquis em fieiras sob o beiral do telhado, e a fruta passa o inverno ali, escurecendo e adoçando, até ganhar uma película branca de açúcar na casca.
No frio, vira o doce da casa. Era o agrado guardado para a criança, o que explica por que o bebê do conto parou de chorar tão depressa.
A cidade de Sangju, no centro da península, é até hoje a mais conhecida pelo gotgam, e no inverno as casas da região ficam laranja de fruta pendurada.
|
| |
|