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Os chifres do cervo na fonte
Na fábula de Esopo, o cervo admira a coroa da cabeça, despreza as pernas finas e descobre na fuga qual das duas o salva.
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O cervo debruçado sobre a água da fonte
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“Que coroa eu carrego na cabeça”, disse o cervo para si mesmo, debruçado sobre a fonte no meio do bosque, numa tarde de calor em que tinha descido para beber.
A água estava parada. Nenhum vento mexia a superfície, e o reflexo saía nítido, com cada ponta dos galhos de osso desenhada contra o céu.
Ele virou a cabeça para um lado, depois para o outro. Contou as pontas. Admirou a largura, a curva, o jeito como os chifres se abriam feito copa de árvore.
Nenhum outro bicho do bosque tinha enfeite igual. A raposa tinha a cauda, o pavão ficava longe, nas fazendas dos homens. O cervo tinha a coroa.
Então baixou os olhos e viu as próprias pernas refletidas na beira da água.
Finas, compridas, secas, com joelhos marcados e cascos pequenos. Pareciam gravetos enfiados num corpo grande demais para elas.
O orgulho de um segundo antes virou queixa. Uma cabeça daquelas merecia outro apoio, pensou ele. Pernas grossas, fortes, bonitas de olhar, à altura da coroa.
Ficou ali um bom tempo, dividido entre a parte de si que amava e a parte de si que tinha vergonha de mostrar.
O bosque, nesse meio-tempo, seguia o próprio dia. Os pássaros calaram de repente. Lá longe, para os lados da estrada, alguma folhagem estalou.
O cervo não ouviu. Estava ocupado demais olhando a água.
Quem ouviu primeiro foi o corpo. As orelhas giraram sozinhas para trás. Um latido chegou, depois outro, depois a voz de um caçador chamando os cães pelo bosque.
Adiante, a corrida pelo campo e pelo mato, e o que cada parte do cervo fez quando a matilha apareceu. Depois, o escravo grego que contou a história e os poetas que a guardaram por escrito em grego, latim e francês. Por fim, o que a cena da fonte ensina a quem a lê junto com uma criança.
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I A Fábula do Dia
A corrida entre o campo e o mato
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Na versão mais conhecida, guardada pelo poeta romano Fedro no século 1, o cervo foge dos cães pelo campo aberto e só é pego quando entra no bosque.
O primeiro salto saiu antes de qualquer pensamento. As pernas finas, que um minuto antes pareciam gravetos, empurraram o corpo inteiro para longe da fonte.
Os cães vinham pela trilha, de focinho baixo, seguindo o cheiro. Atrás deles, os caçadores, a pé, gritando para manter a matilha unida.
O cervo saiu do bosque e ganhou a planície. Ali, no capim baixo, sem tronco nem galho no caminho, ele virou outro bicho.
Cada passada cobria um pedaço enorme de chão. Os cascos pequenos mal tocavam a terra. Os joelhos marcados dobravam e esticavam como mola.
Os cães corriam o quanto podiam e não diminuíam a distância. A cada curva do campo, o cervo abria mais vantagem.
As pernas que ele desprezara estavam salvando a vida dele. Nenhuma ponta da coroa ajudava em nada na corrida. Eram só peso, balançando lá em cima.
Depois do campo vinha outro trecho de mata, mais fechada, com árvores baixas e ramos entrelaçados. O cervo entrou nela sem pensar, procurando onde se esconder.
Ali começou o erro da fuga.
Os chifres largos, que se abriam feito copa, bateram no primeiro galho atravessado. O cervo puxou a cabeça e enroscou mais fundo. Tentou de novo, e as pontas prenderam em outro ramo.
Ele ficou ali, preso pela coroa, com as pernas livres e inúteis, girando no lugar, cavando a terra com os cascos.
Os latidos foram chegando mais perto. O cheiro de bicho assustado era fácil de seguir, e os cães não precisavam mais farejar a trilha: bastava correr na direção do barulho dos galhos sacudidos. Agora não havia distância a abrir, nem campo a cruzar.
Na versão de Fedro, o cervo tem tempo para uma última fala antes de os cães o alcançarem, e é ela que dá sentido à fábula inteira.
“Ai de mim, infeliz”, diz ele, “só agora entendo o quanto me era útil aquilo de que eu desdenhava, e quanta dor trazia aquilo de que eu me gabava.”
Os cães chegaram e o despedaçaram. A fábula termina na mata, sem ninguém para soltar o cervo e sem final trocado.
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II A Origem
Do escravo de Samos aos versos de Fedro
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Esopo, a quem a fábula é atribuída, foi um escravo grego da ilha de Samos que viveu no século 6 antes de Cristo, segundo o historiador Heródoto.
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Heródoto, no segundo livro das Histórias, escrito por volta de 430 antes de Cristo, cita Esopo como escravo de um homem chamado Iadmon, morador de Samos, e o chama de autor de fábulas.
É uma das poucas notícias antigas e confiáveis sobre ele. O resto da biografia de Esopo veio de um romance popular escrito séculos depois, a Vida de Esopo, cheio de cenas inventadas.
Esopo, até onde se sabe, não escreveu nada. Nenhum texto com a letra dele chegou até nós, e os gregos antigos já o tratavam como figura meio lendária. As fábulas circulavam faladas, contadas em banquetes, tribunais e discursos, como exemplo rápido para ganhar uma discussão.
Quem pôs no papel
O primeiro a reunir as fábulas por escrito foi Demétrio de Falero, político de Atenas, por volta de 300 antes de Cristo. A coleção dele se perdeu.
Sobraram as versões de dois poetas. Fedro, liberto (escravo que ganhou a liberdade) da casa do imperador Augusto, escreveu as fábulas em versos latinos no século 1. A do cervo é a décima segunda do primeiro livro, com o título Cervus ad fontem (O cervo na fonte, em latim).
Bábrio, poeta que escreveu em grego por volta do século 2, contou a mesma história em coliambos (versos de ritmo manco, com o último pé arrastado), na fábula 43 da coleção dele.
No catálogo montado pelo estudioso americano Ben Edwin Perry em 1952, a fábula do cervo leva o número 74 do índice Perry (a numeração usada até hoje para identificar cada fábula esopiana).
Fedro abre a fábula avisando o leitor da moral, antes mesmo da cena da fonte.
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“Laudatis utiliora quae contempseris saepe inveniri haec exserit narratio.”
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Fedro, Fábulas, livro 1, fábula 12, século 1: “Esta história mostra que aquilo que você desprezou muitas vezes se revela mais útil do que aquilo que você elogiou.”
A volta em francês
Em 1668, o poeta francês Jean de La Fontaine recontou a cena no livro sexto das Fábulas, sob o título Le Cerf se voyant dans l'eau (O cervo que se vê na água).
La Fontaine mudou o fim. Em vez de terminar na mata, o poema vira para o leitor e lembra que a gente estima o belo e despreza o útil, e que o belo muitas vezes nos perde.
Na versão francesa, os chifres custam ao cervo a vida da mesma forma, mas o poeta deixa o cervo calado e fala ele mesmo. A última palavra sai da boca do autor, e não do bicho.
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