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O velho que deu os chapéus às estátuas de pedra
No conto japonês, um vendedor sem freguês cobre seis Jizō na neve e acorda com comida na porta de casa.
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O velho cobre as estátuas de pedra na neve
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“Chapéu de palha! Quem leva um chapéu para o ano-novo?”, gritava o velho na praça da cidade, ao pé das montanhas do norte do Japão, enquanto a neve engrossava.
Era o último dia do ano. A feira estava cheia de gente com pressa, carregando peixe salgado, saquê e bolinhos de arroz para a festa da passagem do ano.
Ninguém olhava para ele. Os chapéus eram bons, trançados à mão pela mulher dele durante as noites de inverno, com a palha de arroz que sobrou da colheita.
O casal morava numa casinha na beira da estrada, longe da cidade. Não tinha filho, não tinha terra própria e, naquele inverno, não tinha mais nada guardado na despensa.
A conta era simples. Se os chapéus fossem vendidos, haveria arroz para fazer o mochi (o bolinho de arroz socado que se come na passagem do ano). Se não, os dois passariam a festa com a panela vazia.
O velho ficou na praça até o sol baixar. Viu as barracas fecharem uma por uma, e o vento empurrou a neve para dentro das sandálias de palha.
Nenhum chapéu saiu do feixe. Ele amarrou a carga nas costas, apertou o casaco fino e tomou o caminho de volta pela trilha da montanha.
Pensava na mulher esperando perto do fogo. Pensava no que ia dizer a ela quando entrasse em casa com as mãos tão vazias quanto tinha saído.
No meio da subida, num descampado onde a trilha fazia curva, havia uma fila de estátuas de pedra. Eram figuras pequenas, de cabeça raspada e rosto calmo, postas ali por gente de muito antes dele.
A neve já cobria as cabeças e os ombros delas. Algumas tinham gelo pendurado nas orelhas e no queixo.
O velho parou. Esqueceu a pressa, a fome e o frio por um instante, e olhou para as figuras como quem olha para um vizinho sem casaco.
O que ele fez com os chapéus está na primeira faixa. Em seguida, quem são essas estátuas e por que ficam na beira das estradas japonesas. Por último, o que a escolha dele ensina a quem lê o conto com uma criança no colo.
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I A Fábula do Dia
Cinco chapéus e uma toalha
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Kasa Jizō (Os Jizō de chapéu), conto popular do Japão, ganha o rumo quando o velho conta as estátuas na neve: são seis, e ele carrega só cinco chapéus.
Ele tirou o feixe das costas e soltou a corda. Com a mão, limpou a neve da cabeça da primeira estátua e colocou nela um chapéu, amarrando a fita embaixo do queixo de pedra.
Fez o mesmo com a segunda, a terceira, a quarta e a quinta. Cada uma ganhou o chapéu bem ajustado, para o vento não levar.
Chegou à sexta e não tinha mais nada no feixe. A estátua seguia ali, com a cabeça branca de neve, igual às outras antes dele passar.
O velho olhou para si mesmo. Tinha o casaco, as sandálias e o tenugui (a toalha fina de algodão que o lavrador japonês amarra na cabeça).
Desamarrou a toalha da própria testa e enrolou na cabeça da última estátua. Ficou com as orelhas descobertas no vento da montanha.
A volta para casa
Chegou tarde, molhado até os joelhos. A mulher abriu a porta e perguntou como tinha ido a venda.
Ele contou tudo: a praça sem freguês, a fila de estátuas, os cinco chapéus e a toalha. Disse que não tinha trazido arroz nenhum.
A mulher não ralhou. Disse que ele tinha feito bem, que as estátuas também passavam frio, e que os dois aguentariam a noite com chá quente.
Comeram o pouco que havia, um punhado de picles e água quente. Deitaram cedo, perto da brasa, para gastar menos lenha.
A visita da meia-noite
Na madrugada, um barulho veio da estrada. Era um canto grave, de muitas vozes, e um arrastar pesado na neve, como de gente puxando trenó.
O canto chamava pela casa do velho que tinha dado os chapéus. As vozes chegaram mais perto e pararam bem diante da porta.
Ouviu-se um baque surdo na soleira. Depois, o canto foi se afastando morro acima, até sumir no vento.
O casal esperou o silêncio voltar e abriu a porta. Na neve havia sacos de arroz, mochi, peixe, legumes, saquê e até moedas para o ano inteiro.
Mais adiante, na trilha, iam se afastando seis figuras pequenas. Cinco usavam chapéu de palha. A última levava uma toalha amarrada na cabeça.
Os dois passaram o ano-novo com a mesa cheia. Nas versões contadas no norte do Japão, nunca mais lhes faltou comida até a velhice.
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II A Origem Os seis guardiões da estrada
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As estátuas do conto têm dono no budismo: são imagens de Jizō Bosatsu (o bodisatva Jizō, o ser iluminado que adia a própria salvação para socorrer os outros), protetor de viajantes e de crianças.
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Jizō chegou ao Japão vindo da China, onde era chamado Dizang, e, mais atrás, da Índia, onde levava o título sânscrito Kṣitigarbha (ventre da terra). No Japão, virou a figura budista mais popular das aldeias.
A forma se repete: um monge de cabeça raspada, rosto sereno, um cajado numa mão e uma joia na outra. As estátuas de beira de estrada costumam ser pequenas e de pedra rústica.
Por que seis
O número do conto vem da doutrina. O budismo ensina seis reinos onde a alma pode renascer, do inferno ao mundo dos deuses, e o Japão chama esse ciclo de rokudō (os seis caminhos).
Para cobrir os seis reinos, as aldeias erguiam o roku Jizō (os seis Jizō), uma fila de estátuas lado a lado. Cada uma vigia um caminho da alma.
Essas filas ficam na entrada de cemitérios, de templos e de vilarejos, nos cruzamentos e nas curvas de montanha. Quem viaja passa por elas, como o velho passou.
As roupas de pano
O gesto do velho tem raiz no costume. Até hoje, japoneses vestem as estátuas de Jizō com babadores vermelhos e gorros de crochê, trocados de tempos em tempos.
O vermelho, na crença popular, afasta doença. Muitos babadores são postos por pais que pediram a Jizō pela saúde de um filho, ou que perderam uma criança cedo.
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“Rokunin no Jizō-sama, kasa o kabutte, sori o hiite.”
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Canto do conto, de autoria anônima, na versão contada no norte do Japão: “Os seis Jizō, de chapéu na cabeça, puxando o trenó.”
De boca em boca até o livro
O conto circulou falado por séculos nas regiões de neve, como Tōhoku, no norte da ilha principal. Os detalhes mudam de vale para vale: em algumas versões o velho vende lenha, não chapéu, e troca a lenha pelos chapéus no caminho.
Em outras, o sexto Jizō não ganha toalha, mas o próprio chapéu velho do lavrador. O desfecho fica igual em todas: a comida aparece na porta na noite da passagem do ano.
Em 1961, o escritor Seta Teiji recontou a história em livro pela editora Fukuinkan Shoten, com desenhos de Akaba Suekichi. O livro ilustrado entrou nas escolas e é lido até hoje por crianças japonesas no inverno.
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