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Fábula do Dia   Fábula do Dia
ED 039
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Três puxaram a carroça e ela ficou no lugar

O cisne puxou para o céu, o lúcio para o rio e o caranguejo para trás, e a carga era leve demais para explicar o resultado.

O cisne puxando a corda para o alto, o lúcio virado para a água e o caranguejo recuando na terra, com a carroça parada no meio da estrada.

O cisne, o lúcio e o caranguejo na mesma corda

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"Quando não há acordo entre os companheiros, o trabalho deles não anda", escreveu o fabulista russo Ivan Andreevich Krylov na abertura do verso que publicou em São Petersburgo, em 1814, sobre um cisne, um lúcio e um caranguejo atrelados à mesma carroça.

A fábula inteira cabe em treze versos. Não há vilão, não há trapaça, não há bicho preguiçoso. Os três animais aparecem dispostos a trabalhar e nenhum deles desiste no meio.

O que existe é uma corda só e três destinos diferentes para ela. O cisne sabe subir, o lúcio sabe nadar, o caranguejo sabe andar de costas. Cada um faz aquilo que faz bem.

A carga, no verso russo, é descrita como leve. Krylov faz questão de dizer que um deles sozinho daria conta do serviço. O peso não é o obstáculo da história, e essa escolha do autor muda o alvo da fábula.

O lúcio, para quem nunca viu um, é um peixe predador de rio e de lago, comprido, de boca larga, comum nas águas da Rússia. Ele não tem perna nem asa. Puxar, para ele, significa mergulhar.

O caranguejo anda para trás quando está com pressa. É o movimento natural do bicho, não um defeito de caráter. O cisne, por sua vez, bate asa e ganha altura, o modo de deslocamento que ele domina de verdade.

Some as três forças e o resultado é zero. A carroça balança, range, e continua exatamente onde estava quando os três se atrelaram.

Com criança a cena funciona de pé. Dá para amarrar um pano em três mãos, pedir que cada uma puxe para um canto do cômodo e mostrar o que acontece com o pano no meio. O nó fica parado no ar.

A leitura em voz alta pede três vozes distintas e um silêncio no fim. O verso final de Krylov virou provérbio em russo e se diz em três palavras, do jeito seco de quem já sabe o que vai encontrar ao voltar.

A fábula vem inteira aqui embaixo, do dia do atrelamento até o último puxão. Depois dela, a origem declarada, com o autor russo, o ano da publicação, o que ele escreveu antes de virar fabulista e o motivo de esta história não ter pai grego. E no fim, o que uma carga leve e parada ensina sobre trabalho combinado.

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I  A Fábula do Dia

Três forças na mesma corda e nenhum metro andado

O dia do atrelamento, o formato de cada puxão e o que restou da carroça quando os três pararam para tomar fôlego.

O cisne, o lúcio e o caranguejo combinaram levar uma carroça carregada. Fecharam o acordo entre eles, sem patrão e sem sorteio de função.

A carroça estava na beira da estrada.

A carga era leve.

Qualquer um dos três daria conta sozinho, com esforço e tempo.

Eles preferiram dividir o serviço.

Amarraram os três na mesma corda.

O cisne ficou na ponta de cima.

O lúcio ficou virado para a água.

O caranguejo ficou de costas para a estrada.

Ninguém reclamou da posição.

Deram o primeiro puxão juntos.

O cisne abriu as asas e subiu.

Puxou a corda na direção das nuvens.

A frente da carroça levantou um palmo do chão.

O lúcio se jogou para o rio.

Puxou a corda na direção da água.

A carroça inclinou para o lado do barranco.

O caranguejo cravou as patas na terra e recuou.

Puxou a corda para trás, com o corpo inteiro.

A carroça voltou ao ponto onde estava.

Os três puxaram de novo.

Desta vez com mais força.

O cisne bateu as asas até perder pena.

O lúcio esticou o corpo até a cauda sair da água.

O caranguejo abriu um sulco na terra com as patas.

A corda ficou dura como vara.

A madeira da carroça rangeu.

Uma tábua da lateral trincou.

A roda da frente girou meia volta e travou.

Nenhum dos três afrouxou.

Nenhum dos três olhou para o lado.

Cada um puxava com toda a força que tinha.

Cada um puxava para um lugar diferente.

O sol subiu e desceu sobre a estrada.

A carroça continuou no mesmo ponto da terra.

O cisne parou primeiro, sem fôlego.

O lúcio afundou para respirar.

O caranguejo soltou as patas e ficou quieto.

Os três estavam exaustos.

A carga estava intacta.

Ninguém tinha errado a própria tarefa.

O cisne voou como cisne voa.

O lúcio nadou como lúcio nada.

O caranguejo andou como caranguejo anda.

A carroça não saiu do lugar.

 
 

II  A Origem

O verso russo de 1814 que virou provérbio

Um dramaturgo que virou fabulista aos quarenta anos, uma fábula sem pai grego, um verso final de três palavras que entrou na fala comum da Rússia e uma tradução que o português nunca resolveu por completo: o cisne, o lúcio e o caranguejo chegaram aqui por caminho próprio.

