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ED 089
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Os 2 rouxinóis do imperador da China

No conto de Andersen, o imperador expulsa o rouxinol cinzento do bosque e fica com um pássaro de ouro movido a corda.

Um rouxinol cinzento pousado num galho, na janela do quarto onde o imperador da China está deitado numa cama de ouro.

O rouxinol cinzento na janela do imperador

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“Toquem música, o grande tambor chinês, para eu não ouvir o que eles dizem”, gritou o imperador da China, deitado na cama de ouro do palácio de porcelana.

Não havia ninguém no quarto para tocar o tambor. Os criados tinham saído, e os corredores estavam forrados de pano grosso para abafar os passos de quem ainda passasse por ali.

O imperador estava doente, e no palácio se dizia que ele não sobreviveria. Um sucessor já tinha sido escolhido, e a corte inteira corria pelos salões para cumprimentar o imperador novo. Na rua, quando o povo perguntava ao camareiro pelo velho, ele só balançava a cabeça.

Deitado debaixo das cobertas de seda, o imperador estava frio e pálido. Sentia um peso no peito e, quando abriu os olhos, viu quem estava sentado ali: a Morte, com a coroa de ouro dele na cabeça, a espada dele numa das mãos e a bandeira dele na outra.

Das dobras das cortinas de veludo saíam rostos estranhos, uns feios, outros mansos. Eram as boas e as más ações do imperador, e cada rosto cochichava a mesma pergunta: “Você se lembra?”

Numa almofada de seda, junto da cama, brilhava um pássaro de ouro que só cantava quando alguém lhe dava corda.

“Canta, passarinho de ouro”, pediu o imperador. “Eu te dei ouro e pedras preciosas, pendurei no teu pescoço o meu chinelo de ouro. Canta!”

O pássaro continuou parado na almofada de seda. Ninguém tinha ficado no quarto para lhe dar corda, e o imperador não tinha força para se levantar.

A história desse quarto começa anos antes, num bosque perto do mar, com um passarinho pequeno e cinzento que o imperador nunca tinha ouvido e que um dia mandou embora do império.

Depois vêm a cantora sueca que o autor tinha na cabeça quando escreveu e o que os dois pássaros dizem a quem precisa escolher entre o vivo e o de corda.

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I  A Fábula do Dia

O passarinho cinzento do bosque

O Rouxinol, conto que o dinamarquês Hans Christian Andersen publicou em 1843, começa com um imperador que descobre o melhor do próprio reino lendo um livro.

Viajantes de muitos países visitavam a capital do imperador e voltavam para casa escrevendo livros sobre o palácio de porcelana e o jardim com sininhos de prata nas flores. Todos punham acima do resto o rouxinol do bosque.

Um desses livros chegou às mãos do imperador, que nunca tinha ouvido falar de rouxinol nenhum. Mandou o camareiro trazer o pássaro naquela noite, ou a corte inteira levaria socos na barriga depois do jantar. Nenhum cortesão conhecia o bicho.

A ajudante de cozinha

Quem conhecia era uma menina pobre da cozinha, que toda noite levava sobras para a mãe doente, na praia, e parava no bosque na volta. “As lágrimas me vêm aos olhos, como se minha mãe me beijasse”, contou ela.

No caminho, a corte confundiu o mugido de uma vaca e o coaxar das rãs com o canto do pássaro. No galho, a menina apontou um passarinho cinzento, e o camareiro achou o bicho sem graça.

No palácio, o rouxinol cantou, e lágrimas desceram pelo rosto do imperador. Ofereceram ao pássaro o chinelo de ouro do imperador para usar no pescoço, e ele recusou: as lágrimas já pagavam o canto. A menina ganhou o cargo de cozinheira da corte.

O pacote do Japão

O rouxinol ganhou gaiola e doze criados, todos segurando fitas de seda amarradas na perna dele. Um dia chegou do imperador do Japão um pássaro mecânico de ouro, coberto de diamantes, rubis e safiras, com uma fita no pescoço: “O rouxinol do imperador do Japão é pobre perto do rouxinol do imperador da China.”

Com corda, o pássaro mecânico cantava uma das músicas do cinzento e balançava a cauda brilhante. Sozinho, repetiu a mesma música 33 vezes sem cansar.

Enquanto a corte ouvia o brinquedo, o rouxinol cinzento voou pela janela aberta, de volta ao bosque. Quando deram pela falta, chamaram o pássaro de ingrato, e o imperador o expulsou do império.

O mestre de música escreveu 25 volumes sobre o pássaro de ouro, que ganhou a almofada de seda junto da cama e o posto de cantor imperial da mesa de cabeceira, do lado esquerdo, que é o lado do coração.

A mola

Um ano depois, uma mola pulou dentro do pássaro, as rodas giraram soltas, e a música parou. O relojoeiro avisou que as engrenagens estavam gastas e não havia peça nova: dali em diante, o pássaro só podia cantar uma vez por ano. Cinco anos depois, o imperador adoeceu.

A janela

Na noite do quarto, com a Morte sentada no peito do imperador, um canto entrou pela janela. Era o rouxinol cinzento, pousado num galho do lado de fora: tinha ouvido falar da doença e viera cantar consolo e esperança.

Os rostos das cortinas foram empalidecendo, e o sangue voltou a correr no corpo do imperador. A própria Morte escutou e pediu: “Canta mais, passarinho, canta mais!”

O rouxinol cobrou uma canção pela espada de ouro, outra pela bandeira e outra pela coroa, e a Morte entregou as três. Então ele cantou o cemitério quieto, onde crescem rosas brancas, e a Morte sentiu saudade do próprio jardim e saiu pela janela como uma névoa fria.

