|
|
O vendaval arrancou o carvalho e deixou o caniço de pé
O carvalho e o caniço vem inteira e em português de hoje, de Esopo a La Fontaine, com a lição de quem aprende a dobrar.
|
O carvalho caído e os caniços de pé na margem
|
| ▼ |
| |
|
Toda árvore grande do quintal parece o lugar mais seguro na hora do temporal. É embaixo dela que a gente corre, é nela que a gente confia, e é ela que costuma amanhecer no chão.
A fábula de hoje coloca lado a lado duas plantas da mesma margem de rio. Um carvalho de tronco largo, com raiz antiga, e um caniço fino, daqueles que qualquer sopro entorta pra um lado só.
No índice Perry, o catálogo que numera a fábula antiga, ela leva o número 70. Ela atravessou o grego, o latim, o francês e o português sem perder um único movimento: a conversa na margem, o vento que chega, a queda e a planta que continua de pé.
O que costuma passar batido é que o carvalho não perde por ser fraco. Ele perde exatamente pela qualidade que todo mundo elogia nele.
Ele é o mais alto da margem, o mais duro, o mais antigo. Cada uma dessas medidas é verdadeira, e cada uma delas trabalha contra ele quando o vento vira temporal.
É aí que a fábula morde. História de orgulho costuma terminar com o orgulhoso descoberto como fraude, e a criança aprende que a força era mentira. Aqui a força do carvalho é real, medida e admirável, e mesmo assim não segura.
O caniço, do lado dele, não ganha nada por mérito próprio. Ele não é mais corajoso, não é mais sábio e não tem raiz melhor. Ele só faz a única coisa que sabe fazer desde que nasceu, que é ceder.
A fábula de hoje serve a partir dos cinco anos e leva perto de dois minutos lida em voz alta. Ela vem inteira, da primeira frase do carvalho até a manhã seguinte na margem, sem corte e sem resumo.
Depois dela vem a origem declarada, com nome, obra e ano de cada versão que chegou até a sua tela. E no fim, a lição em uma frase, no tamanho da criança, sem transformar força em defeito nem teimosia em virtude.
Continue lendo ↓
|
|
|
|
I A Fábula do Dia
A conversa na margem antes do vento
|
|
Duas plantas na mesma margem, uma conversa curta e uma noite de vento. A fábula vem completa aqui embaixo, reescrita pra sair na sua voz sem tropeço.
Na beira de um rio largo crescia uma faixa de caniços finos, e bem no meio deles subia um carvalho de tronco grosso. A copa dele fazia sombra em toda a margem e a raiz descia funda debaixo da água.
Os caniços cresciam do lado, todos da mesma altura, todos finos, com a ponta balançando o dia inteiro.
Numa manhã de brisa fraca, o carvalho olhou pro vizinho mais próximo e reparou que ele tinha se deitado quase até a água só por causa de um sopro de nada.
Perguntou ao caniço como ele conseguia viver assim, curvado pra qualquer lado que o ar resolvesse soprar.
Contou da própria vida. Disse que segurava tempestade de pé, que tinha galho mais grosso que o corpo inteiro do caniço e que nenhum vento tinha conseguido movê-lo até ali.
O caniço escutou tudo sem se ofender e respondeu com uma frase curta.
Disse que não brigava com o vento porque não tinha nada a ganhar na briga, e que preferia se abaixar cem vezes por dia a ser arrancado uma vez só.
O carvalho achou graça na resposta e ficou com a impressão de que o vizinho tinha inventado uma desculpa bonita pra fraqueza dele.
No fim da tarde o céu mudou de cor e o rio começou a bater na barranca com mais força.
À noite chegou o vendaval. Veio do lado do campo aberto, sem árvore nenhuma pra frear no caminho, e entrou na margem de uma vez.
Os caniços se deitaram todos juntos, encostados na água, e ficaram assim, deitados, enquanto o vento passava por cima deles.
O carvalho fez o que sempre tinha feito. Firmou o tronco, segurou os galhos abertos e recebeu o vendaval de peito.
Aguentou a primeira rajada, aguentou a segunda e rachou na terceira, com um estalo que se ouviu do outro lado do rio.
A raiz antiga saiu da terra molhada como se fosse mão soltando um punhado de areia, e o carvalho tombou dentro da própria sombra.
Quando o dia amanheceu, o vento tinha ido embora e o rio estava manso outra vez.
Os caniços levantaram a ponta devagar, um depois do outro, e ficaram de pé como estavam antes, um pouco sujos de lama e nada além.
O carvalho ficou caído ali na margem, com a raiz virada pro céu, do lado dos vizinhos que ele tinha achado fracos na manhã anterior.
|
|
|
|
|
II A Origem
De Esopo a La Fontaine, o mesmo vento
|
|
Esopo no grego antigo, Bábrio em verso no século II, Aviano no latim por volta do ano 400, La Fontaine em Paris em 1668 e Monteiro Lobato no Brasil em 1922: cinco margens do mesmo rio.
|
A fábula aparece nas coleções atribuídas a Esopo e está no índice Perry com o número 70, o catálogo que organiza tudo que a tradição antiga assinou com o nome dele.
A versão grega mais antiga é enxuta a ponto de caber num parágrafo. Nela a briga nem sempre é entre carvalho e caniço: em parte dos manuscritos, quem cai é uma oliveira que zomba da planta que se dobra.