Ivan Andreevich Krylov nasceu em Moscou em 1769 e passou a primeira metade da vida escrevendo peças de teatro e editando revistas satíricas que a censura da época fechava com frequência.

Ele começou a publicar fábulas em 1809, já perto dos quarenta anos, e foi por elas que ficou conhecido. Os livros seguintes saíram até 1843, um ano antes do fim da vida dele.

Boa parte do repertório de Krylov são versões russas de Esopo e de Jean de La Fontaine, o francês que pôs as fábulas gregas em verso no século XVII. O cisne, o lúcio e o caranguejo não estão entre elas.

Esta é uma fábula inventada por Krylov, sem modelo grego e sem modelo francês. Ele publicou o texto em 1814, em São Petersburgo, quando a corte russa discutia em público a divisão de funções dentro do Conselho de Estado.

Os comentadores russos do século XIX leram a história como recado sobre esse desacordo de gabinete. Krylov nunca confirmou o alvo por escrito, e o que se sabe hoje para em cima disso: a data bate com a discussão da corte, e a ligação entre as duas ficou no terreno da interpretação, sem documento que a feche.

Quando não há acordo entre os companheiros, o trabalho deles não anda, e o que sai dali é tormento, não serviço. Só que a carroça continua lá até hoje.

Ivan Andreevich Krylov, O Cisne, o Lúcio e o Caranguejo, Fábulas, 1814.

Por que o último verso sobreviveu ao resto da fábula

A frase final em russo, "a voz i nýne tam", que se traduz por "e a carroça continua lá até hoje", virou expressão corrente e hoje se usa em jornal, em reunião e em conversa de rua para dizer que nada saiu do papel.

O termo russo voz, no verso original, nomeia a carroça de carga puxada por tração animal, o veículo comum de transporte de mercadoria na estrada russa do século XIX. O objeto parado é a imagem que sustenta o provérbio.

Na tradução para o português, o peixe dá trabalho. O russo shchuka nomeia o lúcio, peixe de água doce que nas versões brasileiras aparece ora como lúcio, ora trocado por outro peixe conhecido do leitor daqui, o que altera o bicho mas mantém a direção do puxão.

O caranguejo do original, rak, é o lagostim de rio, crustáceo de água doce que recua rápido quando se assusta. A tradução por caranguejo pegou no Brasil e se firmou nos livros escolares.

Krylov morreu em 1844, em São Petersburgo, com as fábulas já em uso nas escolas do império. O monumento a ele no Jardim de Verão da cidade, inaugurado em 1855, traz os animais das fábulas em relevo no pedestal.

 

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III  A Lição que Fica

O que trava uma carga leve

A primeira leitura da fábula é a mais direta: três esforços grandes podem somar zero quando apontam para lugares diferentes.

Repare no detalhe que Krylov colocou de propósito no verso. A carga era leve. O obstáculo da história não é o peso da carroça nem a falta de força dos três.

Nenhum dos animais fez corpo mole. Cada um entregou o máximo que o corpo dele permite, no formato que ele conhece, e o resultado do dia foi o mesmo que se ninguém tivesse aparecido.

A fábula não trata de preguiça nem de má vontade. Trata do que acontece quando três pessoas competentes se atrelam à mesma corda sem combinar antes para onde ela vai ser puxada.

O cisne não estava errado em voar. O lúcio não estava errado em nadar. O caranguejo não estava errado em recuar. Cada movimento é correto dentro do próprio bicho e destrutivo dentro do conjunto.

Vale dizer também o que a fábula não ensina. Ela não manda escolher um chefe, não condena o trabalho em grupo e não sugere que os três deveriam ter ficado em casa. O aviso é mais estreito: acordo sobre a direção vem antes do primeiro puxão, porque depois da corda esticada ninguém enxerga o que o outro está fazendo.

Antes de começar: diga a idade e o tempo em voz alta. A partir dos quatro anos, meio minuto de leitura.

Na hora do atrelamento: mostre a corda com um pano e ponha três mãos nele, uma para cima, uma para baixo e uma para trás.

Na hora dos puxões: faça o som da madeira rangendo e deixe o pano parado no ar, sem ceder para lado nenhum.

Na hora do fim: solte o pano de uma vez e diga a última linha em voz baixa, sem explicar nada depois.

O adulto que lê reconhece a corda esticada na reunião em que todos concordam com o objetivo e cada área entende uma entrega diferente, na casa em que os dois economizam para metas opostas, e no time em que ninguém falha na própria tarefa e o projeto para no mesmo lugar por seis meses.

“Para onde cada um está puxando a sua corda hoje?”

A corda continuou esticada.

A tábua trincou.

A carroça ficou onde estava.

 
 

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APara cima, na direção das nuvens
BPara o rio, mergulhando
CPara trás, cravando as patas na terra
DPara os lados, em círculos

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