O rouxinol recusou morar no palácio, mas prometeu voltar à noite para cantar. Pediu um segredo: ninguém podia saber que o imperador tinha um passarinho que lhe contava tudo.

O imperador dormiu e acordou com o sol na janela e o rouxinol ainda no galho. Nenhum criado tinha voltado ao quarto: todos achavam que iam encontrar o imperador morto.

 
 

II  A Origem

A cantora de Estocolmo

Andersen escreveu o conto em Copenhague, no outono de 1843, semanas depois de se apaixonar por Jenny Lind, soprano sueca de 23 anos.

Hans Christian Andersen tinha 38 anos. Filho de um sapateiro e de uma lavadeira de Odense, chegou a Copenhague aos 14, sem dinheiro, querendo ser ator e cantor. O primeiro livrinho de contos dele saiu em 1835 e trazia A Princesa e a Ervilha.

Ele tinha conhecido Jenny Lind em 1840, numa visita dela à cidade, e mal foi notado. Em 1843 ela voltou para cantar no Teatro Real de Copenhague, e Andersen saiu do teatro apaixonado.

Ela respondeu com amizade e, nos anos seguintes, chamava Andersen de irmão. Em 1852, em Boston, casou-se com o pianista alemão Otto Goldschmidt, e Andersen nunca se casou com ninguém.

O conto chinês

No diário, no dia 11 de outubro, Andersen anotou que tinha começado “o conto chinês”. Estava no Tivoli, o jardim de diversões aberto em Copenhague dois meses antes.

Andersen nunca pisou na China. O ponto mais a leste das viagens dele foi Constantinopla, em 1841. A China do conto, onde o imperador nem tem nome, saiu inteira da imaginação dele.

O livro saiu em 1843, no dia 11 de novembro, pela casa do editor C. A. Reitzel: Nye Eventyr (Contos Novos), um volume fino com quatro histórias. Uma delas era O Patinho Feio.

O rouxinol sueco

Jenny Lind nasceu em Estocolmo em 1820 e virou a cantora mais famosa da Europa na década seguinte ao conto, chamada pelo público de Rouxinol Sueco. Em 1850 cruzou o Atlântico para uma turnê americana organizada pelo empresário P. T. Barnum.

O apelido e a data prenderam a cantora ao conto: o rouxinol pequeno e cinzento, que canta melhor que o pássaro de joias, é lido como a homenagem de Andersen a ela.

Andersen deixou escrito, na autobiografia, o que ela tinha representado para ele:

“Só por meio de Jenny Lind eu senti a santidade da Arte; com ela aprendi que é preciso esquecer de si mesmo a serviço do Altíssimo.”

Hans Christian Andersen, O Conto de Fadas da Minha Vida (Mit Livs Eventyr), 1855.

A história seguiu viva depois do livro. O compositor russo Igor Stravinsky fez dela a ópera O Rouxinol (Le Rossignol), que estreou na Ópera de Paris em 1914.

Andersen morreu em Copenhague em 1875, e Jenny Lind, na Inglaterra, em 1887.

 

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III  A Lição que Fica

O pássaro sem corda

O mestre de música defendeu o pássaro de ouro diante da corte. Com o rouxinol cinzento, dizia ele, nunca se sabia o que vinha depois; com o de ouro, tudo estava decidido de antemão, e dava para abrir a peça e mostrar como uma nota seguia a outra.

A corte gostou da ideia. O de ouro obedecia: girava a chave, ouvia a música; girava de novo, ouvia de novo, igual.

O pássaro de ouro nunca errou uma nota, e na noite difícil não cantou nenhuma.

A falha veio da corda. O brinquedo dependia de alguém para girar a chave, e na noite em que o imperador mais precisou, os criados estavam nos salões saudando o sucessor.

A volta sem convite

O rouxinol cinzento tinha sido expulso do império e voltou mesmo assim. Ninguém mandou buscá-lo: ouviu falar da doença e veio por conta própria.

Também não voltou como cortesão. Recusou a gaiola e as fitas de seda. Pediu para cantar no galho, do lado de fora, e trazer notícias dos pescadores e dos pobres que o imperador não via do palácio.

Quando o imperador quis quebrar o pássaro de ouro em mil pedaços, o rouxinol o impediu: “Ele fez o bem que pôde. Guarde-o como antes.”

O conto não manda jogar fora o brinquedo. O erro da corte foi expulsar o vivo para abrir espaço ao mecânico, como se coubesse um pássaro só no palácio.

Na vida comum, os dois aparecem com outros nomes: a lista de músicas do celular, que toca igual toda manhã, e o amigo que liga sem hora marcada; o vídeo da festa e a avó que conta a festa de um jeito diferente a cada vez.

Lendo com uma criança

Ler o conto com uma criança pede paradas curtas, e quatro delas funcionam bem.

• Na vaca e nas rãs: pergunte por que a corte confundiu os bichos com o rouxinol.

• No pacote do Japão: pergunte qual dos dois pássaros ela gostaria de ter.

• Na mola que pulou: pergunte quem cuida do pássaro de ouro quando ele quebra.

• Na janela: pergunte por que o rouxinol voltou depois de expulso.

Se a criança escolher o pássaro de ouro na segunda parada, repita a pergunta depois da quarta.

“Quem, perto de você, canta sem precisar de corda?”

O imperador disse bom-dia.

 
 
 

Quiz da edição

No conto, quantas vezes o pássaro mecânico de ouro repetiu a mesma música, sozinho, sem cansar?

A12 vezes
B25 vezes
C33 vezes
D5 vezes

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