|
O Rouxinol, conto que o dinamarquês Hans Christian Andersen publicou em 1843, começa com um imperador que descobre o melhor do próprio reino lendo um livro.
Viajantes de muitos países visitavam a capital do imperador e voltavam para casa escrevendo livros sobre o palácio de porcelana e o jardim com sininhos de prata nas flores. Todos punham acima do resto o rouxinol do bosque.
Um desses livros chegou às mãos do imperador, que nunca tinha ouvido falar de rouxinol nenhum. Mandou o camareiro trazer o pássaro naquela noite, ou a corte inteira levaria socos na barriga depois do jantar. Nenhum cortesão conhecia o bicho.
A ajudante de cozinha
Quem conhecia era uma menina pobre da cozinha, que toda noite levava sobras para a mãe doente, na praia, e parava no bosque na volta. “As lágrimas me vêm aos olhos, como se minha mãe me beijasse”, contou ela.
No caminho, a corte confundiu o mugido de uma vaca e o coaxar das rãs com o canto do pássaro. No galho, a menina apontou um passarinho cinzento, e o camareiro achou o bicho sem graça.
No palácio, o rouxinol cantou, e lágrimas desceram pelo rosto do imperador. Ofereceram ao pássaro o chinelo de ouro do imperador para usar no pescoço, e ele recusou: as lágrimas já pagavam o canto. A menina ganhou o cargo de cozinheira da corte.
O pacote do Japão
O rouxinol ganhou gaiola e doze criados, todos segurando fitas de seda amarradas na perna dele. Um dia chegou do imperador do Japão um pássaro mecânico de ouro, coberto de diamantes, rubis e safiras, com uma fita no pescoço: “O rouxinol do imperador do Japão é pobre perto do rouxinol do imperador da China.”
Com corda, o pássaro mecânico cantava uma das músicas do cinzento e balançava a cauda brilhante. Sozinho, repetiu a mesma música 33 vezes sem cansar.
Enquanto a corte ouvia o brinquedo, o rouxinol cinzento voou pela janela aberta, de volta ao bosque. Quando deram pela falta, chamaram o pássaro de ingrato, e o imperador o expulsou do império.
O mestre de música escreveu 25 volumes sobre o pássaro de ouro, que ganhou a almofada de seda junto da cama e o posto de cantor imperial da mesa de cabeceira, do lado esquerdo, que é o lado do coração.
A mola
Um ano depois, uma mola pulou dentro do pássaro, as rodas giraram soltas, e a música parou. O relojoeiro avisou que as engrenagens estavam gastas e não havia peça nova: dali em diante, o pássaro só podia cantar uma vez por ano. Cinco anos depois, o imperador adoeceu.
A janela
Na noite do quarto, com a Morte sentada no peito do imperador, um canto entrou pela janela. Era o rouxinol cinzento, pousado num galho do lado de fora: tinha ouvido falar da doença e viera cantar consolo e esperança.
Os rostos das cortinas foram empalidecendo, e o sangue voltou a correr no corpo do imperador. A própria Morte escutou e pediu: “Canta mais, passarinho, canta mais!”
O rouxinol cobrou uma canção pela espada de ouro, outra pela bandeira e outra pela coroa, e a Morte entregou as três. Então ele cantou o cemitério quieto, onde crescem rosas brancas, e a Morte sentiu saudade do próprio jardim e saiu pela janela como uma névoa fria.
O rouxinol recusou morar no palácio, mas prometeu voltar à noite para cantar. Pediu um segredo: ninguém podia saber que o imperador tinha um passarinho que lhe contava tudo.
O imperador dormiu e acordou com o sol na janela e o rouxinol ainda no galho. Nenhum criado tinha voltado ao quarto: todos achavam que iam encontrar o imperador morto.
|