Bábrio, poeta que escreveu fábula em verso grego no século II depois de Cristo, é quem fixa o desenho que sobreviveu: a conversa entre os dois, a vaidade do maior, o vento e a manhã seguinte.
No latim, a fábula ganha corpo com Aviano, autor de uma coleção em verso feita por volta do ano 400, muito copiada nas escolas da Idade Média. É por essa porta que a história entra na Europa e vira matéria de sala de aula por mil anos.
O detalhe que Aviano acrescenta é o rio. A árvore não cai só pelo vento: ela cai porque a terra da margem está encharcada e a raiz não tem mais onde se segurar.
Do verso de Paris ao quintal brasileiro
Em 1668, em Paris, Jean de La Fontaine publicou Fables choisies, mises en vers. O carvalho e o caniço está no livro I, na fábula 22, com o nome Le Chêne et le Roseau, e fecha o primeiro livro inteiro.
La Fontaine faz uma escolha que muda o peso da história. Ele deixa o carvalho falar quase o poema todo, com argumento bom e até generoso, e dá ao caniço uma resposta curta no meio do texto.
O carvalho chega a oferecer abrigo ao vizinho debaixo da própria folhagem. A oferta é sincera, e é ela que torna a queda dele mais dura de assistir.
A frase do caniço virou a mais citada da fábula inteira em qualquer língua, e cabe em cinco palavras.
|
Je plie, et ne romps pas.
Eu dobro, e não quebro.
|
Jean de La Fontaine, Fables choisies, mises en vers, livro I, fábula 22, Paris, 1668. A tradução acima segue a leitura corrente do texto em domínio público.
No Brasil a fábula entrou na leitura de casa pela mão de Monteiro Lobato. Em Fábulas, de 1922, a história é contada em voz alta no Sítio, com palavra de quintal e sem cerimônia.
A expressão que sobrou em português é mais curta que todas elas: pau que nasce torto não quebra no vento. É o que a criança repete antes de ouvir o nome de Aviano.
|
|
|
|
|
III A Lição que Fica
A força que quebra e a que dobra
|
|
A moral que ficou colada nesta fábula é curta e um pouco preguiçosa: humilde vence e orgulhoso cai. Ela deixa a criança com uma frase bonita e nenhuma ferramenta na mão.
Repare no que a fábula mostra de verdade. O caniço não vence o carvalho. Ele não fica mais alto, não ganha a margem, não recebe nada no fim da história.
E o carvalho não cai por ser vaidoso. Ele cai porque escolheu um jeito só de responder ao vento, e o vento daquela noite era grande demais pra esse jeito.
É por esse motivo que a história ainda funciona com criança de cinco anos. Ela conhece a diferença entre o galho que verga na mão e o graveto que estala no primeiro aperto.
O que ela precisa ver é a parte seguinte, que é a mais fina da fábula inteira: dobrar não é a mesma coisa que desistir.
O caniço volta pra posição dele quando o vento passa. Se ele ficasse deitado pro resto da vida, a fábula seria outra e a lição seria pior.
|
O carvalho ganhou todas as comparações que dava pra fazer num dia de sol. Perdeu a única que se fez de noite, quando o vento perguntou quem cedia.
|
Antes de começar: diga a idade e o tempo em voz alta. A partir dos cinco anos, perto de dois minutos. A criança entra melhor quando sabe que a história acaba logo.
Na hora da conversa: faça duas vozes bem diferentes. O carvalho fala grosso e devagar, o caniço responde fino e rápido. A criança precisa ouvir o tamanho de cada um antes de ver o vento.
Na hora do vendaval: sopre de verdade, uma vez só, e balance a mão aberta como se fosse a copa da árvore. O susto pequeno é o que segura a atenção até o fim.
Na hora da queda: fale mais baixo, não mais alto. A árvore caindo assusta mais quando a voz desce, e a criança não precisa de grito pra entender o tamanho do estrago.
Na hora da manhã seguinte: pare e pergunte pra criança se o caniço tinha medo. Deixe ela responder antes de você. Muita criança diz que sim, e a conversa fica melhor quando ela diz.
Vale dizer o que a fábula não faz. Ela não ensina a criança a concordar com tudo, a mudar de opinião a cada empurrão nem a achar que quem resiste está sempre errado.
Ela separa duas coisas que se parecem: a firmeza que serve pra sustentar alguma coisa de pé e a rigidez que só serve pra provar que não se mexe.
O adulto que lê está na mesma margem. O plano que não admitia ajuste até o dia em que o mercado mudou, a discussão em casa que virou questão de princípio por uma frase, a regra que fazia sentido em janeiro e continuou valendo em dezembro por pura inércia.
A lição em uma frase: quem cede na hora certa continua inteiro no dia seguinte, e o que sobra de pé é o que consegue voltar pro lugar depois que o vento passa.
“Qual foi a última vez que você preferiu quebrar a dobrar?”
|
|
|
|
Guia Fábula do Dia · Novo
A Escada de 21 Noites
O caminho que leva a criança da tela até o primeiro livro lido sozinha.
|
|
| |
|
Quiz da edição
|
|
Segundo o texto, qual autor latino acrescentou o detalhe de que a raiz do carvalho cede porque a terra da margem está encharcada, e não só pelo vento?
| | |